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O Princípio da História
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

O Princípio da História<br />
Por Carlos Alberto Correia <br />
Barreiro Por vezes tenho destas manias. Pôr-me a pensar, como se tal me fosse permitido, nas grandes questões internacionais. Posso ser a voz da formiga contra o trovão, mas, enquanto me for possível não hei de deixar de trazer o meu produto à praça, mesmo que tal possa parecer ridículo ou pretensioso.

Assim, decidi-me a armar em Fukuyama ao contrário e trazer para debate o meu novo conceito “O princípio da História”
E aqui o vou expor com a capacidade possível, fazendo um esforço vão para chamar a atenção dos grandes do mundo para o facto de esta arraia-miúda não ir em cantigas e já “os topar ao longe”, mais às suas manhas.
Um dos recursos, bem antigo e eficaz, do poder político é a manipulação do tempo, quer-se dizer da narrativa histórica: escolher um momento preciso do passado — quase sempre arbitrário e conveniente — para eleger como legitimação para reivindicar algo no presente. É a esse gesto que decidi chamar de “o princípio da História”. Não o início no sentido inaugural, mas sim como argumento de autoridade. Quando um líder, um povo ou uma nação quer reclamar um território, justificar uma guerra ou impor uma identidade, procura no passado a raiz mítica, o direito “eterno”, a pertença indiscutível. O passado é convertido em arma política de grande calibre.

A História é feita de camadas sobrepostas, de fronteiras móveis, de impérios que surgem e desaparecem. Porém, para o discurso nacionalista, é reduzida a um instante, um fragmento conveniente. O tempo, rio em constante movimento, fica congelado como fotografia no momento desejado. Este artifício permite criar a ilusão de continuidade: “já fomos donos deste território, logo voltaremos a sê-lo”. A verdade factual, com todas as suas nuances e contradições, é sacrificada em nome de uma legitimidade ficcional e absoluta.
Como demonstração corro o risco de apresentar três casos os quais considero paradigmáticos: O sionista; o de Hitler o dos Sudetas e, finalmente, Putin e a Ucrânia.

Falemos então sobre o Sionismo. A fundação do Estado de Israel, após a Segunda Guerra Mundial, respondeu a uma tragédia concreta e avassaladora: o Holocausto. Milhões de judeus perseguidos encontraram na Palestina uma promessa de refúgio e soberania. Essa decisão teve respaldo político internacional, ainda que contestado: Como, na verdade, se poderia atribuir território a uma Nação, em lugares já ocupados por outras? Para tal, além da vontade expressa das potências administradoras, recorreu-se à legitimidade de uma fonte controversa. Muitos líderes e ideólogos sionistas preferiram ancorar a legitimidade do Estado nas Escrituras, evocando a posse daquelas terras por direito de permanência milenar e, sobretudo, por promessa divina. Ora, na realidade, vez alguma existiu tal posse ou permanência contínua, pois tratava-se de grupos nómadas, dispersos e em constante deslocação, sem qualquer posse efetiva e estável desses territórios. No entanto que valor teria isto quando confrontado com a promessa de Deus?

Assim, a fronteira entre mito e História tornou-se indistinta. As linhas da Bíblia passaram a valer mais do que os mapas das Nações Unidas. O passado longínquo foi usado como título de propriedade, como se a passagem dos séculos, das invasões e das mutações sociais pudesse ser ignorada. E quando o presente entra em conflito com esse passado idealizado, a política transforma-se em guerra.
Outro exemplo brutal foi oferecido por Hitler. No final da década de 1930, a Alemanha nazi reclamou os Sudetas, região então integrada na Checoslováquia. O argumento era simples: havia ali uma população de origem germânica e, portanto, tratava-se de “território historicamente alemão”. A História serviu de biombo para a estratégia expansionista. A retórica das raízes comuns mascarava o projeto de anexação e dominação.

O corolário foi a catástrofe que conhecemos: a Segunda Guerra Mundial. A reivindicação “histórica” não foi somente o pretexto para uma região específica, mas o primeiro passo de uma engrenagem totalitária que arrastaria a Europa para o abismo. O “princípio da História” revelou-se, neste caso, a faísca de um incêndio global.
Em pleno século XXI, Vladimir Putin recorre ao mesmo expediente. Para justificar a invasão da Ucrânia, reescreve a narrativa histórica: nega a existência de uma nação ucraniana independente, sustenta que Kiev é “o berço da Rússia” e reivindica a continuidade das fronteiras soviéticas.

