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Quando o “Like” Rege o Mundo: ignorância, estupidez e a tentação autoritária
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Quando o “Like” Rege o Mundo: ignorância, estupidez e a tentação autoritária<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Quando, há muitos anos atrás, escrevi um poema, posteriormente publicado em “URBI – poemas datados” com o título “elogio dos estúpidos”, não fazia a mínima ideia de como a “estupidez” viria a reger de modo tão ativo e presente, o agora e o possível futuro da nossa espécie.

No entanto, se olharmos para o mundo atual e para aquele se pode prever, pelo menos nos tempos mais próximos, somos levados a um estado disfórico muito depressivo. Confesso que tenho dificuldades em admitir, num mundo onde o conhecimento é cada vez maior e mais fácil de obter, que grande parte da Humanidade, por preguiça, inveja, ambições desmedidas, falta de respeito pelo outro e tantas outras coisas que enumerá-las ficaria fastidioso, optem, claramente, pela facilidade idiota, pela certeza absoluta da estupidez. Para não ficarem muito ofendidos por esta declaração declaro que ela é transversal a estatutos e educações, sendo, cada um de nós, a seu modo e em dissemelhantes casos parte de alguns conglomerados de efetivos militantes nestes decadentes “exércitos”.
Assim, em prolongadas conversas com o chatGTP chegámos ao produto que abaixo se apresenta. Neste artigo o meu papel foi criar perguntas, cada vez mais dirigidas e aprofundadas, fazer apreciações e contradições, a gerarem mais perguntas e ainda mais, sendo este o resultado, após revisão e edição final feita por mim.
Comecemos por definir dois conceitos, por vezes muito confundidos: ignorância e estupidez. O primeiro representa a mera ausência de conhecimento, sempre possível de ser ultrapassada por algum esforço em adquiri-lo; o segundo é o mau uso do conhecimento disponível numa recusa de pôr os factos ao serviço do juízo. Se, como disse, a ignorância pode ser remediada com informação, já a estupidez exige algo mais difícil, dúvida, autocrítica e vontade de mudar. Por isso, entre os dois males, a estupidez é, de longe, o mais pernicioso. Individualmente, leva-nos a repetir erros que poderíamos evitar; socialmente, corrói a confiança que mantém de pé mercados, instituições e direitos, exatamente como previu Carlo Cipolla na sua célebre “terceira lei” (o estúpido causa perdas a todos sem proveito próprio) (Freedom House).
Esse desperdício coletivo da razão oferece terreno fértil ao populismo. As redes sociais — aceleradoras históricas do contacto entre ignorância e estupidez — transformam clichés em verdades instantâneas: bastam um slogan moral simplista, uma imagem emotiva e a mecânica de “partilhas” para que se instale a convicção. Uma revisão de 2025 do Instituto Max Planck mostra que estes algoritmos reforçam bolhas, amplificam vozes extremas e minam a confiança institucional (mpg.de). Quando a indignação passa a chegar pré-mastigada, a dúvida sai de cena; o campo fica livre para líderes que prometem soluções tão fáceis quanto falsas.
Os números confirmam deslizamento populista e autoritário. A Freedom House regista 19 anos consecutivos de declínio global da liberdade, com retrocessos em 60 países, só em 2024 (Freedom House, Democracy Without Borders). A Economist Intelligence Unit mede a qualidade da democracia mundial em 5,17 numa classificação de 0 a 10, a qual representa um mínimo histórico (DeepNewz). E o relatório V-Dem de 2025 calcula que 5,8 mil milhões de pessoas — cerca de 72 % da humanidade — já vivem sob regimes autocráticos, num mundo onde 91 Estados são autocracias contra 88 democracias (v-dem.net).
Musil oferece a grelha explicativa: a estupidez estética (o kitsch que se faz passar por arte) atrai atenções; a moral (indignação imediata e sem prova) converte emoções em certezas indiscutíveis; a política (slogans simplistas, sem fundamentação, mas que ficam no ouvido) fornece o programa; e a relacional (bolhas digitais) fecha o círculo vicioso. Os Populistas exploram cada etapa: cenários “instagramáveis”, acusações relâmpago aos “inimigos do povo”, promessas de purgar elites (da qual fazem, ou tentam, fazer parte) e, por fim, uma comunidade virtual com fé tão cega no líder ou no “post”, que nenhum facto ou prova, por mais evidente que sejam, logra convencer, entrando em negação frontal e violenta a todas as evidência que contrariem as suas crenças.
Se queremos medir riscos, o curto prazo (até 2030) é o mais sombrio: analistas do Atlantic Council consultaram os trabalhos de 357 peritos e 62 % creem que o mundo estará pior daqui a dez anos, sobretudo por causa da deriva autoritária (Atlantic Council).
No médio prazo (2030-2045), um “think-tank” norte-americano estima em 60-70 % a probabilidade de os Estados Unidos se tornarem um regime híbrido ou abertamente autocrático, sinal de que nem as democracias maduras estão imunes (gtnm.org).
Para 2050, estudos de cenarização, como o Trend Compendium 2050 da Roland Berger, apontam para um equilíbrio instável: a inovação tecnológica facilita tanto a participação cívica como o controlo totalitário, deixando a balança quase em paridade, dependente de escolhas regulatórias (Roland Berger).
Evitar que a maré autoritária se imponha exige reinstalar a dúvida sistemática, através de, entre ouras ações a utilização de filtros de verificação antes de partilhar, advogados-do-diabo institucionais, júris de cidadãos e curricula escolares que ensinem a reconhecer falácias.
A boa notícia é que a própria tecnologia oferece antídotos.
A União Europeia inaugurou, com o Digital Services Act, auditorias obrigatórias a algoritmos de plataformas gigantes, impondo transparência sobre recomendação de conteúdos (EUR-Lex). Mais de sessenta organizações de fact-checking lançaram em 2025 o Global Fact-Check Chatbot, uma IA multilíngue que faz desmentidos em tempo real (FactWatch). Laboratórios cívicos, como o Information Integrity Lab da Onyx Impact, aplicam algoritmos para proteger minorias de campanhas de desinformação (Axios). E projetos de “soberania algorítmica” investigam como Estados democráticos podem auditar e ajustar sistemas de IA aos seus valores constitucionais (SpringerLink).
O futuro não está escrito; mas a tendência só muda se transformarmos tecnologia em aliada da verificação e não da histeria, e se a estupidez — essa “luz invertida” que brilha onde falta sombra de dúvida — encontrar barreiras institucionais antes de encontrar megafones.
Em última análise, a escolha entre uma rede que emancipa cidadãos ou encarcera consciências depende de quanto tempo investiremos a perguntar, antes de clicar e se aquilo que nos aparece no ecrã é conhecimento… ou apenas o próximo truque da ignorância armada de estupidez.
E pronto! Aqui ficam algumas das minhas dúvidas, inseguranças e mesmo receios, deixando-vos com a certeza que a coisa mais perigosa do mundo é um estúpido voluntarioso.

Carlos Alberto Correia

09.08.2025 - 07:50

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