colunistas
A Paz, a Guerra e o Dilema do Rearmamento Europeu: como sair da contradição
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro
A ordem Mundial em que vivemos, está praticamente em agonia. Cada vez mais ao direito sucede a força e, por todo o mundo, vemos acontecer coisas muito recentemente consideradas como impensáveis. Perante novas realidades é urgente que se encontrem novos caminhos.
Deste modo decidi entrar em diálogo com o ChatGTP, pedindo-lhe que desse umas voltas pela geoestratégia atual e que me respondesse ao dilema de querendo paz, ter que me preparar para a guerra. Eis aqui o resultado dessa longa conversa.
A maior parte das pessoas preferirá, certamente, a paz à guerra. A experiência quotidiana do cidadão comum — que trabalha, cria filhos, cultiva amizades, pensa no futuro e teme o sofrimento — faz da paz um estado natural desejado. O mundo doméstico é pacífico por instinto; o mundo político, nem sempre. A história humana demonstra que a guerra é, paradoxalmente, uma presença mais constante do que a paz. Ciclicamente ela regressa: como conflito tribal, disputa feudal, guerra imperial, guerra ideológica, guerra tecnológica, e, mais recentemente, como guerra híbrida, onde a força militar convive com a propaganda e a manipulação da informação.
Grande parte das guerras deriva de disputas territoriais e por recursos. O apetite pela terra agricultável, pelo acesso marítimo, pelas minas, pelo petróleo, pela água, pela posição estratégica, sempre foi motor de hostilidades. As guerras religiosas, muito frequentemente evocadas como combate pelo dogma, pela fé ou pela verdade espiritual, serviram , demasiadas vezes, como cortina para ambições materiais. Em Jerusalém, em Roma, na Península Ibérica, no Báltico, na era das Cruzadas, da Reconquista, ou da expansão otomana, a fé e a espada foram instrumentos cúmplices, mas os resultados concretos sempre se materializaram em conquista de poder e apropriação de riqueza.
Não surpreende portanto a antiga locução latina: si vis pacem, para bellum — “se queres paz, prepara-te para a guerra”. A frase assenta numa perceção realista da condição humana: quem tem força é respeitado; quem não tem, corre o risco de ser absorvido, dominado ou destruído. Esta lógica — que não é nobre, nem ética, mas incontornável em certos períodos da história — retorna hoje com inquietante atualidade, especialmente no contexto europeu.
É neste ponto que surge o meu espanto e a minha reflexão, perante a posição de amigos, conhecidos e colegas com os quais partilho muitos horizontes culturais e ideológicos. Muitos deles manifestam-se contra o rearmamento da Europa. A sua posição é moralmente legítima: receiam que armar-se seja preparar a guerra em vez de prevenir a sua ocorrência. Temem que o continente, ao investir em capacidades militares e ao desenvolver uma indústria bélica própria, possa contribuir para o ciclo global de produção e exportação de armamento, alimentando conflitos que de outra forma talvez não ocorressem. Ao criar fábricas de armas, criam-se empregos dependentes da continuidade da produção; empresas passam a necessitar de clientes; países terceiros tornam-se mercados. O risco moral é evidente: uma Europa armada pode ser uma Europa tentada a vender armas; e armas vendidas procuram fins.
Ficamos então perante a contradição:
— se não nos armamos, corremos o risco de ficarmos indefesos perante agressões exteriores;
— se nos armamos, participamos no mecanismo que perpetua a violência global.
Num mundo que trocou a força da razão pela razão da força, a Europa descobre-se fragilizada. A guerra voltou ao centro da Europa com a invasão da Ucrânia pela Rússia. O Médio Oriente permanece em chamas. A China expande-se pelo Pacífico. Os Estados Unidos, outrora fiadores da segurança europeia, mostram hesitações estratégicas e isolamento crescente. A Europa percebe que não pode eternamente repousar na proteção de terceiros.
Então: devemos ou não armar-nos? E, se sim, como evitar que o armamento gere guerra em vez de paz?
A primeira resposta encontra-se na intenção estratégica e na natureza do armamento produzido. Um país, ou um bloco de países, podem armar-se para projetar força ofensiva ou para garantir dissuasão defensiva. A diferença é mais ética do que técnica: o mesmo tanque pode servir para invadir ou para evitar uma invasão. Mas a doutrina militar que o enquadra e a cultura política que o sustém fazem toda a diferença.
A Europa não precisa de se armar para invadir. Precisa de se armar para não ser invadida. Esta não é uma “nuance”. É uma fronteira moral.
A segunda resposta reside na transparência e controlo democrático. Uma Europa que produz armas em regime de supervisão pública, com auditorias, restrições de exportação, limites éticos de venda e mecanismos de responsabilização, é diferente de uma Europa que delega a produção bélica a agentes privados sem supervisão parlamentar robusta. Não se trata apenas de fabricar armas, trata-se de controlar quem as compra e para quê.
A terceira via é a diplomacia ativa como complemento da defesa. Armar-se não pode significar abandonar a mesa das negociações. Pelo contrário: só pode negociar eficazmente quem não está sob ameaça. A força militar deve existir para dar solidez à diplomacia, não para a substituir.
A quarta reflexão passa pela educação cívica e histórica. Uma população informada sobre os horrores da guerra, consciente da fragilidade da paz e conhecedora dos precedentes históricos, tende a questionar aventuras militares e a exigir critérios éticos rigorosos. Armas nas mãos de sociedades ignorantes são perigosas; armas em mãos de sociedades esclarecidas podem ser paradoxalmente instrumentos de proteção.
Finalmente, há um caminho que a Europa poderia liderar: o desenvolvimento de mecanismos internacionais vinculativos de limitação e monitorização de exportações militares, sobretudo para zonas de conflito latente. Ou seja: não restringir só o comércio de armas alheias, mas também o próprio.
Voltamos então ao dilema inicial: como ultrapassar a contradição entre a necessidade de defesa e o risco de alimentar guerras?
Talvez o erro esteja em assumir que há uma solução binária. Ou desarmamos totalmente e arriscamos a submissão, ou nos armamos indiscriminadamente e arriscamos a violência.
Talvez a saída esteja naquilo que poderíamos chamar defesa ética responsável:
• suficientemente forte para dissuadir,
• suficientemente regulada para não incentivar,
• e suficientemente transparente para não degenerar.
A paz não é um estado natural do mundo, é uma conquista política permanente.
A guerra não é apenas expressão da maldade humana, é muitas vezes consequência do desequilíbrio de poder.
E a Europa, que já foi império, campo de batalha e laboratório de barbárie, talvez possa agora ser laboratório de uma nova ideia de segurança: firme, mas não agressiva; consciente, mas não ingénua; armada, mas não bélica.
Se a guerra é recorrente, a paz tem de ser cultivada.
E preparar-se para a guerra, paradoxalmente, pode ser a forma mais segura de evitar que ela aconteça.
Eis aqui o que se me oferece dizer a quantos, na presente situação mundial, torcem o nariz, por endémica desconfiança, a uma necessidade que se tornou premente.
Carlos Alberto Correia
(com recurso ao ChatGPT)
30.11.2025 - 00:27
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