colunistas
As primeiras filas e o silêncio da sétima arte
António Matias Lopes
Barreiro
Há uma cena que se repete, noite de teatro após noite de teatro, e que diz mais sobre uma cidade do que qualquer relatório de política cultural: as primeiras filas, vazias até cinco minutos antes do início, aguardam os convidados da casa. Quem chegou cedo, quem comprou o bilhete com a antecipação de quem gosta verdadeiramente de teatro, fica a filas de distância. Não é um pormenor de protocolo. É uma geografia do poder em miniatura, encenada semana sim, semana também, diante de quem paga para ver..
Não creio que seja má-fé. É um hábito, transmitido há décadas, revestido da autoridade tranquila de quem sempre foi assim e por isso deve continuar a ser. Mas os hábitos institucionais não são inocentes só porque são antigos. Quando uma autarquia reserva a linha da frente para os seus, está a dizer, sem o dizer, quem pertence ao centro simbólico da vida cultural e quem é apenas tolerado na periferia da sala. É um gesto pequeno com uma mensagem grande: a cultura, aqui, organiza-se por proximidade ao poder, não por mérito de quem a procura.
O que já existe, e porque não chega
Dito isto, seria injusto e intelectualmente preguiçoso, fingir que o Barreiro parte do zero. Existe teatro na cidade. Existem companhias, existem elencos, existe gente que ensaia à noite depois de um dia inteiro de trabalho, que monta cenários com orçamentos de bolso e que, contra tudo, continua a subir a um palco. O problema não é a ausência de vontade criativa local, é a desproporção entre essa vontade e as oportunidades reais que lhe são dadas para crescer, circular e ser vista para além do círculo de quem já a conhece.
Uma companhia local que ensaia numa sala de bairro, sem apoio técnico, sem visibilidade na agenda municipal equivalente à que se dá a produções trazidas de fora, está condenada a um tecto baixo. Não falta talento, falta o que os sociólogos chamariam capital de circulação: a capacidade de uma obra sair do seu contexto de origem e chegar a outros públicos, outras salas, outros olhares críticos. Sem esse circuito, o teatro local vive em loop fechado, os mesmos quinze ou vinte espectadores fiéis, a mesma sala, a mesma indiferença institucional disfarçada de apoio pontual, um cartaz aqui, uma nota de imprensa ali, quando calha.
E aqui distingo duas coisas que a autarquia frequentemente confunde deliberadamente: programar cultura e desenvolver cultura. Programar é trazer um espetáculo de fora, vender bilhetes, encher a sala uma noite, fotografar a vereadora à entrada. Desenvolver é outra coisa bem mais exigente, é dar às companhias locais um calendário estável de apresentações, um espaço de ensaio decente, formação continuada para os seus atores e encenadores, uma rubrica orçamental que não dependa da boa vontade de quem está de plantão naquele mandato. É apostar num tecido, não numa noite. Sem essa distinção, continuaremos a ter uma cidade que assiste a cultura em vez de a produzir e que trata os seus próprios criadores como amadores permanentes, nunca como profissionais em formação.
Há ainda um problema de visibilidade cruzada: as companhias locais raramente sabem umas das outras, raramente colaboram, raramente partilham recursos ou público. Isto não é culpa exclusiva do poder autárquico é também um sintoma de uma cena cultural fragmentada, onde cada grupo sobrevive isoladamente em vez de se organizar como comunidade profissional com peso coletivo para reivindicar condições. Uma federação informal de companhias locais, com agenda cruzada e apoio mínimo de coordenação camarária, custaria muito pouco e mudaria imenso.
Os cineclubes que já não existem
O mesmo raciocínio aplica-se, com ainda mais urgência, ao cinema. O Barreiro teve, no passado, uma vida de cineclube que hoje soa a memória distante contada por quem a viveu, eu por exemplo, sessões que terminavam em discussão, programação de autor escolhida a dedo, um público que ia ao cinema não para consumir duas horas de distração, mas para sair dali a pensar, a discordar, a discutir com o vizinho de cadeira o que tinha acabado de ver. Essa infraestrutura simbólica desapareceu, e não foi substituída por nada equivalente. Temos hoje, na melhor das hipóteses, uma sala de centro comercial, pensada para o blockbuster de fim-de-semana, sem programação de autor, sem ciclos temáticos, sem qualquer função formativa. É cinema como consumo de passagem, não como cultura.
Recuperar um cineclube não exige um edifício novo nem um orçamento monumental. Exige vontade e uma parceria inteligente, com uma escola, uma biblioteca, um espaço municipal já existente e subaproveitado à noite. Exige alguém que decida que vale a pena programar um ciclo de cinema português dos anos setenta, ou um ciclo de cinema brasileiro contemporâneo, ou uma retrospetiva de um autor esquecido, e que convide depois um crítico, um professor de cinema, um realizador local, para conversar com o público depois da sessão. Isto é infraestrutura cultural de baixíssimo custo e altíssimo retorno simbólico e é exatamente o tipo de coisa que uma vereadora da cultura devia ter como prioridade, não como nota de rodapé de um mandato mais preocupado com inaugurações fotografáveis.
