colunistas
A cultura como direito de pertença
Da candidatura a Capital da Cultura à Cidade dos Livros
Por António Matias Lopes
Barreiro
. Cidade dos Livros assinada ontem: porque regenerar não é revitalizar e porque a cultura só conta se gerar capital, e não fotografiaNas últimas semanas, dois documentos municipais circularam quase em simultâneo, ainda que em registos opostos. Um, ruidoso e justamente celebrado: a 20 de Maio, o executivo aprovou por unanimidade a declaração de base da candidatura do Barreiro a Capital Portuguesa da Cultura 2028, subscrita por uma comissão promotora.
A comissão promotora que reúne, entre outros, José Pacheco Pereira, Alexandre Farto (Vhils), a ADAO, a OUT.RA e os PADA Studios. O outro, discreto e técnico, publicado em Diário da República: uma alteração simplificada do Plano Director Municipal que, na Unidade Operativa de Planeamento e Gestão n.º 17, a antiga corticeira Rúbio, eleva o limite de fogos de 557 para 757, fixando uma densidade de 124 fogos por hectare. O primeiro fala de memória, identidade e cultura. O segundo, de aritmética urbanística. E, no entanto, é entre os dois que se decide, em silêncio, que cidade será o Barreiro.
Convém dizê-lo sem rodeios: a candidatura merece apoio, e a leitura que dela faz a vereadora da Cultura é acertada. Ao recusar o lugar-comum da cidade monumental e ao ancorar a distinção do Barreiro na sua história colectiva, no património industrial, na memória operária e no trabalho, a declaração identifica com rigor aquilo que torna esta cidade singular: um património que é sobretudo humano e laboral. É a intuição correta. O Barreiro não se explica por pedras antigas, mas por gerações que aqui chegaram de todo o país, trabalharam, se associaram e criaram. Essa é, de facto, a sua matéria-prima cultural e, bem aproveitada, o seu maior ativo competitivo.
Há, porém, uma palavra que pede cautela: *indústrias criativas*. É aqui que importa convocar Justin O’Connor, professor de Economia da Cultura e autor de *Culture is Not an Industry* (2024). A sua tese é uma advertência útil: ao longo de um quarto de século, requalificar a arte e a cultura como meras “indústrias criativas”, valorizadas apenas pela contribuição económica imediata, acabou por esvaziá-las daquilo que as torna decisivas. O’Connor propõe recolocar a cultura como fundamento da cidadania, da identidade e da pertença. Não para a opor à economia, mas porque é precisamente essa raiz que dá sentido, continuidade e valor durável a tudo o resto.
A consequência para o Barreiro é direta. A justificação mais profunda da candidatura não é apenas que a cultura coloque a cidade “no mapa” ou gere retorno de curto prazo. É que a cultura constitui o tecido de pertença, o direito de pertencer a um lugar e de nele reconhecer-se. Uma cidade que cuida desse tecido retém quem cá vive, atrai quem investe e dá continuidade à sua identidade. É um bem cívico antes de ser um produto.
Voltemos então à corticeira Rúbio, porque o exemplo é eloquente. A cortiça é parte da própria memória industrial que a candidatura celebra; e, todavia, a alteração que sobre ela incide não nasce de um desígnio de cidade, mas de um pedido do proprietário de uma parcela desocupada. É uma cidade que se regenera ao retalho, parcela a parcela, ao sabor do requerente. Não está em causa o acréscimo de fogos em si, a cidade precisa de habitação, e precisa de investimento. Está em causa a ausência de um projeto que dê coerência ao conjunto. Sem esse fio condutor, somam-se intervenções avulsas que nunca chegam a fazer cidade, e o valor que cada uma cria isoladamente fragmenta-se em vez de se reforçar.
