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(Con)viver (com) o Dia Internacional da Arqueologia no Barreiro
Por Gonçalo Brito Graça
Anualmente, a 24 de julho celebra-se o Dia Internacional da Arqueologia em Portugal. Esta festividade não é comemorada de forma consensual, e varia de um país para outro. Em Espanha, por exemplo, foi calendarizada para 18 de agosto. Ok, até aqui tudo bem, é apenas um detalhe.
Prossigamos então. O concelho do Barreiro dispõe de vários locais propícios para recordar esta data, e ainda na semana passada a equipa do Espaço Memória organizou uma visita ao Campo Arqueológico da Mata Machada. E de forma gratuita para os participantes! E na manhã de sábado haverá outra nos mesmos moldes a Coina histórica.
O património arqueológico do município é rico e heterogéneo, e abarca a totalidade das freguesias. De forma breve, saliente-se o arqueossítio mais antigo de todos – a Ponta da Passadeira -, nas imediações da ilha do Rato. Alguns artefactos aí encontrados poderão ser observados na exposição permanente do espaço museológico municipal. Depois poder-se-ia também evidenciar os vários moinhos de maré dispersos desde Coina ao Lavradio. Ou os complexos de fornos de cerâmica e biscoito de Santo António da Charneca, Mata da Machada e Vale de Zebro. Ou a Real Fábrica de Vidros de Coina, e como esta moldou o território ao redor. Basta pensar na Quinta da Areia, um dos principais locais de extração de matéria-prima indispensável para a produção da arte cristaleira, para aí nascer uma localidade. Haveria muito mais por enunciar, desde logo o tecido industrial permanente desde o século XIX, cuja linha ferroviária cortou horizontalmente o município (e rematada a posteriori com a instalação de várias corticeiras e da gigante Companhia União Fabril). Ou até o edificado religioso, com várias ermidas e igrejas entretanto desaparecidas, das quais o Convento de Palhais é um bom exemplo: foi destruído e terraplanado na década de 1960 para dar lugar aos paióis de fardamento da Escola dos Fuzileiros Navais. E sim, muito mais haveria por dizer, e basta uma pesquisa rápida em qualquer plataforma de inteligência artificial para que saibamos o que há de património arqueológico em todo o concelho do Barreiro. Essa é a parte boa.
A parte menos boa é que essas ferramentas digitais não são neutras e são potencialmente redutoras. Nunca dizem o que nos falta explorar. Por exemplo, qual o impacto social que os hiatos históricos têm na atual mundividência coletiva do que é hoje o Barreiro? Sabe-se que os primeiros humanos se instalaram na Ponta da Passadeira por volta de 5000 a.C. E antes disso? E depois disso? Celtas, Fenícios, Tartéssicos, Turdetanos, Cartagineses, Gregos, Romanos, Suevos, Visigodos, também por aqui passaram. Ok. Deixaram as suas pegadas ecológicas? Certamente que sim, mas onde? Isto sem referir as sociedades medievais cuja presença teve uma maior duração, fossem elas muçulmanas ou cristãs. E assim entramos nesses períodos desconhecidos da história do concelho e que certamente algum dia teremos o gosto de ver elucidados.
O objetivo da investigação histórica torna-se essencial para a dinamização do conhecimento, e simultaneamente potencializa a economia local. Recorde-se que quando visitamos um sítio de propósito pela primeira vez, visitamo-lo porque é lá que existe algo que nós queremos conhecer. Ninguém vai a Roma, Londres ou Paris para ver praias… E mais depressa um turista estrangeiro entra nos Pastéis de Belém depois de uma visita ao Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, do que entra no rio Tejo para dar um mergulho. Ou seja, ao se valorizar o património também se fomenta a economia, e a arqueologia é um dos cimentos dessa relação.
A celebração do Dia Internacional da Arqueologia não é algo que só diga respeito a arqueólogos. É uma data de todos nós, cidadãos e cidadãs da República Portuguesa, munícipes do Barreiro, turistas, visitantes, pessoas conscientes de querer um futuro melhor para as gerações vindouras, independentemente do quadrante político. E como? De uma maneira muito simples e de fácil alcance: visitar e participar nas ações locais; começar pelo que está aqui mesmo ao lado, e que certamente nunca tivemos ocasião de ver “com olhos de ver”. Todas as freguesias do Barreiro têm um património arqueológico importante e que merece ser entendido, observado, estudado ou até comentado nas redes sociais, como aconteceu recentemente com alguns fragmentos do pórtico da primitiva igreja de Santo António da Charneca.
E para se (con)viver (com) este dia, recomendo uma visita em grupo ao Espaço Memória, cuja exposição permanente revela um pouco do passado gigantesco do município. É apenas uma amostra didática que consegue mostrar como os nossos antepassados viveram os seus dias. E no meio daquelas vitrines existe uma pequena peça de cerâmica do século XVI, que muito aprecio. Um cavalo, com cerca de dez centímetros, extraído das escavações arqueológicas na Mata da Machada na década de 1980. Essa peça passa desapercebida, mas um pequeno olhar mais atento eleva-nos para outra dimensão. Não se sabe quem a fez, nem o porquê, nem quem seria o seu destinatário. Mas um pouco de criatividade interrogativa dar-nos-á algumas respostas possíveis. Talvez algum oleiro o tivesse concebido para o oferecer ao filho. É um cavalinho, pequeno, sem qualquer utilidade para um adulto, parece um brinquedo. E se assim não fosse, qual a razão para um oleiro se dar ao trabalho de amassar o barro, purgar as impurezas, perder tempo a moldá-lo com detalhe, e depois colocá-lo junto às formas de pão de açúcar e que lhe permitiam ter pão na mesa? Para quê todo esse trabalho se não fosse por amor a um filho?
A arqueologia possibilita-nos assim uma outra versão do que hoje sabemos acerca do Barreiro. É um trunfo. E neste Dia Internacional da Arqueologia, em paralelo à merecida felicitação dos profissionais que a ela se dedicam, deixo aqui o convite para se conviver com amigos, e irem todos ver de perto essa peça de cerâmica no Espaço Memória, que ajuda a perceber como a humanidade no Barreiro evoluiu até hoje.
Gonçalo Brito Graça
Historiador
23.07.2026 - 22:37
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