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Défice de atenção: distraídos?
Por Vera Silva
Barreiro

Défice de atenção: distraídos?<br />
Por Vera Silva<br />
Barreiro Todos, mas todos teremos um défice de atenção e alguma hiperatividade. Com os inúmeros estímulos a que estamos sujeitos socialmente, ecrãs, sons, ruído visual, entre tantos outros acabamos por esquecer o essencial. Mesmo a agenda que tentamos cumprir, esquecemo-nos onde está, se não estiver no telemóvel. Cada um acaba por estabelecer as suas estratégias para evitar a distração. E são essas estratégias que nos salvam muitas das vezes.

Ao longo dos tempos tem sido algo bastante discutido, gerando alguma controvérsia, com opiniões de vários autores. No entanto, o défice de atenção é considerado uma perturbação crónica que interfere com o normal desenvolvimento da criança e/ou adolescente. Para além destes, existem muitos adultos a serem atualmente diagnosticados com o mesmo tipo de patologia. E que só em retrospetiva percebem o esforço que fizeram para conseguir um foco quer no estudo, quer nas atividades da vida diária. O défice de atenção leva a alterações cognitivas, emocionais e comportamentais, o que quer dizer que quem é portador desta situação não é deliberadamente que se esquece das coisas, uma vez que consiste num padrão consistente de desatenção. Tudo isto acaba por ter um impacto negativo na vida social, afetiva e académica e/ou profissional. Este tipo de situação tem um início antes dos 12 anos de idade, tendo sinais já visíveis em idade pré-escolar. A situação tem uma prevalência mais elevada no sexo masculino, ocorrendo muitas vezes subdiagnosticação na mulher.

Pensa-se que poderá estar associado ao facto de o comportamento feminino ser menos físico, levando a menos consultas e consequentemente menos diagnósticos. A maior prevalência verifica-se na idade escolar, persistindo na adolescência e com uma prevalência de 2,5% na idade adulta. Daí os diagnósticos tardios que agora ocorrem. Do ponto de vista dos fatores etiológicos, os mesmos podem ser neuroanatómicos, psicossociais e perinatais. No caso dos fatores psicossociais podemos ter a negligência (onde está incluída uma parentalidade inadequada, problemas de vinculação, laborais, famílias disfuncionais… nada é perfeito). Neste campo o importante é que o alerta seja dado precocemente: pelos pais, pela escola e/ou pelo médico assistente. Nos sinais de alerta, que é importante estar atento, incluem-se falta de compreensão para tarefas ou instruções. No entanto, os sintomas podem não ser anormais, porque afinal todos temos algum défice de atenção, mas a sua frequência e interferência no dia a dia da criança é que desencadeia a preocupação. A criança que tem défice de atenção e podemos aflorar aqui a hiperatividade, distrai-se facilmente com pormenores extremamente pequenos ou tem dificuldade em acabar tarefas como o caso dos trabalhos de casa (TPCs). Agora também pensem quem é que gosta de levar trabalho de casa para fazer? Imaginem no vosso trabalho (e muitos assim o serão) se gostam quando alguém vos pede para executarem tarefas fora do tempo regulamentado de trabalho.

Os TPCs funcionam assim para as crianças. Esta criança tem dificuldade em encontrar motivação, demonstrando uma labilidade e imaturidade emocionais bastantes elevadas. Agora pensem se já algumas vezes, ou muitas se sentiram assim? Com dificuldade de foco e com as emoções à flor da pele. Somos hiper estimulados com tudo o que se passa a nossa volta, sons, ruido visual, redes sociais, etc. e com isso o nosso grau de atenção reduz. Não conseguimos dar para tudo. O mesmo se passa com as crianças. O diagnóstico é importante, ajudar é importante, mas a prevenção deste grau de desatenção é também crucial. Por isso, ao procurar ajuda porque houve um alerta pensem também nas inúmeras causas que poderão contribuir para este grau de estimulação extra. Por vezes não são só alterações do desenvolvimento que contribuem para tal. Um bom diagnóstico é essencial.

Vera Silva
Pediatra, CUF Quinta da Lomba, Barreiro
Consulta de Neurodesenvolvimento, CS CUF Mercado 1º de Maio, Barreiro


31.05.2026 - 00:23

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