É exatamente o mesmo problema que se joga ao nível da rua. Que se pinte e se pedonize uma artéria é bem-vindo, mas uma rua-montra tratada ao lado de ruas sujas, congestionadas e ao abandono não produz uma centralidade: produz um cenário. Jane Jacobs, em *Morte e Vida de Grandes Cidades*, ensinou-o de forma luminosa: a rua é a unidade elementar da cidade, e a vitalidade nasce do tecido contínuo, de grão fino, e não do gesto monumental ou cosmético isolado. Há centralidade quando *todas* as ruas do centro são fluidas na circulação, limpas, seguras, acessíveis e habitadas, um todo coerente, e não um palco pontual rodeado de degradação. A pedonização cosmética e a densificação avulsa são, no fundo, as duas faces do mesmo urbanismo de retalho.
É na geração mais nova que estas escolhas se tornam irreversíveis. O risco, já assinalado por vários observadores, é o de o Barreiro se converter num território de pressão pendular: mais caro para viver, mais dependente de Lisboa. Os novos empreendimentos ribeirinhos vendem-se sob a etiqueta sedutora do “luxo democrático”, com vista sobre o Tejo, e nada há de errado em construir com qualidade. O problema surge quando a qualidade é um enclave e não uma regra: ilhas tratadas no meio de um centro descuidado expulsam, pelo preço e pela incoerência, justamente os mais jovens. E os jovens são o capital humano de que a cidade depende, os que estudam, criam, abrem negócio e sustentam a vida cultural que a candidatura quer celebrar. Uma cidade que afasta a sua juventude esvazia o próprio activo que diz querer promover. Não por acaso, os agentes que a candidatura convoca, a ADAO, a OUT.RA, os PADA Studios, o festival de jazz, são ecossistemas onde os jovens se enraízam. Retê-los não é despesa: é a melhor estratégia de atractividade e competitividade que uma cidade pode ter.
Daqui decorre a coerência possível, e ela é exigente sem ser hostil. Apoiar a candidatura é reconhecer-lhe uma ambição legítima e necessária; mas a sua integridade depende de uma articulação que hoje não existe entre o discurso da cultura e a gestão concreta do território. O critério cultural tem de entrar no PDM e na política de ruas. As alterações que incidam sobre parcelas de memória, corticeiras, tecido naval, malha da antiga CUF, devem ler-se à luz da pertença e de uma pergunta simples: *isto dá aos mais novos razões para ficar? * E a regeneração do espaço público não pode esgotar-se em ruas-montra: tem de tornar todo o centro fluido, limpo e vivo, porque é o conjunto, e não a exceção bem cuidada, que cria valor e identidade.
E foi precisamente esta semana que o Barreiro teve um vislumbre do que pode ser a regeneração a sério. Ontem, o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, esteve na cidade para assinar a adenda ao protocolo entre a Arco Ribeirinho Sul e a associação Ephemera, a casa de arquivos de José Pacheco Pereira e lançou o repto de criar, no antigo território da CUF, uma Cidade dos Livros que venha somar-se à já existente Cidade dos Arquivos. Convém, a este ponto, fixar uma distinção que muitos responsáveis confundem com frequência: regenerar não é revitalizar. Revitalizar é dar nova aparência, pintar, pedonizar, iluminar, inaugurar. Regenerar é mudar a estrutura: criar funções novas, fixar pessoas e gerar atividade que se sustenta depois de o subsídio terminar. A revitalização produz uma fotografia; a regeneração produz um organismo. E a diferença mede-se por uma pergunta simples: quando os fundos europeus se esgotarem, o que fica de pé?
