colunistas
Quase cem mil razões para desconfiar
Por António Matias Lopes
Barreiro
Há uma forma de fazer política que não precisa de mentir com descaramento para enganar. Basta escolher o número errado, vesti-lo de autoridade estatística, e atirá-lo para a praça pública antes que alguém tenha tempo de o verificar. Foi isso que o vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro fez esta semana, ao proclamar que o concelho está "quase" nos cem mil habitantes, como se essa cifra bastasse, sozinha, para calar quem lhe aponta a ausência de estratégia.
Não basta. E os números, ao contrário dos discursos, não se dobram a quem os cita mal.
Os Censos de 2021 registaram 78.345 habitantes no Barreiro. A estimativa mais recente do INE, de 2023, situa a população residente em 79.966. O concelho está perto dos oitenta mil. Não dos cem mil. Faltam mais de vinte mil pessoas para o número que o senhor vice-presidente decidiu anunciar como facto consumado, um quarto do valor real, fabricado do nada, atribuído a uma instituição que ele próprio invocou como garante de credibilidade.
Isto não é um lapso de arredondamento. É uma incompetência de base, ou é um cálculo deliberado. Nenhuma das duas hipóteses é aceitável num autarca com o pelouro do urbanismo e do planeamento do território. Quem gere obras municipais de dezenas de milhões de euros, quem decide sobre requalificação urbana e sobre o futuro económico de um concelho inteiro, não pode dar-se ao luxo de não saber ler uma tabela do INE. E se sabe lê-la e mesmo assim inflaciona o número em vinte mil almas, então a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser moral: porquê a necessidade de mentir? Que medo é este de apresentar o Barreiro como ele é?
Porque a fraude aritmética é apenas o sintoma mais visível. O problema de fundo é maior e mais grave, e é este: mesmo que os cem mil habitantes existissem, isso não provaria coisa nenhuma sobre o estado real da economia barreirense. População é o indicador mais pobre e mais manipulável que um autarca pode escolher, precisamente porque não distingue entre chegada e substituição, entre fixação e passagem, entre riqueza criada e pressão imobiliária importada de Lisboa. Um número pode crescer enquanto a cidade que o produz emagrece por dentro.
E é aqui que o silêncio do executivo se torna ensurdecedor. Onde estão os números que interessam a sério?
Quantas empresas sediadas no Barreiro produzem hoje riqueza exportável, geram valor acrescentado, pagam salários que sustentam famílias sem as empurrar para o crédito ao consumo? Quantas empresas novas se instalaram no concelho nos últimos quatro anos, não lojas de conveniência, não franchisings de bairro, mas unidades produtivas com capacidade de gerar emprego qualificado e projecção fora das fronteiras do município? Quantos postos de trabalho foram criados, e com que tipo de contrato, com que nível de qualificação, com que salário médio? Destes, quantos são reais e quantos são estatística de sobrevivência, trabalho precário, tempo parcial involuntário, subsídio disfarçado de emprego?
O senhor vice-presidente não responde a nenhuma destas perguntas porque, suspeito, não tem resposta que o sirva. É mais fácil agitar um total populacional inflacionado do que enfrentar o retrato real da economia local. E esse contraste torna-se ainda mais desconfortável quando olhamos para o que outros territórios do interior e da periferia portuguesa conseguiram fazer com uma fração dos recursos e da centralidade metropolitana que o Barreiro tem à mão. Braga transformou-se num pólo de engenharia, de indústria de componentes electrónicos e de ecossistema universitário que atrai investimento internacional porque decidiu, há duas décadas, apostar em capacidade produtiva real, não em comunicados de imprensa. O Fundão, um concelho do interior sem um décimo da proximidade a Lisboa que o Barreiro tem por natureza geográfica, reinventou-se como destino de talento e de agro-tecnologia porque teve coragem de admitir o que faltava e de construir política à volta dessa admissão, não de a esconder atrás de um número inventado.
O Barreiro tem o rio, tem a proximidade a Lisboa, tem terrenos disponíveis, tem a promessa do Arco Ribeirinho Sul e da futura articulação aeroportuária. Tem, em teoria, mais vantagens estruturais do que Braga ou o Fundão tiveram ao partir. E ainda assim, o seu vice-presidente prefere inflacionar o número de habitantes a apresentar o número de empresas, de exportações, de emprego qualificado criado. Essa escolha diz tudo sobre onde está, hoje, a verdadeira ambição do executivo, não na economia real do concelho, mas na gestão da sua própria imagem.
Fica a pergunta, direta e sem rodeios: porquê, senhor vice-presidente? Porque é mais fácil mentir vinte mil habitantes do que admitir que a estratégia ainda está por fazer? Porque dá mais jeito um número redondo do que um plano verificável? Ou porque, no fundo, sabe que os números reais, os de emprego, os de empresas, os de riqueza criada, não sustentam a narrativa que quer vender ao Barreiro?
O concelho merecia melhor do que isto. Merecia um executivo que tratasse os seus cidadãos como interlocutores capazes de ler a verdade, não como plateia a quem se atira um número bonito. Enquanto a Câmara preferir inflacionar população a demonstrar produção de riqueza, continuará a confundir propaganda com estratégia. E o Barreiro, esse, continuará a pagar a fatura de um discurso que não sabe, ou não quer, tratar números com honestidade.
Antonio Matias Lopes
Julho 2026
16.07.2026 - 21:02
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