colunistas
Babel, e suas intenções
Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Segundo a Bíblia, após o Dilúvio, os Homens decidiram construir uma torre que chegasse ao céu. Mas Deus, indignado com tal desaforo, confundiu a língua dos atrevidos humanos, que se dispersaram pela Terra, espalhando os novos idiomas.
O pior é que a ideia funesta foi com eles. E, por aqui e por ali, lá foram surgindo mega construções cujo único objectivo era enaltecer e eternizar o fundador da obra. Pirâmides, mausoléus, palácios, torres: quanto maior, melhor.
Acelerou-se de novo a corrida às torres, não havendo capital digna desse nome que não entre na corrida, com a Burj Khalifa, no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com 828 metros de altura e 160 andares. Não porque o terreno fosse escasso e caro, como noutras cidades: apenas pelo prestígio.
Mais modestamente, outros investem em centros de artes e cultura, como legado mais comedido, e até útil e prestador de serviços.
Exemplo clássico da “folie des grandeurs” foi que levou os reis de França a edificar a Palácio de Versailles, que levou séculos a terminar. As suas paredes e recheio arrastam multidões a visitá-lo, mas será sempre lembrado por dois acontecimentos históricos: a proclamação do II Império Alemão, em 1871, e a assinatura do Tratado que pôs fim à I Guerra Mundial (e que abriu o caminho para a II Guerra), na Galeria dos Espelhos. Esta é na verdade, um corredor amplo, com largas janelas e espelhos entre elas. Um espaço vazio, próprio para festas.
Com menos pompa, mas alguma circunstância, outras gentes de mando deixam alterações nas habitações de função, como Cavaco Silva, que em S. Bento fez construir uma piscina onde Salazar havia erigido... um galinheiro!
Vem agora Donald Trump anunciar a demolição de uma ala da Casa Branca para instalar um salão de baile. Rápido, eficiente, sem demoras de pareceres do Património ou da Câmara, e ao que parece, pago com donativos de apoiantes.
Um salão de baile? Vem-nos à cabeça bailes célebres nas capitais europeias, em que a realeza e alta nobreza rivalizavam nas valsas, polcas e mazurcas, enquanto pelos cantinhos os políticos teciam intrigas, os diplomatas alinhavavam tratados, os militares rectificavam fronteiras e os casamentos reais iam sendo decididos.
Não nos parece que tal ambiente, galante e refinado, se venha a repetir entre as paredes, agora ocas, da Ala da Casa Branca. Nem que Trump seja grande dançarino: a única arte performativa que se lhe conhece foi numa arena de luta livre, o que não se coaduna com a obra agora em curso.
Restam os grandes momentos históricos, como os acima referidos, e para isso a ala oca não deve ficar atrás da Galeria dos Espelhos.
Assinaturas de tratados (sem faltar a exibição final, urbi et orbi, da elaborada e longa rubrica do Presidente, algo semelhante a um registo sísmico), atribuição de prémios e de prebendas, enfim, ali deve decorrer todo e qualquer acto merecedor de ficar na memória colectiva, com a pompa e circunstância que lhe forem atribuídas.
Com inspiração no fundador de Versailles, o majestático rei Luís XIV, que deixou para a História uma curta e densa frase: L´État, cest moi!´(O Estado sou eu!).
Pelo que é melhor ir pensando quem vai inaugurar o espaço, e se ele está programado para a entronização de outro que não o próprio pai da ideia.
Dado o constante na Vigésima Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos (Amendment XXII), que limita o número de vezes que uma pessoa pode ser eleita para o cargo de Presidente dos Estados Unidos a dois mandatos, Trump não pode ser reeleito.
A menos que, como sugerem criaturas como John Bolton ou Steve Bannon, surja “alguma solução que se vá encontrar”...
Ou se esclareça numa daquelas conversas entre portas do Air Force One, que parecem inspiradas na confusão das línguas lançada pelo Senhor, aquando da Torre de Babel.
Nuno Santa Clara
20.11.2025 - 16:29
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