colunistas
O bicho e a peçonha
Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Filipe II de Espanha, ao tomar posse do Reino de Portugal, teve uma expressão curiosa: eu o herdei, eu o comprei e eu o conquistei.De facto assim foi. Herdou-o, na sequência de sucessivos casamentos cruzados entre as casas reinantes de Portugal e de Espanha (ou melhor, de Castela e Aragão), desde o tempo de D. João II e dos Reis Católicos, política que só poderia terminar com a união das duas coroas, como aconteceu.
Comprou-o, porque subornou outros pretendentes, entre os quais os Duques de Bragança. E conquistou-o, após a batalha de Alcântara, com a derrota dos apoiantes do Prior do Crato.
Significa isto que para tomar posse de um país convém ter os trunfos todos na mão.
O ataque americano que terminou com a captura de Maduro e esposa foi uma operação brilhante, com paralelo apenas naquela que terminou com o abate de Bin Laden, em território do Paquistão (que não foi avisado da operação). Foi o que na gíria militar se chama a “solução escolar”: informação precisa e oportuna, inclusive dentro da Venezuela, neutralização das defesas aéreas, objectivos dispersos para dificultar quaisquer respostas, força no objectivo principal, apropriada ao cumprimento da missão.
De imediato, do lado americano, o tom dos comunicados primou pela abundante adjectivação a que Donald Trump nos habituou, combinado com um vago apresentar de soluções, inspirado no sentimento de que, como se diz em bom português, “morreu o bicho, acabou a peçonha”. Mas será mesmo assim?
Já foi dito que as Forças Armadas venezuelanas são das mais fortes da América do Sul. Então, por onde andaram elas? Será que, tal como sucedeu por cá no 25 de Abril, ninguém quis morrer por Nicolás Maduro? Pretendem preservar-se, para serem a garantia do futuro? A que nível estariam infiltradas pela CIA e pela oposição? O mais provável é que, sem tropas adversárias no terreno, e sem capacidade para actuar, por falta de controlo e informações, tenham decidido ficar na expectativa.
Retirada a força-tarefa que efectuou a captura de Maduro e esposa, voltamos ao habitual gesticular de Trump, em que se misturam ameaças e promessas. Tradicionalmente, seria sido colocado na Venezuela um governo, militar ou não, imposto pelo vencedor.
Nada disso. As instituições venezuelanas têm actuado dentro do seu quadro constitucional, inclusive escolhendo uma nova Presidente. E Trump referiu apenas a possibilidade da nomeação de uma equipa de gestores, altamente qualificados para explorar petróleo, minérios e afins.
Cabe aqui um parêntesis. O actual Presidente americano parece ter encontrado uma forma original de combater a corrupção clássica; em vez nomear para o Governo gente ligada às grandes empresas, nomeou os próprios proprietários bilionários para os cargos ministeriais, eliminando intermediários e lobistas, sempre potenciais fontes de corrupção. Genial!
Neste compasso de espera, vão sendo sugeridos para a Presidência nomes de antigos e considerados opositores, com provas dadas na resistência ao regime. Nenhuma das sugestões foi aceite do lado americano, salientando-se o caso de Corina Machado, a laureada do Prémio Nobel da Paz (para o qual várias personalidades apoiaram, sem sucesso, a candidatura de Donald Trump), que já manifestou publicamente a sua gratidão ao Presidente americano pela captura de Maduro.
Os opositores venezuelanos devem ter sentido o mesmo que sentiram os povos da Europa de Leste, quando foram libertados pelo Exército soviético, no fim da II Guerra Mundial, após vários anos de resistência à ocupação nazi. Quando pretenderam participar no novo governo, foi-lhes dito que as tropas libertadoras já traziam um governo completo para tomar posse...
Não havendo governo importado, há que formar um com elementos do interior. E aqui está o embaraço da escolha. Um corte radical com a gente do regime pode levar à falta de quadros e à anarquia, como no Iraque depois da queda de Saddam. Recrutar dentro do anterior regime pode levar a ressentimentos e até a manifestações violentas ou insurreições.
Aparentemente, Trump espera alguma forma de colaboração do governo actual, o que se apresenta duvidoso.
Neste clima de espectativa, o mais que se pode dizer é: parece que se matou o bicho; mas onde é que está a peçonha?
Talvez a única certeza que se pode tirar desta crise da Venezuela diz respeito ao futuro de uma profissão muito considerada e respeitada.
Referimo-nos aos diplomatas, até agora indispensáveis nas relações internacionais. Se os métodos e doutrinas usados na detenção de Maduro e acções subsequentes fizerem escola, inúteis se tornam tratados e acordos, protocolos e procedimentos: apenas a aplicação da Força prevalece, e até a boa educação e a cortesia passarão de moda.
Ficará a classe dos diplomatas em via de extinção?
Nuno Santa Clara
10.01.2026 - 11:48
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