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Populismo em Portugal: sintomas, riscos e desafios para a democracia
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro
Hoje, deu-me para isto. Farto de ouvir falar em populismo, com as mais variadas conotações e intenções, pus mãos à obra, e toca de, qual professor Pardal, vir aqui contribuir para o esclarecimento dos caríssimos leitores que, contrariando a leitura por vislumbre das redes sociais, sejam capazes de lhe dedicar algum vagar e reflexão...
...contrariando, só por esse gesto, a primeira arma populista: não aprofundar ideias, tomar tudo com velocidade e â superfície, pensando que ao simplificar o complexo poderão, alguma vez, perceber as linhas com que as sociedades se cosem.
Por isso, lá vai.
O populismo deixou de ser, em Portugal, um fenómeno distante ou importado. Durante décadas, o sistema político português pareceu relativamente imune às vagas populistas que atravessaram outras democracias europeias. Essa exceção terminou. O surgimento e a consolidação de forças populistas no espaço político nacional obrigam a uma análise mais exigente, que vá além do julgamento moral ou da reação imediata ao ruído mediático.
Compreender o populismo em Portugal é compreender também as fragilidades da democracia portuguesa, as suas zonas de desgaste e os seus silêncios acumulados.
Tal como noutros contextos, o populismo no nosso País não se apresenta como ideologia estruturada, mas como uma lógica de construção do discurso político. Assenta numa divisão binária: de um lado, “o povo”, concebido como moralmente homogéneo e injustiçado; do outro, “o sistema”, entendido como uma teia indistinta de partidos, instituições, elites políticas, judiciais, mediáticas e culturais.
Esta lógica tem, como consequência central, a rejeição da mediação democrática. O parlamento, os tribunais, os órgãos de comunicação social e até a Constituição deixam de ser vistos como pilares do regime e passam a ser obstáculos à “verdadeira vontade popular”. O líder surge, então, como intérprete exclusivo dessa vontade, não como representante, mas como encarnação.
O crescimento do populismo em Portugal não se explica apenas por fatores externos ou por dinâmicas globais, mas condições internas que o tornaram possível, tais como: Desgaste prolongado dos partidos tradicionais, associado a escândalos, casos judiciais e perceção de impunidade; desigualdades persistentes, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, combinadas com abandono do interior; desconfiança crescente nas instituições, apesar da sua estabilidade formal; memória histórica incompleta sobre os efeitos do autoritarismo, muitas vezes reduzida a uma narrativa abstrata e despolitizada.
Este contexto criou um espaço fértil para discursos que prometem rutura, punição e simplificação, como é verificável nas intervenções do Chega.
Este partido representa, no contexto português, a expressão mais clara do populismo contemporâneo. Desde a fundação, a sua identidade política assenta menos num programa coerente e mais numa estratégia discursiva de confronto permanente, tentando calar os oponentes, não pela validade e sustentação das suas posições, mas pelo discurso troglodita, numa tentativa de, por berros e gesticulação excessiva, intimidar e não deixar falar o oponente.
O Chega constrói uma narrativa moral: “portugueses de bem” versus “corruptos”, “subsidiodependentes”, “criminosos” ou “elites protegidas”. Esta divisão não é apenas retórica; ela procura redefinir quem pertence plenamente à comunidade política e quem deve ser excluído ou silenciado.
O papel do líder, André Ventura, é central. A personalização extrema do partido, a lógica de provocação constante e o ataque sistemático a instituições como os tribunais, o jornalismo ou o parlamento são marcas típicas do populismo. A crítica política transforma-se frequentemente em deslegitimação institucional, um passo decisivo na erosão democrática.
Em Portugal, o populismo não se apresenta, pelo menos por agora, como uma ameaça explícita de golpe ou de suspensão imediata da ordem constitucional. O risco é outro, mais discreto e mais profundo: a normalização da desconfiança institucional.
Quando se instala a ideia de que os tribunais são “parciais”, sempre que decidem contra o líder; os jornalistas são “militantes”, se questionarem as suas afirmações; o parlamento é “inútil” quando debate; então a democracia deixa de ser um sistema comum e passa a ser um campo minado. A erosão não acontece por decreto, mas por desgaste contínuo.
Embora o populismo possa existir à esquerda ou à direita, em Portugal ele articula-se claramente com a extrema-direita. Essa articulação manifesta-se em três planos: o identitário, isto é, a valorização de uma ideia restritiva de nação e pertença; o punitivo remetendo para a centralidade do castigo como resposta a problemas sociais e o autoritário, suscitando a desconfiança face a garantias, direitos e limites ao poder.
O populismo fornece a forma; a extrema-direita fornece o conteúdo. Juntos, criam uma visão de democracia reduzida à maioria momentânea, sem proteção efetiva das minorias nem respeito pelo pluralismo.
Um dos erros recorrentes no combate ao populismo tem sido a sua normalização acrítica ou, pelo contrário, a sua hiperbolização teatral. Ambas servem os interesses populistas.
Quando os partidos democráticos imitam a linguagem populista, adotam soluções simplistas para problemas complexos ou reduzem o debate político a “slogans”, acabam por legitimar a lógica que dizem combater.
Do mesmo modo, um jornalismo centrado apenas na polémica, na frase incendiária ou na provocação constante, contribui involuntariamente para amplificar o populismo, retirando-lhe o contexto e a análise que o podem expor.
O combate ao populismo não passa por proibições nem por silêncios forçados. Passa por escolhas políticas exigentes. Por exemplo: reforçar a credibilidade das instituições, com transparência e responsabilização reais; responder às desigualdades estruturais, sobretudo territoriais e sociais; reabilitar o valor do compromisso democrático, sem o confundir com conivência; investir seriamente em educação cívica, incluindo memória histórica e crítica do autoritarismo.
Sobretudo, exige uma cultura política que recuse a ideia de que a democracia é apenas o governo dos que gritam mais alto.
Portugal não está condenado ao populismo, nem vive uma situação irreversível. Mas também não está imune. A história mostra que as democracias raramente colapsam por ataque frontal; caem, muitas vezes, por habituação ao ruído, à exceção e à desconfiança.
O populismo é um sintoma antes de ser uma causa. Ignorá-lo é um erro; normalizá-lo, um perigo. Enfrentá-lo com mais democracia, mais exigência e mais inteligência política é, hoje, uma necessidade cívica.
Por isso, do que estás à espera? No próximo dia oito de fevereiro o travão está nas tuas mãos!
Carlos Alberto Correia
28.01.2026 - 00:18
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