colunistas
A Margem Sul não precisa de mais um presidente de todos
O Barreiro ganhou uma cadeira. Falta saber se perdeu uma voz.
Por António Matias Lopes
Não é o tempo de quem divide. É o tempo de perguntar a favor de quem se constrói.Ouço o presidente da Câmara Municipal do Barreiro, entretanto eleito presidente do Conselho Intermunicipal da Península de Setúbal, dizer que este não é o tempo de quem divide. Concordo com a frase e desconfio do seu uso.
Porque há uma pergunta que a euforia fundadora da nova CIM tem sistematicamente evitado, e que é a única que importa para quem vive na Margem Sul: neste novo tabuleiro de nove municípios, que papel vai efetivamente o Barreiro negociar, ou já chegámos à conclusão, sem o dizer em voz alta, de que quem hoje preside à península tem de tomar conta de todos e deixou de poder cuidar, em primeiro lugar, de quem o elegeu?
A Margem Sul não é uma abstraçãoo estatística
A Península de Setúbal não nasceu agora. Nasceu há décadas de operários, de fábricas, de bairros construídos à volta de chaminés que hoje já não fumam. A CUF e a Quimigal não são referências de arquivo, são a estrutura demográfica e urbana com que o Barreiro ainda hoje vive, décadas depois do encerramento. Falo disto não pela bibliografia, mas por o ter vivido. E é por isso que me custa ouvir o novo enquadramento institucional ser anunciado como se fosse, por si só, reparação histórica. Uma NUTS própria corrige uma fórmula de financiamento. Não corrige o facto de a Margem Sul ter sido, durante décadas, o quintal industrial de Lisboa e depois o seu subúrbio esquecido, enquanto a Margem Norte concentrava investimento, serviços e centralidade.
A pergunta que fica por responder é simples: a nova CIM vai repetir esse desenho, apenas com outra escala, ou vai efetivamente inverter a lógica de quem decide e para onde vai o dinheiro?
A expectativa sem farol
O discurso fundador fala de ambição, de visão, de plano estratégico participado. É a linguagem normal de qualquer acto de arranque. Mas para quem vive no Barreiro, em Moita, no Seixal, essa linguagem já foi ouvida antes, noutros ciclos de fundos, noutras promessas de coesão territorial que se dissolveram assim que chegou a hora de repartir a obra. O que existe hoje, concretamente, é expectativa sem farol ao fim do túnel: sabe-se que há um processo, sabe-se que há uma data — primeiro trimestre de 2027, mas não se sabe, e ninguém ousa perguntar em voz alta, quem vai ganhar e quem vai voltar a ficar de fora quando os nove municípios tiverem de decidir, um a um, onde entra o investimento e onde fica só o discurso.
Alcochete quer a cidade aeroportuária. Setúbal quer o porto. Sesimbra e a Arrábida têm uma lógica de preservação que colide com a industrialização de Palmela. E o Barreiro, que hoje preside ao processo, o que é simbolicamente forte, continua à espera de investimento efetivo em reconversão urbana, em habitação pública e em mobilidade para a Margem Norte, e não apenas de um lugar de honra na fotografia da assinatura da escritura.
A pergunta que ninguém faz ao presidente
Frederico Rosa preside simultaneamente à Câmara do Barreiro e ao Conselho Intermunicipal da Península de Setúbal. É uma acumulação de papéis que, em teoria, devia reforçar a posição do concelho na negociação, o barreirense a comandar o processo regional. Mas a experiência ensina-nos que a presidência de um órgão intermunicipal tende a exigir precisamente o contrário: neutralidade entre os nove, equidistância entre interesses concorrentes, o discurso de que "este não é o tempo de quem divide". E é legítimo perguntar, sem má-fé nenhuma: quando chegar a hora de repartir fundos, obra e prioridade entre Alcochete, Setúbal, Palmela e o Barreiro, vai Frederico Rosa negociar com a força de quem representa um concelho historicamente prejudicado, ou vai gerir o consenso de quem, ao presidir a todos, já não pode privilegiar nenhum, nem sequer aquele que o elegeu?
Não é uma acusação. É a pergunta de fundo que falta fazer antes de aplaudirmos a fotografia do convento e o discurso de Palmela. Porque a história da Margem Sul já tem exemplos suficientes de processos que começaram como reparação e terminaram como gestão administrativa da mesma desigualdade, apenas com um nome novo e uma escritura notarial a mais.
Dois espelhos europeus
Não somos o primeiro território pequeno a enfrentar este dilema. Na Holanda, a Metropoolregio Rotterdam Den Haag junta 23 municípios em torno de dois pólos historicamente desiguais: Roterdão, cidade portuária e operária, e Haia, cidade de administração e diplomacia. A cooperação só ganhou forma institucional em 2014, depois de décadas em que o porto gerava riqueza e a política a decidia noutro lado. Roterdão só conquistou peso próprio na mesa regional quando deixou de aceitar ser apenas motor económico ao serviço da centralidade administrativa de outro concelho.
Na Bélgica, Charleroi Métropole reúne trinta municípios wallões em torno de uma cidade que carrega o oposto do glamour: o fim do carvão e do aço, défice orçamental crónico e dependência de empréstimos da Região da Valónia sujeitos a planos de austeridade. Charleroi lidera hoje uma estratégia supracomunal de repositionnement, mas fá-lo precisamente porque a fragilidade financeira do município central a impede de investir sozinha. É o aviso que mais nos interessa: presidir a uma escala regional não resolve, por si só, a fragilidade orçamental de quem preside. Pode até camuflá-la atrás de uma marca territorial nova.
O Barreiro está mais perto de Charleroi do que gostaríamos de admitir: memória industrial pesada, finanças municipais que não sobram e um lugar de liderança formal que pode significar tudo, ou pouco mais do que uma bandeira na fotografia.
O que fica por provar
Concordo que os desafios institucionais, temporais e de ambição existem, tal como foram descritos. Discordo de qualquer leitura que trate a nova escala regional como garantia, por si só, de coesão territorial. A escala é uma condição necessária. Não é suficiente, e sobretudo não é neutra: alguém vai ganhar mais com ela do que outros, e é preciso nomear essa disputa em vez de a dissolver em linguagem de consenso.
O verdadeiro teste não será o Fórum de Palmela, nem os discursos de fundação. Será o primeiro trimestre de 2027, quando o Plano Estratégico for apresentado e sobretudo o que vier depois: se o Barreiro sair dessa mesa com mais do que simbolismo, ou se a Margem Sul voltar a descobrir, uma vez mais, que presidir não é o mesmo que representar.
Nota: este texto desenvolve, em contraditório com as declarações públicas de Frederico Rosa, presidente da CIM da Península de Setúbal e da Câmara Municipal do Barreiro, uma crítica ao artigo "Os desafios da Península de Setúbal" (JN, 13 de Julho de 2026).
Antonio Matias lopes
Investigador Urbano
11.08.2026 - 00:20
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