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Dia Mundial da Criança: Que Cidade Estamos a Construir para Elas?
por António Matias Lopes
Barreiro

Dia Mundial da Criança: Que Cidade Estamos a Construir para Elas?<br />
por António Matias Lopes<br />
Barreiro Há uma pergunta que raramente se faz nas câmaras municipais, nos planos diretores ou nas estratégias metropolitanas: o que pensa uma criança quando atravessa a sua cidade? O que sente quando não há sítio para brincar, quando o rio está longe, quando a rua é apenas um corredor de automóveis, quando a praça não tem sombra nem banco e quando os pais chegam a casa tarde demais porque o trabalho ficou noutra cidade?

No Dia Mundial da Criança, celebrado a 1 de Junho por decisão das Nações Unidas, o mundo proclama direitos. Direito à educação, à saúde, à proteção, ao afeto. São direitos fundamentais e inegociáveis. Mas há um direito que quase nunca aparece nas declarações solenes: o direito à cidade. O direito de crescer num lugar que faça sentido, que tenha memória, que tenha futuro, que tenha escala humana. O direito de ter pais que não precisem de sair da cidade para trabalhar, de frequentar escolas que não sejam um destino de segunda, de ser tratado num hospital que exista e que exista próximo.

Penso nas crianças do Barreiro. Cresci nesta cidade, chegámos quando eu tinha sete meses, os meus pais vindos trabalhar na CUF, como tantos milhares de famílias que fizeram do Barreiro uma cidade operária, solidária, com uma identidade própria e uma dignidade que não pedia licença a ninguém. Conheço as suas ruas, o seu rio, o cheiro da tarde no Alburrica, a memória da Quimigal, o orgulho calado de quem sabe que esta cidade fez Portugal moderno com as suas mãos.
E precisamente porque conheço, porque sou barreirense de raiz e de afeto, não consigo deixar de fazer a pergunta que me persegue: que cidade estamos a deixar às crianças do Barreiro?

Os pais saem. As crianças ficam.

A resposta honesta é incómoda. Os pais e as mães das crianças do Barreiro saem todos os dias desta cidade para trabalhar. Não porque queiram. Porque o emprego de qualidade não está cá. Porque a economia local não gerou, nas últimas décadas, a massa crítica de atividade que segurasse os trabalhadores qualificados, que atraísse empresas, que criasse oportunidades dentro do próprio território. O resultado é uma cidade que funciona como dormitório metropolitano e os dormitórios não têm projecto, não têm centralidade, não têm futuro próprio. Têm apenas camas.
Uma criança cujos pais passam duas horas por dia em transportes, cujo pai chega a casa quando ela já dorme, cuja mãe não consegue estar na festa da escola porque o emprego é em Lisboa e o patrão não compreende essa criança está a aprender, muito cedo, que a sua cidade não tem valor suficiente para reter o que tem de melhor. É uma lição silenciosa e devastadora sobre o lugar onde nasceu.

O ensino que não chega a todos.

Uma cidade que não retém emprego qualificado não retém famílias qualificadas. E uma cidade que perde famílias qualificadas vê o seu sistema de ensino enfraquecer progressivamente, não por falta de professores dedicados, que os há e que merecem todo o reconhecimento, mas por ausência do ecossistema que transforma uma escola num projeto coletivo de excelência. O ensino de qualidade, os programas de enriquecimento curricular, as atividades extracurriculares, as escolas de referência, está cada vez mais concentrado nas cidades com maior poder de atracão e maior capacidade de investimento. Para as famílias do Barreiro com menores rendimentos, aceder a esse ensino é simplesmente impossível. Não por falta de ambição para os filhos. Por falta de salário para pagar a diferença.
Esta é uma forma de exclusão que não aparece nas estatísticas com esse nome. Chama-se "oferta educativa", "mobilidade escolar", "liberdade de escolha". Mas para quem ganha o salário mínimo e não tem carro, chama-se simplesmente impossibilidade.

A cidade que só alguns podem habitar.

A habitação tornou-se o tema central da exclusão urbana contemporânea e o Barreiro não é excepção, é sintoma. A ideia de que uma família jovem, com filhos, com rendimentos médios ou baixos, pode escolher onde viver dentro da sua área metropolitana é, hoje, uma ficção. O mercado habitacional expulsou sistematicamente as famílias para as periferias das periferias, para os concelhos onde a renda ainda é suportável, até deixar de ser. O Barreiro foi, durante décadas, essa periferia acessível. Está a deixar de o ser, sem ter construído, em contrapartida, a centralidade económica e simbólica que justificaria o aumento do custo de viver cá.
A cidade está a tornar-se, como tantas outras, um território para alguns. Para os que podem pagar. Para os que já cá estavam e se foram ficando. Para os que não têm alternativa. As crianças que nascem neste contexto aprendem desde cedo que a cidade é um privilégio distribuído de forma desigual e que elas estão do lado errado dessa distribuição.

