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O Barreiro à espera de si próprio: o que Óbidos e o Fundão já perceberam
Por António Matias Lopes
Barreiro
I. A pergunta que nos incomodaHá perguntas que se fazem em voz baixa, como se admiti-las fosse uma deslealdade. Esta é uma delas: por que razão uma vila com 11 800 habitantes no distrito de Leiria e uma cidade do interior beirão conseguiram, em pouco mais de uma década, fazer aquilo que o Barreiro, com a sua história operária, o seu capital simbólico industrial, a sua proximidade absoluta a Lisboa e quase 500 hectares de brownfield ribeirinho, continua incapaz de fazer?
Não se trata de comparar paisagens nem de transplantar modelos. Trata-se de algo mais desconfortável: compreender por que motivo a margem sul do Tejo, que deveria ser o laboratório urbano mais promissor da Área Metropolitana de Lisboa, vive uma estagnação que já não pode ser explicada apenas pela inércia institucional ou pela complexidade fundiária do Arco Ribeirinho Sul.
A resposta, como tentarei demonstrar, não está em Lisboa. Está em Óbidos e no Fundão.
II. Óbidos: a literatura como infraestrutura
Quem visita Óbidos hoje e a separa mentalmente das suas “chocolatadas” e mercados medievais perde o essencial. O essencial é que, a partir de 2011, a autarquia tomou uma decisão estratégica que parecia descabida para uma vila amuralhada de poucos milhares de habitantes: posicionar-se como “cidade literária”. Quatro anos depois, a UNESCO ratificou essa aposta integrando Óbidos na Rede de Cidades Criativas, ao lado de Edimburgo, Praga, Heidelberg, Cracóvia e Melbourne. Em 2025, a autarquia apresentou o Plano de Desenvolvimento Estratégico 2025-2035, que projecta a vila como “laboratório de literatura viva” e destino internacional de turismo literário sustentável, com quatro eixos: Rede Literária, Programação, Formação de Públicos e Cooperação Internacional.
O que isto significa, em termos sociológicos, é simples e radical. Óbidos compreendeu, antes da maioria das autarquias portuguesas, que o “capital simbólico”(no sentido bourdieusiano) é convertível em capital económico desde que exista uma arquitectura institucional capaz de operar essa conversão. A maior livraria portuguesa instalada dentro de uma igreja em 2012 não foi um gesto de marketing: foi um acto programático sobre a reutilização adaptativa do património. Onze livrarias temáticas em menos de cinco anos, um festival literário internacional (FOLIO), um hotel literário, uma narrativa coerente que mobiliza talentos locais e externos numa rede produtiva, tudo isto constitui o que Sharon Zukin chamaria de “cultura como motor de regeneração”, mas com uma especificidade obidense: a recusa da animação cultural episódica em favor da programação estrutural.
A vila não vende eventos. Vende uma identidade ativada todo o ano.
III. O dispositivo: empresa municipal, parque tecnológico e a Universidade como sócia
Aqui chegamos àquilo que é, na minha leitura, o ponto verdadeiramente decisivo do modelo obidense e o ponto onde a maioria das análises se detém demasiado cedo. Óbidos não é um caso de “boa autarquia que organiza bons eventos”. É um caso de “engenharia institucional”. E essa engenharia tem três peças articuladas que vale a pena nomear com precisão técnica.
A primeira peça é a “Óbidos Criativa, E.M.”, empresa municipal detida integralmente pelo Município, resultante da fusão de duas anteriores entidades (Óbidos Patrimonium e Óbidos Requalifica), com capital social superior a 1,13 milhões de euros e CAE principal de animação turística. Esta empresa não é um departamento camarário disfarçado. É uma estrutura de direito empresarial, financeiramente autónoma, que opera na lógica de “exploração de actividade” : gere equipamentos, organiza grandes eventos temáticos, explora os parques de estacionamento, factura serviços, contrata recursos especializados em mercado competitivo, e ponto fundamental, gera receita própria que sustenta a programação cultural sem onerar o contribuinte municipal. A diferença entre uma autarquia que paga eventos com fundos públicos transferidos do orçamento corrente, e uma empresa municipal que financia eventos com receitas geradas pela própria actividade, é a diferença entre subsídio cultural e indústria cultural. Óbidos optou pela segunda opção.
