colunistas
A descoberta do Belegário
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro
Talvez V. Exas. Já não se recordem do meu amigo Belegário. Certamente não! Quem é que se lembra de um sujeito contestatário e desconfiado que, entre 2008 e 2010, volta e meia me procurava para transformar as suas queixas e desesperos em crónicas para publicação no Rostos On-Line.
Pois é, eu, na minha preguiça, lá ia tentando convencê-lo a agir de outras maneiras, mas ele, carraça que era, não deixava de me atazanar até lhe mostrar o original onde, versada a sua ideia, estar pronto para aparecer ao publico em impressão virtual.
Têm toda a razão para esses olhares perplexos, efeitos da consternação em que caíram ao começar a ler este texto. Mas eu explico. Após muitos anos de acalmia, de encontros raros e quase rituais, hoje voltou à carga. Estava mais impaciente e nervoso que nos últimos e triviais encontros. Quase me sacudiu os ombros em vez do costumeiro abraço e, como era seu antigo e quase esquecido hábito, rebentou com um “eu bem sabia que havia gato no pacote laboral que o Governo quer impingir ao pessoal”
De imediato pensei, temos drama, o que é que o rapaz andou a cogitar? É o maldito pacote laboral, explicou, não me dando muito tempo para a perplexidade. O pacote? Repeti, pacóvio. Sim, homem, o pacote! Explica-te lá meu bisnau. Não consigo perceber onde queres chegar. Pois claro que não! Nem tu nem todos esses chicos-espertos dos sindicatos e da política! Homessa! Então agora achas todo o mundo estúpido, menos tu? Queres ver que apanhaste o “complexo Trump”! Deixa de ser parvo pá e ouve-me! Sou todo ouvidos, camarada!
Pois é assim! Andava há muito tempo a matutar por que razão um governo frágil, sem maioria na Assembleia, continuava, contra todo o mundo, a querer fazer passar uma alteração das leis laborais, na qual quase todo o conteúdo tirava direitos aos trabalhadores e acrescentava poder aos patrões. Não tenho dúvidas do lado para onde vão os seus amores, mas também achava que era risco demasiado grande o que estavam a correr. Tendo até em conta aquilo que o novo Presidente da República disse, de viva voz, sobre tal abortozinho. Tem lá calma, repliquei. Também julgo essa tentativa de legislação um aborto, mas não estou a perceber onde queres chegar. Só ainda não me percebeste porque estás sempre a interromper e não me deixas explicar. Para lá Belegário. Vens picado das pulgas ou quê? Desde que vieste não paraste de largar impropérios contra toda a gente e mal me deixaste falar. Acusas-me, agora, de não te dar a palavra? Tens razão pá, mas eu venho mesmo furioso. Como de costume, sussurrei. Que disseste? Nada, nada, continua lá!
Reflete um pouco comigo. O nosso País é, na Europa, dos que pagam menores salários. Estás de acordo? Bem, há piores, mas não posso deixar de dar-te alguma razão. Alguma?! Toda, toda! Pronto! Fica lá com toda a tua razão e desembucha. Ora bem, o que é que o pacote laboral propõe na essência? Diz-me tu que és quem abriu a conversa. E é que digo mesmo. Os gajos só falam de flexibilidade. É preciso flexibilidade para que o País possa evoluir. A nossa legislação laboral é muito pouco elástica. O que querem dizer com isto? Está bem, essa até eu posso compreender. Compreender? Espera Belegário, não estejas com ideias precipitadas. Quero eu dizer que posso compreender que a direita patronal, demasiado indolente para evoluir para melhores relações de trabalho, queira e precise de regulamentação a partir da qual possa fazer o que sempre quer fazer: despedir conforme lhe dá na gana ou lhe corram os negócios. Vês como me estás a entender? Precisamente! Não sabem gerir de outro modo. Só querem pagar pouco e despedir muito. Bem! Lá estás tu a exagerar. Estou mesmo?? Então o que é que eles, com essa coisa da flexibilidade desejam mais que isso? Banco de horas, logo trabalho não pago a quem já recebe pouco; substituição de trabalhadores sem prazo por contratados a prazo ou por recibos verdes e até, vê lá, por subcontratados. E não ficam por aí! Mesmo que o despedimento seja, em tribunal, declarado sem justa causa, querem deixar de lado a obrigação legal de readmissão dos trabalhadores. Estás a ver? Sim, claro que estou e não concordo. Isso sei eu, o que tu não sabes é a grande razão que os espertalhaços escondem.
Essa agora! Ainda há pouco concordei com os teus argumentos e sabes muito bem que não aceito a selvajaria dos despedimentos sem justa causa… Eu sei, eu sei. Não me expliquei bem! Aquilo que me ocorreu foi outra coisa. Então avança. Lá iremos, lá iremos. Deixa-me concluir o raciocínio. Tu sabes as dificuldades dos jovens com o pouco dinheiro que ganham, o custo de vida, o impossível das rendas de casa. Claro que sei! E como pensas tu que reagiriam se tudo se tornasse pior? Pior ainda? Pois, é mesmo isso? Agora é que não te estou a perceber. Já vais saber! A governança é mais esperta do que a malta pensa! Decide-te lá. São parvos ou espertos? As duas coisas! Essa agora! Como podem ser e não ser? Isso é filosofia a mais. Parece-te! É melhor explicar-me porque já estou zonzo!
Bem, concordamos que as coisas estão difíceis para a maior parte das pessoas, mas sobretudos para os mais jovens? Perfeitamente. Então o que é que eles estão a fazer? Bem, vão sobrevivendo como podem, casam mais tarde, não têm filhos, ou marimbam-se de todo e vão para o estrangeiro onde podem ter melhores vidas. Estás quase certo! Quase? Isso mesmo. O estrangeiro é coisa que cada vez há menos. O mundo vai mal por toda a parte. Aí dou-te razão. Parece mesmo que as gentes estão a endoidecer! Não é caso para menos. Então qual é a tua perspetiva? Os tipos estão a jogar no futuro? Quais tipos? O governo, os patrões! Estou cada vez mais perdido. Como podem estar a jogar no futuro se cada vez as coisas estão piores?
O Belegário fez um sorriso de não me estás a perceber. Quase em segredo, aproximando-se do meu ouvido, parecendo ter medo que o segredo se espalhasse murmurou: “É a Inteligência Artificial e a robotização”. Devo ter feito cara de parvo.
Pensa lá melhor! A malta passa a ser descartável. As empresas não vão necessitar da maior parte das pessoas que nelas trabalham. Com esta leizinha já não terão problemas em evacuar o pessoal incómodo ou a mais. Vai por mim! É isto que estão a acautelar. Vai chegar mais cedo que o que se poderia pensar”
Foi-se com um sorriso malandro, repetindo, vai por mim , vai por mim, deixando-me especado a pensar que o Belegário tinha feito a grande descoberta da sua vida.
Carlos Alberto Correia
29.04.2026 - 22:43
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