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O Barreiro e a economia do simbólico: arquitectura de um ecossistema
Por António Matias Lopes
Barreiro

O Barreiro e a economia do simbólico: arquitectura de um ecossistema<br />
Por António Matias Lopes<br />
Barreiro<br />
Há uma maneira cansada de começar qualquer conversa sobre a imagem do Barreiro: pela falta. Falta-nos o castelo, falta-nos a sé, falta-nos o centro histórico de postal, falta-nos a paisagem que se vende sem legenda.

É um exercício que se repete de candidatura em candidatura, incluindo na reflexão em torno da Capital Portuguesa da Cultura 2028, e que tem um vício de origem: parte do pressuposto de que o capital simbólico é uma coisa que se tem ou não se tem, como se herda um monumento. Não é. O capital simbólico, na acepção de Bourdieu, não é um stock, é um efeito de reconhecimento. É o crédito que as outras formas de capital (económico, cultural, social) adquirem quando passam a ser percebidas como legítimas. E o reconhecimento não se herda: produz-se, cura-se, institucionaliza-se. Dito de outro modo, o problema do Barreiro nunca foi a escassez de capital simbólico. Foi a ausência de um aparelho capaz de o acumular e de o converter.

O que está disperso

Quando se faz o inventário, percebe-se depressa que a cidade não é pobre, é desarrumada. Tem reservas simbólicas de três naturezas, hoje desconexas.
A primeira é geográfica e relacional: o Tejo, o estuário, a travessia. O Barreiro é, antes de tudo, um limiar, um ponto de passagem entre a margem e a capital, condição que pode ser lida como subalternidade (cidade-dormitório, nó de trânsito) ou como centralidade fluvial a reconquistar. A diferença entre as duas leituras é, ela própria, simbólica.
A segunda é histórica e industrial: a CUF e a modernidade química, o operariado qualificado, o denso tecido associativo e cooperativo, a memória de uma cidade que foi, por mérito próprio, um dos grandes laboratórios da industrialização portuguesa. É aqui que reside a maior reserva, e a mais mal aproveitada. A nostalgia trata o passado industrial como luto; uma economia do simbólico trata-o como activo fundacional, à maneira de Essen com o Zollverein ou do Ruhrgebiet inteiro com a Capital Europeia da

Cultura de 2010.

A terceira é humana e diaspórica: de Álvaro Velho, o barreirense que cronicou a viagem de Vasco da Gama, isto é, o homem que narrou o acontecimento que funda o imaginário marítimo português, aos portadores contemporâneos como Neemias Queta na NBA ou Mateus Mané no futebol inglês. Estes nomes circulam como anedota orgulhosa de café. Não circulam como estrutura.
O denominador comum é claro: capital simbólico que não é curado, narrado e institucionalizado dissipa-se. Evapora-se em episódios.

O que é, afinal, um ecossistema

Convém desfazer um equívoco antes de propor seja o que for. Um ecossistema de capital simbólico não é uma campanha, não é um logótipo, não é um festival, não é um plano de comunicação. Campanhas terminam, logótipos envelhecem, festivais consomem o capital que deviam acumular. Um ecossistema é um aparelho articulado e durável que faz cinco coisas em simultâneo: produz narrativa, ancora-a em infra-estrutura simbólica, converte-a em valor, mobiliza portadores e governa-se de forma metropolitana.

Falhar qualquer um dos cinco vectores é regressar ao episódio.

É também aqui que importa uma cautela que tenho defendido a propósito de Justin O’Connor: cultura não é uma indústria. A conversão do simbólico não pode degenerar em pura instrumentalização, em transformar memória operária em merchandising e identidade em activo transaccionável. O ecossistema que proponho serve a cidade primeiro e a economia por consequência, nunca o inverso.