A segunda peça é a “OBITEC – Associação Óbidos Ciência e Tecnologia”, entidade gestora do Óbidos Parque; Parque Tecnológico de Óbidos. Criada em 2009 com o ABC (Apoio de Base à Criatividade) instalado no antigo Convento de São Miguel das Gaeiras, evoluiu em 2015 para os Edifícios Centrais, num investimento superior a 5 milhões de euros. Hoje acolhe cerca de 35 empresas em regime físico e 25 em regime virtual, nas áreas do software, hardware, web design, marketing digital, agritech e biotecnologia. “A Óbidos Criativa” gere a economia da rua; o Óbidos Parque constrói a economia digital, do código e dos novos negócios online. A vila percebeu que a animação cultural não basta, é necessária a sua articulação com indústrias criativas digitais que produzem valor económico exportável, escalável e independente da presença física do visitante.
A terceira peça e aqui é onde o modelo se torna verdadeiramente paradigmático é a “parceria académica estrutural”. A direcção da OBITEC inclui formalmente o Município de Óbidos, a Universidade de Coimbra, o Instituto Politécnico de Leiria e várias empresas tecnológicas como Impactwave, Innovation Makers e MakeWise. O Óbidos Parque é parceiro fundador da Rede InovC, liderada pela Universidade de Coimbra, no âmbito do programa INOV C+ co-financiado pelo FEDER, que reúne todas as universidades e politécnicos da Região Centro e quase duas dezenas de centros de investigação e parques tecnológicos. Esta articulação tem duas consequências decisivas. A primeira é que a investigação científica entra no território como sócia da estratégia, não como visitante ocasional. A segunda é que o capital simbólico cultural (literatura, UNESCO) é internacionalizado e validado por uma rede académica que opera nos circuitos europeus do conhecimento, algo que, do ponto de vista da minha investigação doutoral na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, considero o factor mais subestimado de todo o caso obidense.
Resumindo: Óbidos construiu uma arquitectura de três níveis, empresa municipal para a economia urbana de superfície, parque tecnológico para a economia digital, e parceria universitária para a internacionalização do conceito e a sua validação científica. Os três níveis operam em, independência económica, uns dos outros mas em alinhamento estratégico entre si. É exactamente o oposto da lógica autárquica clássica portuguesa, em que tudo depende do orçamento camarário corrente e da boa-vontade da próxima equipa executiva.
IV. Fundão: o algoritmo do interior e a busca activa internacional
O caso do Fundão é, na superfície, ainda mais improvável. Concelho do interior, cercado pela ameaça demográfica que define a Beira Interior, sem litoral, sem aeroporto, sem universidade pública de grande dimensão. E, no entanto, desde 2013, com o lançamento do Plano de Inovação para o Fundão, que o município opera uma estratégia coerente de captação de capital tecnológico, fixação de quadros qualificados e construção de ecossistema empreendedor. Os números, ao fim de três mandatos consecutivos de Paulo Fernandes (2013-2025), não são retóricos: mais de mil engenheiros informáticos fixados no concelho, três mil imigrantes integrados de cerca de setenta nacionalidades, 153 empresas passadas pela incubadora, 300 postos de trabalho criados directamente, e em 2023 a IBM inaugurou um centro de inovação no Fundão com potencial para 150 postos qualificados. A autarquia mantém uma rede de 34 espaços de cowork, um Centro de Negócios, Fab Lab, Centro de Agrotech IoT, Centro de Acolhimento de Empresas Tecnológicas, Design Factory, a Academia de Código e uma bolsa de habitação reabilitada para profissionais.
