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O eterno combate das elites
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

O eterno combate das elites<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Hoje, um pouco por todo o lado, vozes populistas erguem-se em clamor contra as elites, as quais, no seu parecer, são, na maior parte das vezes e segundo eles não só corruptas, como apodrecidas e inimigas das massas populares.

O discurso desta gente centra-se no “eles” iníquos e no “nós”, onde, evidentemente estão incluídos o “bom povo” – amálgama desconhecida, abstrata - e, evidentemente, como representantes lídimos das virtudes desse “bom povo”, estará o seu grande “nós - os justos”.

Muita gente cai nestes cantos de sereias que, sempre – e muitas vezes conseguem os seus intentos – chegados ao poder mostram a realidade da sua face, quantas vezes, por antidemocrática e ambiciosa, a tornar num inferno a sociedade que consideravam injusta e prometiam regenerar.

Assim, enojado com o recorrente discurso populista de denúncia contra “as elites” decidi tentar esclarecer um pouco sobre as perigosas intenções que carregam, prevenindo os incautos contra a hipocrisia de tal gente.
No seu discurso a palavra elites, repetida quase como um insulto, adquire uma conotação de privilégio ilegítimo, de grupo fechado que se sobrepõe à maioria. Contudo, se olharmos com atenção, percebemos que muitos dos que mais vocalmente atacam as elites não são propriamente adversários do conceito em si, mas sim representantes de uma elite alternativa, ainda não dominante, que procura ocupar o lugar da precedente.

Do ponto de vista antropológico, este movimento não surpreende. O ser humano, enquanto animal social, transporta consigo uma herança evolutiva: a tendência inevitável de hierarquizar qualquer grupo, de definir estatutos e papéis, de organizar relações de poder e prestígio. Assim como entre os primatas observamos lideranças, alianças e disputas internas, também na sociedade humana as elites constituem uma constante estrutural, assumindo formas diversas consoante o tempo e o contexto.

A história comprova este ciclo. Nenhuma elite é eterna. Aristocracias foram substituídas por burguesias, dinastias por repúblicas, elites coloniais por elites nacionalistas. As hierarquias sociais e políticas, por muito estáveis que aparentem ser, contêm sempre em si o germe da contestação e da transformação. Cada geração, cada movimento emergente, tende a questionar a legitimidade da elite vigente, reclamando o seu espaço. O discurso contra as elites, assim, é menos a negação da sua existência do que a afirmação de uma disputa: a tentativa de desalojar um grupo dirigente para lhe suceder.

O verdadeiro desafio não está, portanto, em saber se teremos ou não elites. A questão é inevitável: sempre as haverá. O ponto central está em determinar a natureza da elite dominante. Será ela fechada, defensora de privilégios rígidos, impermeável à renovação e à entrada de novos membros? Ou, pelo contrário, será suficientemente aberta para permitir a mobilidade social, para integrar vozes diversas, para garantir que o mérito, o esforço ou a criatividade podem levar qualquer indivíduo a participar dessa esfera de decisão?
É aqui que se joga a qualidade da vida democrática. Num sistema pluralista, a elite não deve ser entendida como um círculo restrito e hereditário, mas antes como um espaço em permanente renovação, que se legitima precisamente pela sua capacidade de inclusão. As universidades, a liberdade de imprensa, os partidos políticos, a circulação de ideias e de informação — todos estes mecanismos são vias de acesso que permitem à sociedade renovar as suas elites, evitando que se cristalizem.

Quando, em vez disso, a elite no poder se fecha sobre si mesma, exclui a participação ampla e transforma a diferença em ameaça, abre-se caminho para o ressentimento social e para o discurso populista que clama contra “os de cima”. O paradoxo, como vimos, é que tais discursos quase nunca visam abolir elites; procuram apenas substituir uma elite por outra, mantendo intacta a lógica hierárquica.
Por isso, talvez o que mais nos deve guiar neste debate não é a ilusão de um mundo sem elites — esse nunca existirá —, mas a exigência de elites permeáveis, que se deixem questionar e que aceitem o contraditório. Elites que, em vez de se erguerem como muralhas, funcionem como pontes: capazes de ligar a diversidade social, de incorporar talentos inesperados, de permitir que o poder circule em vez de se petrificar.

A saúde de uma comunidade mede-se, em larga medida, pela capacidade de transformar o combate eterno das elites num processo de renovação legítima, transparente e justa. Só assim se evita que a contestação degenere em rutura violenta e que o ressentimento se converta em destruição. Elites abertas não anulam a hierarquia, mas tornam-na dinâmica, plural e criadora — e esse talvez seja o mais próximo que poderemos chegar de uma sociedade verdadeiramente democrática, a qual, por mais insatisfatória que seja, será sempre muito melhor que qualquer ditadura “bem-intencionada”.

E por aqui me fico, sabendo que muito mais ficou por dizer e explicar, na certeza de que este desabafo de pouco servirá contra os megafones populistas, mas com a possibilidade de, caso aí se chegar, possa com verdade e inútil empáfia, enunciar o escusado e elitista “eu bem vos disse…”.

Carlos Alberto Correia

15.09.2025 - 18:29

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