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O último astronauta
(Para que nunca seja…)
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

O último astronauta<br />
(Para que nunca seja…)<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Acordei do meu período de repouso com um sentimento estranho. Não havia ruídos de comunicação nem a costumada cacofonia de mensagens no ecrã. Mesmo para a falsa tranquilidade da Estação Espacial era ruído a menos.
Aproximei-me da escotilha e olhei para a Terra. Já não era azul!

Não toda por inteiro, mas ia perdendo aos poucos a cor celeste, paulatinamente, como quem se move já com cansaço no corpo. Voltei a espreitar pela ogiva. Girava como sempre a vira fazer. A órbita mantinha-se, a Gravidade obedecia. Ao que parece alguém se esquecera de avisar o Cosmos de que o género humano acabara de falhar, em definitivo, a sua presença na Terra.

Como se levasse uma bofetada atroadora soube-o então. Eu era o último astronauta! A evidência aterrorizou-me. O medo voltou a obrigar-me a olhar para a realidade. Deveria ter sido substituído há dois dias. A última mensagem informava apenas que, por motivos técnicos, deveria ficar na Estação mais uns tempos, não muito, sublinhavam. Só o necessário para reparar a pequena avaria descoberta â última hora.

Incrédulo voltei para os painéis de controlo. Piscavam num mutismo angustiante. A voz do Centro de comando era apenas memória. Nem Houston, nem Moscovo, nem Pequim. Só o fundo cósmico e o relógio a insistir na contagem do tempo como se houvesse futuro.

Desloquei-me para outra ogiva de onde pudesse observar a Terra por inteiro. No lugar dos profundos azuis e suaves verdes surgiam feridas sangrentas, vermelhas, agressivas, espalhando-se em doença luminosa nos locais onde as cidades iam sendo transformadas em poeiras radioativas e os mares em ferventes caldeirões.

Reconheço a Europa. A Península, a Itália, tento perceber Roma, onde estivera com a família antes desta missão. Só lampejos laranja, fumos e os gritos que suponho ter ainda havido tempo para soltar. Paris é uma nuvem de sangue, Berlim um coração defunto. Ninguém aprendera nada? Nunca mais, repito, nunca mais poderão aprender qualquer coisa. Já não haverá bibliotecas, nem cinemas, nem vozes. Nem gente. Nunca mais!

Passo sobre o Médio Oriente! Mancha indistinta conserva o mar de chamas que nunca deixou de ser. Relembro mapas, setas, linhas vermelhas, avanço e recuos de tropas. Foi necessária a catástrofe total para resolver de vez os problemas. Imensa a Ásia era ave ferida em múltiplos pontos, cicatrizes a crescer desmesuradas. Penso em cidades que jamais visitarei, mercados onde não irei, monumentos que se foram. Toda a Terra é uma imensa chaga envenenada! Tal como a América. Sem filmes, sem Silicon Valley, não podendo continuar a ser a imagem daquilo que nunca foi, apenas mostra a pluma imensa da obnubilação. Penso nos que pensaram sobreviver ao Holocausto que criavam. Vãos pensamentos, projetos desfeitos em átomos.

Como nó lento desfila a África antiga. Ferida, despojada, marcada por explosões tardias – nem mesmo assim deixou de estar no fim – como respeitando a ordem antiga até ao fim dos tempos. Sinto-me agonia irresolúvel!

A estação continua a funcionar como se nada tivesse acontecido e todos quanto amei e conheci ainda existissem. Tenho oxigénio, alguma água, bastantes alimentos. Só não me vou tendo a mim e sei que mais nenhuma nave subirá ao céu para me resgatar. Não me revolta. Aceito tudo com a serenidade de não poder ter outra escolha. Sem desespero, uma enorme melancolia tomba sobre mim ao descobrir como amava a humanidade, com uma amor que ela não concebia ter por si própria. Por que não foi ela capaz de descobrir que o progresso não era uma linha reta mas uma órbita? Repetitiva como a da Terra, como ela infinitamente insegura, mesmo que o não parecesse? Infinitamente bela e perigosa? Apenas um pequeno desvio e tudo ruiria. Como ruiu!

A Terra continuava a girar!

Dentro de alguns milhares de anos talvez o azul regressasse. Um outro azul mais paciente. Novas florestas, oceanos sem nomes e talvez alguma vida sem memória da nossa passagem. Do glorioso Antropoceno a findar-se com a espécie que o constituiu.

Amparo a testa no vidro da vigia. Não vou rezar nem pedir perdão. Assisto ali, distanciado, ao ruir de todas as razões para sobreviver. Encosto, como criança, o nariz ao vidro da vigia. Não sou um herói, nem já sequer serei aquilo que já não existe – um homem – olho-me como espelho tardio e vejo o vermelho a consumir o que resta de azul.

Volto à consola. Ligo os motores da estação e, sem medo por escassez de esperança, aponto a nave em direção à Terra.
Se ainda existisse alguém seria meia-noite!

Carlos Alberto Correia

31.12.2025 - 00:13

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