Mas o que distingue o caso do Fundão dos restantes e é aqui que reside a lição mais profunda para o Barreiro, não é a lista de equipamentos. É o método de Paulo Fernandes: a procura ativa internacional de soluções, a benchmarking sistemático em cidades europeias e sul-americanas, e a inversão deliberada da lógica clássica de desenvolvimento territorial. Quando, em 2025, em entrevista ao “Público”, Paulo Fernandes resumiu a sua filosofia, disse-o de forma quase provocatória: “Foquemo-nos nas pessoas. Viremos o jogo ao contrário. O jogo tradicional no que é o desenvolvimento das regiões, das cidades, é primeiro vêm as empresas e para onde estão as empresas vão as pessoas. Foi sempre assim…” O Fundão fez o inverso. Primeiro fixou pessoas, engenheiros, imigrantes, programadores, agricultores qualificados, refugiados e construiu para elas as condições mínimas de vida boa: habitação reabilitada, escolas com programação no currículo desde o primário, integração linguística, acesso à saúde. Só depois as empresas vieram, porque o talento já estava lá.
Esta inversão não nasceu por geração espontânea. Nasceu de uma prática internacional sistemática. Paulo Fernandes, licenciado em Relações Internacionais pelo ISCSP e mestre em Estudos Europeus pela Universidade de Salamanca com especialização em Desenvolvimento Regional na Baixa Densidade, construiu uma rede de referências internacionais densa: foi fundador da rede europeia EuropaMines para reconversão de minas abandonadas, mediador na CCDRC do PROT-Centro, criador da Rede Urbana para a Competitividade da Beira Interior (Castelo Branco, Fundão, Covilhã, Guarda). Estudou e adaptou modelos de, cidades médias alemãs, que conjugam universidade, polo industrial qualificado e tecido cultural denso a lógica do “Mittelstand” (conceito económico para cidades medias), das cidades como Heidelberg, Tübingen, Jena, ou as cidades médias bávaras com pólos tecnológicos integrados em territórios rurais. Estudou também o modelo das “cidades brasileiras” que apostaram em redes de extensão universitária no interior e em fundos de investimento agrícola estruturados, atraindo precisamente o tipo de investidor que hoje cultiva no Fundão: “Têm existido investidores e fundos brasileiros interessados na área agrícola e em criar novas fileiras”, reconheceu o autarca ao ECO. Esta combinação, escala alemã de organização industrial-académica + dinâmica brasileira de fileiras agrícolas e fluxos migratórios qualificados é, do ponto de vista da sociologia urbana comparada, uma síntese rara e altamente original. O Fundão não é uma cidade alemã nem uma cidade brasileira; é uma cidade portuguesa que aprendeu a importar selectivamente o que precisava de cada uma.
E aqui chegamos ao terceiro elemento decisivo do método de Paulo Fernandes: a arquitectura de retornos diferenciados para classes distintas de investidores. Esta é a competência mais avançada e mais ausente em quase todas as autarquias portuguesas, incluindo o Barreiro. Investidores tecnológicos (IBM, Altran, NTT DATA, dezenas de startups) operam em horizontes de retorno de 18 a 36 meses, exigem talento qualificado disponível imediatamente, fiscalidade competitiva, conectividade digital e proximidade a aeroporto. Investidores agritech e em fileiras agrícolas (fundos brasileiros sobretudo) operam em horizontes de 5 a 10 anos, exigem terra disponível, água, formação técnica, certificação europeia e cadeias logísticas. Imigrantes qualificados e nómadas digitais procuram custo de vida baixo, habitação acessível, integração comunitária e qualidade de vida em horizontes de 1 a 3 anos. Reabilitação urbana e investimento imobiliário operam em horizontes de 5 a 15 anos com ARU, benefícios fiscais e procura habitacional garantida pela fixação das outras categorias. Paulo Fernandes desenhou instrumentos diferenciados para cada um destes ritmos e foi essa “sincronização inteligente de calendários de retorno” que permitiu manter o sistema em equilíbrio durante doze anos. Quando o ciclo TIC abrandava, o ciclo agritech compensava. Quando o ciclo migratório acelerava, a reabilitação urbana absorvia a procura habitacional. Quando o orçamento europeu mudava de regra, a parceria com Lisboa, Salamanca ou Bruxelas redireccionava a candidatura.
