colunistas
As brumas de Thule
Por Nuno Santa Clara
Barreiro
O interesse americano pela Gronelândia, bem como pelo Norte do Canadá e do Alasca, não tem nada de novo. Começou há décadas, quando o desenvolvimento da aviação e dos mísseis demonstrou a vulnerabilidade dos Estados Unidos a um ataque vindo através do Ártico, por sinal a rota mais curta para uma iniciativa soviética.
Daí a apetência americana pela maior ilha do Mundo, primeiro propondo a sua compra à Dinamarca, depois através de acordos para montar instalações militares, a mais famosa das quais é a Base de Thule, no norte da ilha, a 1.200 km do Polo Norte, funcionando em condições extremas, como se pode calcular. Fazia, e faz, parte do sistema de alerta prévio americano.
O nome de Thule vem da cultura clássica, sendo o "Reino de Thule" uma ilha ou terra lendária localizada no extremo norte das terras conhecidas, hipoteticamente na Escandinávia, na Islândia ou na Groenlândia, aparecendo inclusive em mapas dos séculos XVI e XVII.
O nome de Thule tem ressonâncias românticas, e talvez por isso a base recebeu mais tarde o nome mais prosaico de Base Espacial de Pituffik, continuando a desempenhar o seu papel fundamental no sistema de alerta precoce dos Estados Unidos.
Pela revista e reactivada Doutrina de Monroe (America for Americans), agora rebaptizada Donroe (rabo escondido com o gato de fora), o Canadá e a Gronelândia deveriam pertencer aos EUA, Donald Trump dixit. Sendo o Canadá um osso duro de roer, começou-se pela Gronelândia.
Alvo fácil: um deserto de gelo e rochas, com menos de 57.000 habitantes, distante da Dinamarca, próximo do Continente americano, sem riquezas visíveis à superfície dos montes e glaciares.
A actual população tem origem inuíte (esquimó), cuja última vaga migratória terá chegado à ilha por volta do ano 1200 D.C.
Os vikings noruegueses e seus descendentes islandeses chegaram à Groenlândia por volta de 982 D.C. e iniciaram a colonização com povoados nos fiordes perto da ponta sudoeste da ilha. Os contactos tidos com os inuítes parecem ter dado origem a um relacionamento conflituoso.
O Reino da Dinamarca, tido como herdeiro dos reinos vikings, declarou a Groenlândia como colónia e iniciou uma ocupação e colonização da ilha nos moldes do colonialismo europeu da época. Em 1921, a Dinamarca proclamou a soberania sobre toda a Groenlândia. Em 1953, a Groenlândia deixou de ser colónia (ventos da História!) e passou a ser uma região autónoma do Reino da Dinamarca. Em 2008, uma maioria da população votou a favor da independência, tendo então sido aumentada a autonomia regional e ficado reconhecido o direito dos gronelandeses à independência, quando o entendessem.
A questão agora levantada ultrapassa todas as demandas diplomáticas anteriores. Donald Trump afirmou que a Gronelândia deverá ser americana, de pleno direito, a bem ou a mal. Quais tratados, quais regras, quais normas! Tem de ser nossa, e pronto! Aplica-se aqui uma nova regra nas Relações Internacionais: tenho os meios, tenho o poder, logo faço.
Não tão nova assim. Adolf Hitler quis expandir-se para Leste, e ocupou toda a Europa Central e Oriental, e boa parte da então União Soviética, porque queria e podia; acabou nas ruínas de Berlim, mas não por culpa dele: o Povo a Alemão é que falhou, não tendo merecido um líder daquela envergadura, e por isso foi punido com a derrota.
A Guerra da Meia Dúzia de Horas - GMDH (para quem não sabe, a da Venezuela) parece ter confirmado a aura de infalibilidade da qual o Presidente se auto reclama. Mas, em termos práticos, e falando em bom português, ainda não se viu buraco por onde saia coelho, e a razão principal (o combate ao narcotráfico) já passou a recordação nebulosa, face ao petróleo e outros minerais.
Algo semelhante se passa com a Gronelândia. O motivo invocado – o perigo de invasão pela Rússia ou China - está coberto pelo Artigo 5.º do Tratado que instituiu a NATO, onde se estabelece que um ataque armado contra um Estado-membro é considerado um ataque contra todos, obrigando os aliados a assistir ao país atacado, individualmente ou em conjunto, tomando as medidas necessárias, incluindo o uso da força. Sendo a Dinamarca, e consequentemente a Gronelândia, membro de pleno direito da NATO, a preocupação actual com a sua segurança parece um tanto bizantina, ou o resultado das brumas de Thule (a mítica).
Ou talvez menos, se considerarmos o conceito de Defesa dos EUA agora redefinido. A desvalorização do espaço europeu, em favor dos espaços americano e asiático, faz duvidar da aplicação imediata do Artigo 5.º a um país europeu. E, curiosamente, este artigo só foi invocado uma vez pelos EUA, após os ataques de 11 de Setembro de 2001 em território americano...
Atentemos também a que os acordos sobre as bases da Gronelândia foram feitos entre os EUA e a Dinamarca – a NATO entraria acessoriamente. A posse da grande ilha inverteria a situação: um ataque levaria os EUA a invocar o Artigo 5.º, com mais certeza do que a sua invocação na situação actual.
Por fim, uma palavra para os que, ao que parece, têm menos importância: os habitantes da Gronelândia. Como se disse, os inuítes foram alvo de uma colonização, embora sem a dureza de outras paragens. Mas ainda têm na memória colectiva alguns agravos, como o controlo forçado da natalidade, feito já no século XX. São maioritariamente defensores da independência, mas sem pressas; e o relacionamento com a Dinamarca decorre sem sobressaltos.
Daí que a tentativa de comprar os habitantes (a preços variáveis) tenha falhado. E, lá no fundo, existe a sensação de que, se tornados americanos, seria aplicado aos habitantes o mesmo tratamento dos seus congéneres do continente, ou seja, passariam a ter o estatuto de índios...
Nuno Santa Clara
17.01.2026 - 12:13
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