Conta Loios

livros

Fernando Sobral escritor do Barreiro
«A grande Dama do Chá» - a pureza e a tragédia do ser humano

Fernando Sobral escritor do Barreiro<br>
«A grande Dama do Chá» - a pureza e a tragédia do ser humano Um romance que lemos de forma apaixonada e intensa, que nos dá a pureza e a tragédia do ser humano. Os jogos do poder. Os desejos. O dinheiro. O sexo. O homem e a sobrevivência, num tempo de guerra global que se digladia, de forma permanente, numa guerra local.

O romance «A grande Dama do Chá», do jornalista e escritor barreirense, Fernando Sobral, é um encontro com Portugal, com essa sua grandeza, navegada pelo mar, da Europa até à Ásia, esse mar que, é verdade, faz de nós portugueses – “os sobreviventes de muitos naufrágios”, num encontro com as nossas memórias de há 500 anos, ainda, hoje, inscritas num tempo que se escreve Macau. O lugar e o contexto do romance de Fernando Sobral
Os portugueses no mundo, referido pelo poeta, os tais que cumpriram o mar e que ainda falta cumprir Portugal, essa realidade emerge poeticamente inscrita no romance de Fernando Sobral – através da solidão do mar, do fado, até do Jazz, e, se escreve com a palavra «saudade».

O romance de Fernando Sobral decorre em Macau, em plena guerra mundial, essa terra portuguesa, que se sente alheia à guerra na sua neutralidade, mas que sente, diariamente, os seus efeitos que tocam as suas vivências através do conflito pelo domínio territorial que opõe chineses e japoneses, com franceses e britânicos à mistura, e, até os russos, que não podiam faltar.
No meio, lá estamos, nós, os portugueses, curiosamente marcados pela personagem do Cândido – que me fez recordar o Cândido, de Voltaire, esse que viveu percorrendo o mundo na busca do melhor dos mundos. E lá estamos nós, candidamente, nesse jogo da vida. A vida que é uma guerra, dentro da guerra. Sangue. Suor. O homem que é um árvore na floresta. Jogos de sorte. Azar. Dividas. Amores. Paixões.

Um texto onde cada situação – capítulo - é um contexto, um cenário para um acto de uma peça de teatro, ou para a cena de um filme. Um bom policial. Não falta nada. Estão lá todos os ingredientes. Os tiroteios. A mentira. O espião. Escuridão. Luzes de néon. O poker. A morte. O preço. O amor. Tudo tem um preço. Os inimigos. É isso, em tempo de guerra, “a nossa imaginação inventa inimigos para ficar reconfortada”. Inimigos por dentro do silêncio e solidão. Inimigos por fora nas incertezas e dúvidas.
Um romance onde encontramos a beleza de um beijo, brotar num postal de ternura, serenamente sentimos os lábios dele a resvalar para os lábios dela, delicadamente, uma página-poema. Uma pintura. O tal beijo que faz pensar na importância de dar um propósito à vida.
O romance de Fernando Sobral, é uma história entre a memória do presente e a memória do futuro. O passado – aquele que faz o pensar de Portugal. O futuro – aquele que faz o pensar da China.

Um romance que lemos de forma apaixonada e intensa, que nos dá a pureza e a tragédia do ser humano. Os jogos do poder. Os desejos. O dinheiro. O sexo. O homem e a sobrevivência, num tempo de guerra global que se digladia, de forma permanente, numa guerra local. Uma guerra onde ou se morre de morte, ou se morre na vida. Os vivos. Os mortos. Os mortos vivos. A geoestratégia de todos os tempos.

É isso – “no tempo de guerra todas as flores são destruídas”.
Esta, sublinhe-se, é uma curiosidade do romance de Fernando Sobral. Os momentos que ele faz nascer no texto, para pensarmos a vida e o tempo. São pensamentos filosóficos, estéticos. Gritos. Comentários.
Momentos que no meio da acção somos convidados a parar para pensar. Então, inesperadamente, suspendemos a leitura para mergulhar no pensar o pensamento.
São os oásis de reflexão, no meio da guerra, nos conflitos humanos, momentos que surgem, em contextos sincopados. O humano dentro da guerra e das paixões.

Um romance que é uma lição de vida, onde está presente o alerta, que nos diz – “o inimigo que está dentro de nós” – o medo.
E, caminhando para o final somos mergulhados nos sons de Wagner – A Cavalgada das Valquirias – sentimos o «apocalypse now» a ecoar, em silêncio nos nervos, como um apelo à meditação, que deixa uma lição, talvez, um desafio a cada leitor, ou, quase como uma lição moral, que fica a vaguear, candidamente, na nossa interioridade – “renunciar ao presente é ser derrotado”.
Talvez por isso - “Ela não olhou para trás. Nem para dizer adeus”...

António Sousa Pereira

A Grande Dama do Chá
Fernando Sobral
Editora Arranha Céus – Lisboa
Fevereiro 2020

28.07.2020 - 19:37

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.