Em 2025, no final do terceiro mandato, a União Europeia reconheceu o Fundão como “capital da diversidade e da inclusão”, através do programa “Fundão, Terra de Acolhimento”. Não é uma medalha decorativa: é a validação europeia de que um pequeno concelho do interior português construiu, sem universidade pública estruturante e sem litoral, um dos casos mais sólidos de desenvolvimento territorial integrado da última década na Europa do Sul.
Se Óbidos demonstrou que o capital simbólico cultural pode ser estruturante, o Fundão demonstrou que o “capital político-relacional internacional” pode ser cultivado mesmo em territórios de baixa densidade, desde que o autarca trate a sua função como um trabalho de tempo integral de pesquisa, viagem, importação adaptativa e negociação. Ambos os casos partilham uma característica que merece ser sublinhada: continuidade estratégica e busca activa. Não há rupturas de cinco em cinco anos. Há ajustamentos. E não há provincianismo. Há internacionalização permanente.
V. O Barreiro: o problema não é a herança, é a interpretação da herança
Cheguemos ao Barreiro. E aqui é necessário ser muito claro, porque a cidade tem qualidades que não devem ser menorizadas. Tem a ADAO, que celebrou em 2025 a sua 13.ª edição do Open Day, mobilizando 50 artistas visuais e 30 projectos musicais a partir de um antigo quartel de bombeiros, um exemplo paradigmático de reutilização adaptativa do património industrial. Tem o regresso do Barreiro Rocks em Dezembro de 2025, após seis anos de interrupção, com a dimensão internacional que sempre o caracterizou. Tem o Art in Town, o circuito de arte urbana com onze paragens, intervenções de Bordalo II e outros nomes consolidados da arte urbana portuguesa. Tem uma cena musical underground reconhecida nacionalmente, uma tradição associativa densa, e o legado simbólico da CUF que continua a ser, como nota Solid Sentinel a propósito do projecto NOOBA, “um legado de trabalho, união e compromisso” inscrito no ADN da cidade.
O problema do Barreiro, portanto, não é a ausência de capital cultural. É a incapacidade de o converter em capital económico estruturante. E aqui chegamos ao núcleo da questão.
Em Óbidos, a autarquia construiu uma infraestrutura institucional permanente, Óbidos Vila Literária, FOLIO, candidatura UNESCO, plano 2025-2035, que opera independentemente dos ciclos políticos. No Fundão, a Incubadora Urbana Polinucleada, a Academia de Código e a Praça constituem dispositivos de governança que sobreviveram a três mandatos autárquicos com presidentes diferentes. No Barreiro, o que se vê é um padrão diferente: eventos excelentes, mas episódicos; iniciativas notáveis, mas isoladas; comunidades artísticas vibrantes, mas precárias e desligadas de uma estratégia económica clara.
O Barreiro Rocks esteve seis anos sem acontecer. Isto não é um detalhe: é um sintoma. Em Óbidos, o FOLIO não falha um ano. No Fundão, a Web Summit Roadshow não falha um ano. A diferença entre uma cidade que se afirma e uma cidade que se queixa é, muitas vezes, a diferença entre uma agenda anual cumprida e uma agenda anual interrompida.
VI. A “cidadania da espera” como patologia urbana
Há um conceito que tenho vindo a desenvolver noutros textos sobre o Barreiro: o de cidadania da espera. A margem sul vive há quatro décadas à espera de algo a desindustrialização ordenada da CUF, o Arco Ribeirinho Sul, a Terceira Travessia do Tejo, o aeroporto de Alcochete, a regeneração do Quimiparque, a ligação fluvial reforçada anunciada em Maio de 2026. Esta condição de antecipação permanente tem um efeito sociológico devastador: produz uma cultura cívica que delega no exterior, no Estado central, em investidores estrangeiros, na “próxima vaga”, aquilo que deveria ser produzido localmente.