E há aqui, de novo, o mesmo problema dos jovens em frente ao telemóvel. Um cineclube jovem, onde os próprios adolescentes filmam, montam, apresentam os seus curtas-metragens ao público da cidade, vale mais em capital simbólico transmitido do que dez sessões de cinema de autor vistas em silêncio e esquecidas à saída. Não se trata de lhes ensinar a admirar cinema como quem admira um museu. Trata-se de lhes dar os meios de produção, não apenas o bilhete de entrada. É a diferença entre herdar cultura passivamente e produzi-la ativamente e há quem, instalado num certo conforto institucional, prefira a primeira opção porque exige menos trabalho e menos risco político.
E depois há o “chinfrim” até às duas da manhã
E chegamos, inevitavelmente, à pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: será que tudo isto, o teatro esquecido, os cineclubes extintos, as companhias locais sem oportunidades, interessa menos à cidade do que as festas populares que se prolongam até às duas da manhã, com farturas, carrocéis e uma sonoridade que aspira, cada vez mais descaradamente, a um Rock in Rio de bolso, um "Rock in Barreiro" que imita a escala sem ter a escala, e que imita o espetáculo sem construir, no processo, coisa nenhuma que fique?
Não vou fingir desprezo pelas festas populares. Elas têm uma função social real, insubstituível: são o momento em que a cidade se encontra a si própria na rua, sem bilhete, sem crítica, sem hierarquia de primeira fila, aliás, é irónico notar que nas festas populares não há VIP algum, é o povo que ocupa o espaço por inteiro, e talvez seja por isso que a autarquia lhes dedica tanto entusiasmo: não exigem gerir hierarquias, exigem apenas gerir logística. E a memória afetiva que geram é real, quem cresceu numa cidade com festa sabe que essa memória fica, e fica bem.
O problema não é a festa. O problema é a desproporção orçamental e simbólica entre o investimento recorrente nesse modelo de animação de curto prazo, farturas, carrocéis, cachet de artistas de cartaz, palco montado e desmontado numa semana dias e o investimento quase inexistente em infraestrutura cultural que produza efeitos a dez, vinte, trinta anos. Uma festa popular gasta-se nas noites em que acontece. Um cineclube, uma companhia de teatro apoiada com regularidade, uma agenda de leitura séria, produzem cidadãos com outra relação com a cultura, ano após ano, geração após geração. São investimentos de naturezas completamente diferentes, e tratá-los como concorrentes pelo mesmo orçamento é um erro de análise, mas ignorar que, na prática, um devora o outro em visibilidade política e em verba, é fechar os olhos ao óbvio.
Há também aqui um problema de imitação sem substância. “Rock in Barreiro”, se é para existir, devia perguntar-se o que faz o modelo original funcionar como fenómeno cultural e não é o cartaz de nomes sonantes, é a infraestrutura profissional por trás, a curadoria, a capacidade de descoberta de novos artistas, a ligação a uma indústria musical mais vasta. Copiar a superfície, o volume de som, o horário até de madrugada, a escala dos palcos, sem construir nada disso por baixo, é gastar dinheiro público a produzir algumas noites de espetáculo sem deixar nenhum legado profissional para os músicos, técnicos ou promotores locais. É pirotecnia cultural: brilha, faz barulho, e não deixa nada a manhã seguinte.
O que outras cidades fizeram com o mesmo ponto de partida
Vale a pena olhar para fora, ainda que brevemente, porque o Barreiro não é o primeiro lugar a enfrentar este dilema entre o espetáculo intermitente e a construção cultural de longo prazo. Cidades médias europeias de perfil industrial ou pós-industrial semelhante ao nosso, penso em casos como Gante, na Bélgica, ou em experiências espanholas de escala comparável, perceberam, em determinado momento, que a regeneração simbólica de um centro urbano não se faz por decreto de festival, faz-se por acumulação lenta de pequenas infraestruturas culturais geridas com continuidade. Um cineclube com programação regular, uma companhia residente com apoio plurianual, uma biblioteca que organiza encontros e não apenas empresta livros, são elementos que, isolados, parecem irrelevantes, mas que, sustentados ano após ano, mudam a relação de uma população com a sua própria cidade.
O que estas experiências têm em comum não é o orçamento, muitas destas cidades não são ricas, é a decisão política de tratar a cultura como investimento em capital simbólico de longo prazo e não como despesa de animação turística de curto prazo. É a diferença entre perguntar "quantas pessoas vieram à festa este ano" e perguntar "quantas pessoas desta cidade estão hoje a criar, e não apenas a assistir, em relação a há dez anos". A segunda pergunta é infinitamente mais difícil de responder, e é exatamente por isso que ninguém a faz em público.