A saúde que se faz noutro sítio.

E depois há a saúde. A saúde das crianças do Barreiro e das suas famílias, depende, em larga medida, de uma deslocação. A especialidade que não existe no centro de saúde local. A urgência que encaminha para o hospital fora do concelho. A consulta de desenvolvimento que tem lista de espera de meses e fica a trinta quilómetros. Não é um problema de má vontade dos profissionais de saúde, que trabalham em condições muitas vezes indignas da sua competência e dedicação. É um problema de arquitectura do sistema, que concentrou recursos onde havia mais pressão política e mais capacidade de reivindicação organizada, e que deixou territórios como o Barreiro com uma cobertura de saúde que não corresponde nem à dimensão da sua população nem à complexidade das suas necessidades.
Uma criança que precisa de ir a uma consulta de pedopsiquiatria, de terapia da fala, de oftalmologia pediátrica, aprende que a sua saúde não cabe na sua cidade. É mais uma mensagem silenciosa sobre o valor do lugar onde nasceu.

Sustentabilidade não é uma visão.

O Barreiro tem hoje uma narrativa de futuro que é, na melhor das hipóteses, uma soma de intenções avulsas sem arquitectura estratégica. Fala-se de sustentabilidade, palavra que se tornou o ornamento retórico preferido de quem não tem coragem de fazer escolhas. A sustentabilidade sem sentido de lugar, sem centralidade, sem projecto de cidade, é uma declaração de intenções que não muda nada. Não cria emprego. Não fixa famílias. Não constrói escolas de referência. Não traz hospitais. Não devolve o rio às crianças.
Uma visão estratégica para o Barreiro teria de começar precisamente pelas perguntas que ninguém faz: como é que esta cidade cria emprego de qualidade dentro do seu território? Como é que transforma os 500 hectares do Arco Ribeirinho Sul (Quimiparque), um dos maiores activos de regeneração urbana da Área Metropolitana de Lisboa, numa alavanca de desenvolvimento económico e social, e não numa reserva especulativa à espera de conjuntura? Como é que reconstrói a sua centralidade urbana, a sua frente ribeirinha, a sua identidade colectiva, de forma a que as famílias queiram cá estar, não por falta de alternativa, mas por excesso de pertença?
Estas são perguntas de visão. E visão é exactamente o que falta.

O que dizemos às crianças.

Henri Lefebvre escreveu que o direito à cidade é o direito a uma vida urbana transformada e renovada. Não é um direito de consumo. É um direito de participação, de apropriação, de produção colectiva do espaço onde se vive. As crianças são os únicos cidadãos que exercem esse direito de forma absolutamente honesta, sem agenda, sem propriedade, sem interesse instalado. Quando uma criança escolhe uma rua para brincar, está a dizer-nos que aquela rua tem qualidade urbana. Quando foge dela, está a dizer-nos que falharam os adultos.

No Dia Mundial da Criança, a mensagem que quero deixar às crianças do Barreiro é simples: a vossa cidade tem uma história extraordinária e um futuro que ainda não foi escrito. Tem um rio que é de todos. Tem uma memória que vale mais do que qualquer plano de urbanização. Tem pessoas que a amam com uma lealdade que não se compra.
E a mensagem que quero deixar aos que decidem, autarcas, planeadores, investidores, representantes eleitos, responsáveis pela saúde e pelo ensino, é igualmente simples: uma cidade que não se pensa para as suas crianças não se pensa para ninguém. Uma cidade que expulsa os pais para trabalhar, que torna o ensino de qualidade inacessível, que obriga as famílias a tratar a saúde noutro sítio, que transforma a habitação num privilégio, essa cidade está a falhar às suas crianças de forma sistemática e silenciosa.
O futuro não é uma questão de sustentabilidade. É uma questão de sentido. E o sentido começa sempre pela geração que ainda não vota, que ainda não compra, que ainda não decide, mas que um dia vai herdar o que hoje construímos. Ou o que hoje deixámos por construir.
Às crianças do Barreiro, e às crianças do mundo : o direito à cidade é vosso. Não deixem que ninguém vo-lo retire em nome de planos que nunca vos perguntaram nada.

António Matias Lopes é engenheiro, promotor imobiliário e doutorando em Sociologia — Cidades e Culturas Urbanas na Universidade de Coimbra. Escreve regularmente sobre urbanismo e política urbana no Diário Digital Rostos.

01.06.2026 - 23:34

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