Óbidos não esperou pela UNESCO; candidatou-se a ela com um projecto já em execução. O Fundão não esperou pela fixação de quadros; construiu as condições para que isso acontecesse. O Barreiro, em demasiados domínios, ainda funciona na lógica oposta: aguardar que a ponte chegue, que o aeroporto se decida, que o Estado central liberte os terrenos da Baía do Tejo, da Parpública, da Estamo. Esta postura tem custos. O principal é a fuga do talento artístico, o Barreiro forma e exporta criadores que se realizam em Lisboa, Porto, Berlim ou Bruxelas porque a cidade não consegue oferecer-lhes os dispositivos económicos mínimos de fixação: ateliers a preços controlados, residências artísticas continuadas, programas de aquisição municipal, fiscalidade favorável a indústrias criativas, infraestrutura de produção partilhada.
A riqueza que se produz no Barreiro escoa-se diariamente pelos cacilheiros e pelos comboios da Fertagus. Não é uma metáfora. É um facto económico mensurável.
VII. O que o Barreiro tem de aprender — sem se transformar no que não é
Antes de propor lições, importa afastar um equívoco. O Barreiro não deve ser uma Óbidos. Não tem muralha, não tem a escala, não tem a economia turística de massa, e felizmente não tem essa vocação. Tornar-se Óbidos seria, no caso do Barreiro, cair naquilo que a literatura sobre Óbidos já começa a problematizar criticamente: a disneyficação, a substituição do tecido residencial pela monocultura turística, a expulsão da comunidade local pela inflação imobiliária. O Barreiro também não deve ser o Fundão, não é interior, não tem o mesmo problema demográfico, tem outras vantagens comparativas e outras vulnerabilidades.
O que o Barreiro tem de aprender com Óbidos e com o Fundão não é o modelo. É o método. Esse método tem quatro componentes que considero não-negociáveis para qualquer município português que queira sair da estagnação:
Primeiro, a continuidade estratégica de longo prazo.Planos a dez anos, com indicadores públicos, revisões anuais e prestação de contas, blindados contra a alternância partidária. Óbidos opera com um horizonte 2025-2035. O Fundão opera com uma trajectória contínua desde 2013. O Barreiro precisa do seu plano 2026-2040, vinculado ao Arco Ribeirinho Sul e à reconversão do Quimiparque, com metas quantificáveis em fixação de criadores, atracção de empresas culturais e tecnológicas, e densificação programática.
Segundo, a conversão sistemática de capital simbólico em capital económico através de dispositivos empresariais autónomos.A ADAO, o Barreiro Rocks, o circuito de arte urbana, a memória CUF, tudo isto são activos. Mas activos só geram retorno se forem operacionalizados através de estruturas que tenham autonomia financeira e lógica de exploração económica. O Barreiro precisa da sua própria Barreiro Criativa, E.M., empresa municipal de capitais públicos, financeiramente autónoma, gestora de equipamentos culturais, parques de estacionamento, frente ribeirinha activável, marca-cidade, programação anual estruturada e exploração comercial associada. Uma empresa que não dependa do orçamento camarário corrente nem das alternâncias políticas, e que possa contratar profissionais especializados em mercado competitivo. Isto não é privatização da cultura: é industrialização inteligente da cultura, garantindo que a actividade cultural não pese sobre o contribuinte mas gere riqueza a partir da sua própria operação.
Terceiro, a articulação obrigatória com a economia digital e com a universidade. Uma empresa municipal de animação cultural, por si só, não basta. Óbidos só funciona porque tem a Óbidos Criativa e o Óbidos Parque e a parceria estrutural com a Universidade de Coimbra e o Politécnico de Leiria. O Barreiro tem, ali mesmo, do outro lado do rio, algumas das instituições académicas mais relevantes do país, o ISCTE, a NOVA, o IST, a Universidade de Lisboa e tem na península de Setúbal o Instituto Politécnico de Setúbal. A ausência de uma estrutura de parceria académica formal, com órgãos sociais partilhados e financiamento europeu canalizado (PRR, Portugal 2030, Horizonte Europa), é uma das maiores falhas estratégicas da cidade. Um eventual Barreiro Tech & Creative Park, instalado num pavilhão reconvertido do Quimiparque, com universidades na direcção e empresas digitais residentes, é uma possibilidade que está à espera de quem a decida operacionalizar.