No entanto, a realidade factual é bem distinta: a Ucrânia tem uma identidade própria, consolidada por séculos de resistências, fusões culturais e momentos de afirmação. Basta recordar a importância da Rus de Kiev, no século IX, como centro político e cultural do leste europeu, distinta das futuras formações russas; a persistência de uma língua própria, com raízes e evolução diferentes da russa; as lutas contra a dominação polaca e lituana no século XVII, que deram origem ao Hetmanato cossaco; ou, mais tarde, a resistência feroz à política de russificação e às tragédias impostas pelo regime soviético, como o Holodomor (a fome de 1932–33, provocada por Estaline, que matou milhões de ucranianos). Mesmo após séculos de ocupações e divisões, a Ucrânia manteve uma identidade cultural singular, visível na literatura, na música, na religião e, sobretudo, na memória de independência que se reafirmou em 1991 com a queda da URSS.

Mas Putin, para obter os seus desígnios, prefere regressar a um ponto conveniente do passado, como se pudesse congelar o tempo no século IX ou em 1945. A sua narrativa serve, sobretudo, para justificar o presente: a vontade de restauração de um império.
Estes casos ilustram o caráter oportunístico do “princípio da História”. A escolha do ponto de partida nunca é neutra. Se Israel tivesse fixado o seu direito na presença medieval de comunidades judaicas em várias cidades europeias, poderia reivindicar Paris, Viena ou Lisboa. Se Hitler tivesse ido mais longe na sua lógica, poderia reclamar territórios do antigo Império Romano-Germânico que hoje pertencem a França ou Itália. Se Putin levasse a sério o argumento de raízes comuns, teria de admitir também as raízes tártaras, mongóis ou bálticas da Rússia — e ver o império esfarelar-se.

A verdade é que a História factual — feita de mudanças, hibridismos e rutura — não serve certos discursos de poder. O que lhes interessa é a versão mitificada, congelada num instante útil, capaz de mobilizar emoções e legitimar violências. É converter o passado escolhido em propaganda justificatória dos seus atropelos expansionistas.
Neste ponto a comparação com Francis Fukuyama torna-se interessante. Em 1992, o autor norte-americano publicou O fim da História e o último homem, onde defendia que, com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, a humanidade teria chegado ao seu destino político final: a democracia liberal como forma universal de governo. A História, no sentido hegeliano de luta ideológica, teria terminado.

O otimismo de Fukuyama parecia razoável num mundo em euforia pós-guerra Fria. Mas os últimos trinta anos desmentiram-no. O “fim” anunciado deu lugar a múltiplos recomeços. Se Fukuyama acreditava na universalização do liberalismo, líderes como Putin, Netanyahu, Orbán ou Xi Jinping mostraram que há sempre espaço para narrativas alternativas, autoritárias ou híbridas. A História não só não morreu, como se reinventou em palco de disputas permanentes.
E, ironicamente, eu que me arrogo a invocar o “princípio da História” oportunista, tenho a pretensão de afirmar a viva falência da tese fukuyamiana. Longe de convergir para um modelo único, o mundo assiste à fragmentação das memórias, à multiplicação dos passados inventados, à concorrência de mitos fundacionais. O que Fukuyama via como ponto de chegada tornou-se apenas mais um ponto de passagem.

O contraste, quanto a mim, é revelador. Para Fukuyama, o problema era o excesso de História: o conflito ideológico terminaria, e a humanidade repousaria na estabilidade da democracia liberal. Para os líderes nacionalistas, o problema é o défice de História: é preciso fabricá-la, reinventá-la, regressar a um passado longínquo, ou mítico, para justificar o presente.
Na prática, ambos os discursos partilham uma característica: a instrumentalização do tempo. Fukuyama cristalizou o futuro; Putin,
Hitler e os sionistas cristalizam o passado. Nenhum deles respeita a História como processo vivo, em constante transformação.
O desafio para os cidadãos e para o jornalismo é resistir a essas manipulações. A História factual, por mais incerta ou contraditória que seja, não pode ser substituída por narrativas oportunísticas. O passado deve ser estudado, interpretado, debatido — nunca congelado em mitos convenientes.

Enquanto continuarmos a aceitar que a legitimidade política se funda em princípios arbitrários de História, estaremos condenados a repetir os mesmos ciclos de violência. Só quando encararmos o passado com honestidade e o presente com responsabilidade é que poderemos aspirar a um futuro que não seja apenas repetição.
O princípio da História, afinal, não deve ser uma arma. Deve ser uma lição.

Carlos Alberto Correia

25.08.2025 - 10:13

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