colunistas
A Armadilha de Tucídides
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro
A «Armadilha de Tucídides» é um conceito, com forte valor explicativo, que ganhou enorme projeção nas últimas décadas, sobretudo nos meios académicos, diplomáticos e militares. Descreve o perigo de guerra entre uma potência dominante e outra em ascensão.
Esta ideia teve origem na Antiguidade Clássica, e o seu nome provém do criador da teoria, o historiador grego Tucídides, autor da obra História da Guerra do Peloponeso. Aí analisa o conflito entre Atenas e Esparta no Século V antes de Cristo. Segundo Tucídides, essa guerra tornou-se fatal porquanto o crescimento do poder de Atenas provocou medo em Esparta, então a potência dominante na Grécia. A situação explicita-se nesta ideia: “Foi o crescimento do poder de Atenas e o receio por ele causado a Esparta que tornou a guerra inevitável.”
A importância do conceito está precisamente naquilo que revela sobre a natureza das relações internacionais: quando uma nova potência cresce rapidamente (económica, tecnológica ou militarmente) a potência estabelecida sente em perigo a sua posição dominante. Esse sentimento gera desconfiança, corrida ao armamento, tensões diplomáticas e conflitos indiretos, podendo evoluir para guerra aberta mesmo quando nenhum dos lados a deseja
Durante muito tempo, esta ideia permaneceu sobretudo como referência histórica.
No nosso século, voltou ao centro do debate graças ao cientista político norte-americano Graham Allison, professor da Universidade de Harvard , que estudou diversos casos semelhantes. Da análise efetuada a dezasseis situações, ocorridas nos últimos quinhentos anos, onde uma potência emergente ameaça substituir outra dominante, concluiu que em doze desses casos o resultado foi a guerra. Isto é, cerca de 75% das situações analisadas.
Entre os exemplos históricos mais citados encontramos:
• A rivalidade entre a Alemanha e o Império Britânico, antes da Primeira Guerra Mundial;
• A ascensão da França napoleónica ante as monarquias europeias;
• O crescimento do Japão perante os Estados Unidos, antes da Segunda Guerra Mundial;
• O confronto entre Espanha e Portugal durante os séculos de expansão marítima.
Existem no entanto, casos em que a transição de poder ocorreu sem recurso à guerra. O exemplo mais referido é a passagem da liderança mundial do Reino Unido para os Estados Unidos no século XX. Apesar de tensões económicas e estratégicas, o facto de ambos os países partilharem valores culturais e políticos semelhantes facilitou a cooperação. Outro exemplo foi a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não obstante ter havido enorme tensão e conflitos indiretos, nunca ocorreu qualquer confronto militar direto entre as duas superpotências, talvez devido ao equilíbrio nuclear e ao medo da destruição mútua assegurada.
Na atualidade, a “Armadilha de Tucídides” aplica-se sobretudo à relação entre os Estados Unidos e a China. Durante mais de setenta anos, após a Segunda Guerra Mundial, os EUA foram a principal potência económica, militar e tecnológica do planeta. Porém, nas últimas décadas, a China conseguiu um crescimento económico extraordinário, tornando-se a segunda maior economia mundial, disputando (ou possuindo) já a liderança nas áreas da inteligência artificial, indústria, comércio internacional, energia verde e tecnologia de comunicações.
Este crescimento inquieta sobremaneira os Estados Unidos. A China investe na modernização das forças armadas, aumenta a influência em África, na América Latina e na Ásia, procurando reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo Ocidente. Além disso, iniciativas como a “Nova Rota da Seda” apontam para a determinação chinesa na construção de uma rede global de influência económica e estratégica.
Do lado chinês, tem-se a perceção de que os EUA procuram limitar a sua ascensão. As restrições tecnológicas impostas às empresas chinesas, as disputas comerciais, o reforço militar norte-americano na região do Indo-Pacífico e o apoio a aliados como Taiwan, Japão e Coreia do Sul são vistos, por Pequim, como fortes tentativas de contenção.
Taiwan constitui o ponto mais perigoso desta rivalidade. A China considera a ilha parte integrante do seu território e não exclui o uso da força para a reunificação. Os Estados Unidos, embora mantenham uma posição ambígua, têm apoiado militarmente Taiwan. Um incidente militar na região poderia desencadear uma escalada militar muito grave, envolvendo não apenas os dois países, mas também aliados regionais com consequências económicas globais devastadoras.
As possíveis consequências de um conflito entre EUA e China seriam incomparavelmente mais graves do que as guerras do passado. Em primeiro lugar, porque ambas as potências possuem armas nucleares. Em segundo lugar, porque a economia mundial está profundamente dependente da relação entre os dois países. Uma guerra teria impacto imediato no comércio global, nas cadeias de abastecimento, na energia, nos mercados financeiros e até no acesso a produtos tecnológicos essenciais.
Contudo, muitos especialistas defendem que a interdependência económica entre EUA e China funciona também como fator moderador. Ambos os países têm demasiado a perder com um conflito direto. Há ainda canais diplomáticos, instituições internacionais e mecanismos de negociação que podem reduzir o risco de escalada.
A conclusão mais importante talvez seja esta: a “Armadilha de Tucídides” não representa uma lei inevitável da História, mas sim um aviso. O facto de, historicamente, muitas transições de Poder conduzirem à guerra não significa que isso tenha obrigatoriamente de acontecer. O conceito serve sobretudo para alertar os dirigentes políticos para os perigos do medo, da desconfiança e do nacionalismo exacerbado.
O modo como ambas as potências gerirem a competição determinará não apenas o equilíbrio geopolítico mundial, mas também o futuro económico e tecnológico do planeta.
Evitar que a rivalidade caia na lógica destrutiva da “Armadilha de Tucídides” poderá ser um dos maiores desafios na atualidade..
O que está em causa é, tão-somente, a possível hecatombe da humanidade. Alguém pode explicar isto a Trump?
Carlos Alberto Correia
10.05.2026 - 00:43
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