Não proponho que o Barreiro copie modelos alheios sem adaptação, isso seria cair no mesmo erro do Rock in Barreiro, imitar a superfície sem construir a base. Proponho apenas que se olhe para estes exemplos com honestidade: eles não tiveram mais dinheiro do que nós, tiveram mais paciência institucional e menos apetite pela fotografia de inauguração.
Um exercício de aritmética simbólica
Façamos um exercício simples: se o orçamento anual dedicado a meia dúzia de noites de animação popular de grande escala fosse dividido, em vez disso, por doze meses de apoio regular a três ou quatro companhias de teatro locais, mais um cineclube com sessão quinzenal, mais uma bolsa modesta para um cineclube jovem gerido por adolescentes com equipamento mínimo, quantas pessoas seriam impactadas ao longo do ano, de forma continuada, em vez de impactadas uma única noite, de forma intensa e fugaz?
Não tenho os números exactos da câmara, não é esse o meu papel nesta coluna, mas a pergunta em si já é reveladora. Quando uma autarquia nunca fez este exercício de comparação, é porque intuitivamente sabe qual seria a resposta, e prefere não a tornar pública. A festa popular gera fotografias, presença nas redes sociais, uma sensação imediata de sucesso mensurável em número de pessoas na rua numa noite. O investimento cultural de longo prazo gera resultados que só um mandato seguinte, ou o seguinte a esse, poderá eventualmente colher e por isso raramente interessa a quem precisa de resultados visíveis antes da próxima eleição.
Isto não é uma acusação de má-fé generalizada. É uma constatação sobre os incentivos que estruturam a decisão política local, e sobre como esses incentivos empurram sistematicamente para o espetáculo de curto prazo em detrimento da construção lenta de tecido cultural. Mudar isto exige coragem de um autarca disposto a defender, publicamente, um investimento cujos frutos não vai poder apresentar como seus.
Herança versus construção colectiva
Este é, no fundo, o mesmo padrão que atravessa tudo o que aqui foi dito: há quem pense que o processo criativo é uma herança, que quem já tem cultura em casa a transmite naturalmente aos seus, e que aos outros resta o papel de espectador agradecido, seja na primeira fila do teatro, seja na bancada do arraial. E há quem entenda a cultura como aquilo que verdadeiramente é: um bem comum que se constrói de baixo para cima, com participação, com prática, com erro e recomeço, e não uma dádiva distribuída de cima por quem já a possui.
Um cineclube jovem, uma federação de companhias locais com agenda estável, clubes de leitura que cruzam vinho e conversa direta com escritores sem palco nem distância protocolar, uma agenda musical de qualidade promovida com a mesma seriedade orçamental de um protocolo institucional, nenhuma destas coisas exige o orçamento de um Rock in Barreiro. Exige apenas que alguém decida que o retorno simbólico a longo prazo vale mais do que a fotografia de uma noite de festa.
A cultura é o pilar mais silencioso do capital simbólico de uma cidade. Não se mede em decibéis nem em metros de fila para os carrocéis. Mede-se na capacidade de uma geração escrever, ler, refletir e criar a partir do que lhe foi dado a partilhar e não apenas a consumir numas noites de Agosto. O Barreiro tem hoje essa escolha pela frente: continuar a gerir a cultura como um exercício de espetáculo intermitente e distinção protocolar entre convidados e público, ou tratá-la, finalmente, como aquilo que verdadeiramente é, um bem comum que se constrói ano após ano, com as suas companhias de teatro, os seus cineclubes recuperados e os seus mais novos como autores, não como plateia.
Esta escolha não é retórica, é orçamental e é calendarizável, pode começar no próximo mandato, ou pode começar já, com um simples protocolo entre a câmara, uma escola secundária e uma associação cultural local para reabrir, ainda que modestamente, uma sessão mensal de cinema com debate. Pode começar com a decisão simples de abolir a reserva sistemática das primeiras filas do teatro municipal e substituí-la por um sistema transparente de bilhética, o mesmo para todos, convidados incluídos. Pequenos gestos, custo quase nulo, sinal político enorme.
Porque no fim, uma cidade não se define pelas noites em que brilha mais alto, com música a competir em decibéis com a cidade vizinha. Define-se pelas manhãs seguintes, pelo que ficou, pelo que se aprendeu, pelo que alguém, entre os mais novos, decidiu criar depois de ter visto, pela primeira vez, que também podia ser autor e não apenas espetador da sua própria cidade. É essa manhã seguinte que o Barreiro ainda não decidiu construir a sério.
António Matias Lopes
Investigador Urbano – JULHO 2026
06.07.2026 - 00:04
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