colunistas
O rei vai nu
Por Nuno Santa Clara
Barreiro
A estória original de “O rei vai nu” aparece num escrito por Hans Christian Andersen, mais tarde adaptado em forma de parábola por Ramalho Ortigão, nas suas “Farpas”. Erudições à parte, o conto tornou-se uma expressão corrente, significando o efeito de uma voz discordante (politicamente incorrecta) contra uma “verdade” (politicamente correcta) que afinal não passa de uma grosseira patranha.
Parábola importante nos tempos modernos, em que certas “verdades” recorrem a métodos científicos e meios informáticos poderosos para passar ao estatuto de incontestáveis.
Assistiu-se neste País a um mini tornado quando Marcelo Rebelo de Sousa declarou, na Universidade de Verão do PSD, que "o líder máximo da maior superpotência do mundo, objectivamente, é um activo soviético, ou russo”. Tirando o lapsus linguae do soviético, que se supõe morto e enterrado, a frase só pode surpreender os distraídos (voluntários ou não).
A colagem de Trump às teses de Putin sobre a Ucrânia, as suas expressões públicas de admiração pelo novo czar, as intervenções discretas (?) da Rússia em três actos eleitorais nos EUA, bem como todo um conjunto de factos não menores, mas menos conhecidos (que, em linguagem de informações militares, se chamam indícios técnicos), levam a pensar que se está, de facto, num novo ciclo de relações internacionais, com inversão de posições.
Disse um dia Otto von Bismarck, o célebre chanceler do Imperador Guilherme II, obreiro da unificação da Alemanha e da fundação do II Império Alemão, criador da Realpolitik (política e diplomacia pragmática), que “em política, o que parece, é”. Magister dixit.
De modo que, quando Marcelo Rebelo de Sousa se saiu com a frase tornada viral, mais não fez que assumir o papel do miúdo que, vendo o Rei em ceroulas, descreveu o que via: o Rei vai nu!
Despertar mágico da multidão, dos dignitários, dos ministros e afins.
Neste caso, Marcelo estava desperto, mas os dignitários e Ministros não se podiam dar por achados.
Daí a enxurrada de comentários que nos entraram pela casa dentro. Moderados os dos políticos, desenfreados os dos comentaristas profissionais.
Destes, respigamos três temas.
Primeiro, as possíveis reacções e retaliações, tarifárias ou outras, pela ousadia. Parece que até agora foram poucas, o que faz jus ao dito small is beautiful. Para despeito dos maníacos da grandeza, ou talvez porque o visado foi incapaz de localizar, no mapa, a morada do ofensor.
Segundo, porque estamos integrados da União Europeia, o que nos dá uma certa imunidade semelhante à de Victor Orban. Valha-nos Sainte Gudule, padroeira de Bruxelas, cuja catedral tem o seu nome.
Terceiro, porque a frase foi dita perante a Universidade de Verão do PSD, o que pareceu escandaloso a alguns. Significa isto que, para esses, aquela Universidade serviria para tornar os futuros líderes acomodados e subservientes, avessos a críticas ou heresias. No fundo, uma abordagem semelhante à que pretende Donald Trump para as Universidades americanas, mesmo as mais célebres, como Harvard.
Nuno Santa Clara
02.09.2025 - 18:43
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