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Novo romance «Com o cheiro das Glicínias» de Carlos Alberto Correia
O «mundo é uma glicínia» ou a «vida é uma glicínia».

Novo romance «Com o cheiro das Glicínias» de Carlos Alberto Correia<br />
O «mundo é uma glicínia» ou a «vida é uma glicínia». Um romance que tem dor nos seus silêncios, silêncios que tocam o coração, principalmente aquel eco silencioso que nos faz pensar Portugal, pensar a democracia e pensar Abril – onde o cheiro da glicínia estava escondido no cheiro de um cravo.

O novo romance «Com o cheiro das Glicínias», de Carlos Alberto Correia, é um romance histórico, que nos conduz através de uma viagem realista, por dentro de uma conversa, através da qual o narrador, faz-nos percorrer 30 anos de história. Uma história, onde, afinal, a vida do narrador é simultaneamente a vida do personagem.
Vamos percorrendo as páginas, entre dois mundos que se cruzam ao longo de séculos – a China e a Europa, Portugal e Macau. E encontramos valores culturais, religiosos, crenças, formas de olhar e sentir o lugar do homem no mundo. Um mundo que tem tanto de belo e apaixonante, como de feio e degradante. É talvez, o simbolismo do título da romance. O mundo tem o cheiro de uma glicínia.

Através das vivências do narrador-personagem, numa ficção realista, pura, nua e crua, nos vários contextos situacionais, vamos descobrindo as realidades epocais, as transformações, frustrações e angústias.
O romance é como uma viagem por dentro de um «relatório ficcional», uma arqueologia na memória, que descreve de forma inteligente e lúcida a realidade do mundo, na sua opulência, na sua miséria, que, bem pode resumir-se à ideia que, na verdade, o «mundo é uma glicínia», a «vida é uma glicínia».

Neste romance, como diria Sartre, descobrimos o homem e as situações, no fazer, no ter, no ser, no desejar, no construir, no destruir, no amar, no odiar, no sublime, no mísero, no belo ou no feio – a glicínia.
Quando acabei de ler o livro, de súbito, senti uma força enorme, uma ternura sóbria, pela palavra glicinía, mergulhei por dentro de uma interpretação da sua dimensão filosófica e antropológica – do amor e ódio, da felicidade e tristeza, do ser e do ter.
Tudo isso está inscrito a ferro e fogo, ao longo das páginas e, curiosamente, é o grito de ira, ou raiva, que está contido e inscrito no título do romance.
A glicínia vai marcando presença ao longo do romance de forma discreta, nos seu cheiro e cores, de tal forma que, ao fecharmos a última página sentimos, uma explosão de sentimentos, e, o texto continua, aqui e agora, na vida real onde contínua a estar presente o cheiro e a cor das glicínias.
As glicinias não são um acaso, nem uma fantasia poética, são a marca central, do percurso que está dentro da memória do narrador, que, através de uma flor terna e simples, nos motiva a pensar e interpretar o tempo que fomos, somos e construimos.

O romance é uma verdadeira lição de antropologia, que coloca o homem – os homens - no centro de todos os acontecimentos. É uma obra que tem dentro de si uma visão antropológica cultural, «o homem e as circunstâncias» .
O romance é o laboratório prático, no qual está implícita uma tese académica, sobre a dignidade e a decadência do ser humano.
O narrador-personagem não se coloca no papel de quem quer apontar soluções para a decadência do mundo, nem para a impotência de superar as regras de um tempo marcado pelos fluxos financeiros. Ele motiva a reflexão. Decida o caminho «quem lê».

O narrador-personagem desoculta a realidade desse mundo onde tudo tem um preço. Um mundo marcado pela corrupção. O narrador não se coloca no papel de quem tem superioridade moral, assume o olhar de observador, vive, vai reflectindo e agindo, recusando quebrar as suas próprias regras, viver com ética, optando sempre pelo ser e pelo humanismo.
Ele está consciente, tem essa consciência social, que a sua opção é no sentido contrário ao movimento da história e do tempo que vive. Ele prefere pensar cidadania a pensar dinheiro. A sua lucidez está no valorizar a dignidade humana e recusar a opção que é marca dos tempos percorridos - o ter e desumanidade.

Um romance psicológico, escrito por dentro da memória. A memória que faz o tempo. A memória esse lugar, através do qual somos capazes de meter numa conversa de 10 horas, 30 anos de uma vida. Um romance que tem dor nos seus silêncios, silêncios que tocam o coração, principalmente aquele eco silencioso que nos faz pensar Portugal, pensar a democracia e pensar Abril – onde o cheiro da glicínia estava escondido no cheiro de um cravo.
São flores, senhor, são flores...um romance para ler e pensar.

António Sousa Pereira

Nota - O livro tem o custo de 12 euros, pode ser adquirido pela KDP – Amazon.com

25.02.2020 - 18:07

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