Quarto, o empreendedorismo cultural e a sincronização inteligente de ritmos de investimento.O Fundão demonstrou que se pode formar uma comunidade tecnológica do zero quando o município se assume como broker entre talento, capital e território e quando reconhece que diferentes classes de investidores operam em horizontes temporais distintos. O Barreiro pode fazer o mesmo na economia criativa (horizonte 2-5 anos), na agritech ribeirinha do estuário do Tejo (horizonte 5-10 anos), na economia azul e regeneração ambiental dos brownfields (horizonte 10-20 anos), no investimento imobiliário e habitacional (horizonte 5-15 anos). Mas exige liderança pública competente, busca activa internacional sistemática, viajar, observar, importar selectivamente modelos de Hamburgo, Bilbao, Roterdão, Marselha, Belém do Pará, Recife, Santos e desenhar urgentemente instrumentos diferenciados para cada ritmo de retorno, não anúncios genéricos para investidores genéricos.
Quinto, a narrativa pública. Óbidos e o Fundão comunicam-se constantemente para o exterior. O Barreiro comunica-se mal, comunica-se episodicamente, e quando comunica fá-lo demasiadas vezes em registo defensivo, a queixa do esquecimento, a reivindicação do que é devido. Uma cidade que se quer afirmar tem de produzir narrativa positiva e propositiva, não narrativa de ressentimento. Bem sei que o passado Industrial é profundamente marcado mas temos que caminhar “ai que saudades que eu tenho do que ainda vamos fazer” como dizia o meu eterno e saudoso amigo Jose Wilson da Cruz Dias.
VIII. Conclusão: a margem sul não pode esperar por Lisboa
A margem esquerda do Tejo, como reconheceu o anterior Primeiro-Ministro em 2023, “merece um grande projecto de regeneração urbana”. O problema é que merecer não é receber. E receber não é construir. Óbidos não esperou que Lisboa lhe oferecesse uma identidade literária, fabricou-a. O Fundão não esperou que o interior lhe trouxesse empresas tecnológicas, foi buscá-las.
O Barreiro tem, hoje, mais activos culturais, simbólicos e territoriais do que Óbidos e o Fundão tinham em 2011 e 2013, respectivamente. Tem proximidade absoluta a Lisboa, 500 hectares de solo industrial reconvertível, uma comunidade artística reconhecida, uma identidade operária densa, uma frente ribeirinha com escala europeia, e horizontes de mobilidade que se vão materializando, a ligação fluvial reforçada, a Terceira Travessia, eventualmente o aeroporto de Alcochete.
O que falta não é potencial. É método.
Enquanto o Barreiro continuar a operar na lógica da espera, e enquanto os seus eventos culturais mais relevantes puderem ser interrompidos durante seis anos sem que isso desencadeie uma reacção institucional estruturada, a cidade continuará a perder aquilo que mais lhe importa: os seus criadores, a sua riqueza simbólica, e a possibilidade de definir o seu próprio destino antes que outros o façam por ela.
Óbidos e o Fundão, à sua escala, demonstraram que o futuro das cidades portuguesas não se decide em Lisboa. Decide-se em cada autarquia que escolhe não esperar.
O Barreiro tem tudo para o fazer. Falta-lhe decidir.
António Matias Lopes
Colunista do Jornal digital Rostos, gestor de projectos internacionais e doutorando em Sociologia: Cidades e Culturas Urbanas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC/CES), onde investiga a erosão e transformação dos centros urbanos.
19.05.2026 - 10:24
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