A Cidade dos Livros pertence, em potência, à categoria certa. A vereadora da Cultura captou-o bem ao descrever a passagem de um território que outrora produziu químicos e têxteis para um que passa a produzir conhecimento, riqueza e cultura. Quem cresceu à sombra das chaminés da CUF reconhece nisto mais do que um slogan: é a velha fábrica a reconverter-se em fábrica de talento. Há aqui o embrião de um verdadeiro ecossistema, arquivos, editoras, alfarrabistas, livrarias, oficinas gráficas, residências de escritores, turismo literário, à imagem das vilas do livro de Hay-on-Wye, no Reino Unido, ou de Redu, na Bélgica, e, entre nós, de Óbidos. E porque nasce articulada com habitação, empresas e nova mobilidade, o Metro Sul do Tejo, a futura ponte Seixal–Barreiro, tem, à partida, a escala e a coerência que faltam às intervenções avulsas. Um ecossistema assim gera emprego qualificado, atrai visitantes, retém jovens e, sobretudo, produz capital cultural, aquele que, como mostrou Pierre Bourdieu, se acumula, se transmite e, com método, se converte também em capital económico. Isto, sim, merece entusiasmo.
Mas o aplauso obriga à exigência. O maior risco das políticas culturais em Portugal não é a falta de ideias, é a captura. É candidatar-se a fundos europeus em nome da cultura e aplicá-los, depois, noutras naturezas: em obra avulsa, em despesa corrente, em revitalizações de aparência que rendem inauguração e fita para a fotografia, mas não deixam ecossistema atrás de si. Quando isso sucede, o capital cultural nunca chega a formar-se: gasta-se o subsídio e fica o armazém vazio. Há ainda um alerta particular neste caso: por nascer dentro de uma operação de habitação e de infra-estrutura, a tentação de tratar os livros como enfeite dos apartamentos é real, e tem de ser resistida. A cultura não pode ser o folheto promocional do empreendimento; tem de ser a sua razão de ser. Uma Cidade dos Livros só cumpre a promessa se o financiamento for semente e não fim, investido em massa crítica, em acervos, agentes, programação continuada e formação, capaz de viver pelos seus próprios meios quando o apoio acabar. O capital cultural não se decreta nem se compra à pressa: cultiva-se, e leva tempo. É essa a diferença entre uma cidade que regenera e uma cidade que apenas se maquilha para a próxima inauguração.
E como se garante que a Cidade dos Livros, e tudo o resto, fica do lado da regeneração e não da maquilhagem? Em boa medida, pela forma como se decide. E há, na própria declaração, uma pista que merece ser levada a sério muito para além da cultura. A vereadora apela ao envolvimento de toda a cena cultural e à construção de uma rede que ligue os agentes culturais, as entidades públicas, o mundo empresarial, a academia e a sociedade civil. Ora, esse é exatamente o método que falta à discussão do futuro do Barreiro como um todo. Se uma candidatura cultural se constrói ouvindo e somando vontades, por que razão se há-de decidir o destino físico da cidade, a densidade de uma parcela, o desenho de uma rua, o futuro de uma corticeira, em documentos técnicos que poucos lêem e ainda menos discutem? Uma consulta pública formal não é o mesmo que participação. O apelo da vereadora não devia esgotar-se em 2028: devia tornar-se o modo habitual de pensar a cidade, uma mesa larga onde empresas, universidade, coletividades e cidadãos decidem, em conjunto, que Barreiro querem deixar a quem vier. Discutir a cultura é, afinal, o pretexto perfeito para começar a discutir tudo o resto.
É aqui que tudo se liga. A cultura não é o enfeite da candidatura nem o verniz de uma rua pedonizada: é o método que dá unidade ao todo, o fio que transforma intervenções dispersas numa cidade reconhecível. Uma centralidade séria não se mede pela rua mais bonita, mas pela pior rua do centro; não se prova num ano de eventos, mas na decisão diária de tratar o Barreiro inteiro com o mesmo cuidado. Capital da Cultura, sim, mas só será verdadeira se, em 2028, todas as ruas do centro estiverem à altura do nome, e se os jovens que hoje hesitam em ficar encontrarem, enfim, uma cidade onde valha a pena pertencer.
António Matias Lopes
Engenheiro e colunista do *Rostos*
Doutorando em Sociologia; Cidades e Culturas Urbanas
FEUC· CES
13.06.2026 - 19:49
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