A proposta: cinco vectores

1. Uma instituição curatorial da narrativa. Não um museu nostálgico, mas um corpo permanente que produz, actualiza e exporta a história da cidade, uma Casa da Memória e do Futuro, se quisermos um nome. A sua função não é guardar o passado: é fabricar, com rigor, a narrativa que torna inteligível a trajectória do Barreiro, da modernidade química à refundação pós-industrial. Bilbau não se reinventou só com um edifício; reinventou-se com a Bilbao Ría 2000, uma estrutura que detinha o enredo. HafenCity tem uma sociedade de desenvolvimento com mandato cultural explícito. Sem dono da narrativa, há só ruído.

2. Uma infra-estrutura simbólica ancorada num gesto fundador. O capital simbólico precisa de corpo. Precisa de um lugar que diga, sem legenda, é aqui que a cidade decidiu virar-se. A “Quimiparque”, esse brownfield de cerca de quinhentos hectares hoje preso num impasse institucional, é a oportunidade fundadora. A reconversão de uma peça âncora desse património industrial seria, para o Barreiro, o que o Zollverein foi para Essen ou as Albert Docks para Liverpool em 2008: não um equipamento, mas um acto. E a frente ribeirinha é o segundo gesto, devolver à cidade o seu limiar, fazer da travessia uma porta e não uma falha.

3. Um mecanismo de conversão sóbrio. Articular a narrativa com conhecimento, economia criativa e turismo de proximidade, mas resistindo à tentação de medir tudo em receita. Medellín converteu estigma em orgulho cívico através de equipamentos públicos de excelência em bairros antes excluídos; o valor primeiro foi cívico, o económico veio atrás. A conversão que defendo transforma capital simbólico em capital cívico, autoestima, sentido de pertença, capacidade de fixar quadros e atrair quem escolhe a cidade por convicção, não por preço.

4. Uma rede de portadores. A diáspora barreirense e as figuras contemporâneas não são troféus: são nós relacionais. Uma constelação organizada de embaixadores, de Neemias Queta a investigadores, empresários, artistas, que devolvem à cidade reconhecimento exterior, que é precisamente a matéria de que é feito o capital simbólico. O reconhecimento que vem de fora vale mais do que o auto-elogio.

5. Uma governação metropolitana e supra-partidária. Este é o vector decisivo e o mais difícil. O capital simbólico do Barreiro é metropolitano, joga-se na escala da Área Metropolitana de Lisboa, na lógica do Tejo como sistema, não na fronteira administrativa do concelho. Exige uma estrutura que sobreviva a ciclos eleitorais e que articule câmara, intermunicipalidade e Estado sem se deixar capturar por nenhuma cor. Sem isto, cada mandato recomeça do zero e o capital nunca compõe juros.

A candidatura como catalisador, não como fim

É aqui que a Capital Portuguesa da Cultura 2028 ganha o seu verdadeiro sentido. Tratada como prémio, é uma vaidade que se esgota na entrega. Tratada como dispositivo, é o prazo que obriga o ecossistema a nascer, a forçar a instituição curatorial, o gesto fundador, a governação. Liverpool não ficou rica por ter sido capital da Cultura em 2008; ficou diferente porque usou o título como alavanca para uma transformação que já vinha em marcha. O título é o pretexto. O ecossistema é a obra.

Para fechar

O capital simbólico tem uma propriedade que nenhuma outra forma de capital partilha: bem administrado, gera todas as outras. Atrai investimento porque atrai sentido; fixa pessoas porque fixa orgulho; legitima decisões porque legitima a própria cidade. O Barreiro tem a matéria-prima, tem-na em abundância e em desordem. O que lhe falta não é mais um inventário comovido da sua memória. É a arquitectura que transforme essa memória dispersa num sistema que se acumula.
Escrevo isto como quem aqui chegou com sete meses e nunca mais se foi embora por inteiro. A cidade que me criou não precisa de pedir desculpa por não ter castelo. Precisa de decidir, finalmente, ser dona da sua própria narrativa.

António Matias Lopes
Artigo de Opinião.
Junho 2026

07.06.2026 - 16:40

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