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«Filhos da Cidade Morta», um romance de Francisco Ceia
Um turbilhão de palavras poema que fazem sentir a cidade

«Filhos da Cidade Morta», um romance de Francisco Ceia<br>
Um turbilhão de palavras poema que fazem sentir a cidade Um romance com ritmo, com emoção, com a beleza de um cante que se eterniza na consciência. Resistir. Acreditar.
Afinal, todas as cidades têm uma barbearia, uma igreja, um fado, uma fé e pessoas que dão o triplo salto mortal para agradar aos chefes de todos os tempos.

O romance «Filhos da Cidade Morta», de Francisco Ceia, é um retrato do meu país, é um encontro com as pessoas do meu país, com a linguagem do meu país feita de memórias e estórias, um romance com uma narrativa, marcada de regionalismos, de sentimentos que emergem da gíria, entre a alegoria, a ironia, o sarcasmo. Um romance onde a fantasia se encontra com a realidade. Surrealismo. Neo-realismo. Um estilo muito próprio que é a marca de uma escrita diferenciadora, com um ritmo próprio, no qual, sentimos, todas as palavras têm peso e medida.

Um romance que é uma escrita de filigrana, onde cada palavra tem uma sonoridade, um sentido, emotivo, melódico, psicológico e sociológico. Ficamos presos naquela escrita cerzida, voltamos atrás, para nos reencontrarmos, com o texto e o contexto.

Por vezes, parece que estamos perante um discurso vulgar, mas, afinal é dentro da vulgaridade discursiva que vamos descobrindo as paisagens, as texturas da cidade, a metáfora. As metáforas.
Napoleão Boaparte, desperta-nos a curiosidade o seu nome. O Imperador. A barbearia é o seu império, ali, o ponto de encontro, o lugar de conversas codificadas. O chão de mosaicos pretos e brancos. O jogo de xadrez. A cidade e as rotinas do silêncio. As penumbras.

Vamos percorrendo as páginas e sentimos a poesia nascer, o texto é um cântico. Um hino à vida. De repente, imaginei que estava a mergulhar por dentro de palavras cantadas do FMI, de José Mário Branco – “baloiça, Josefina, baloiça, não respires”, ou aquele lindo poema de Pedro Barroso – “memória de futuro”, porque nunca é tarde para sonhar.

A barbearia é o meu país, esse império que foi, feito de fé e fado, de epopeias que rasgaram os céus e os mares. Napoleão que dominou o mundo e morreu sozinho na sua ilha, desterrado.
No texto de uma «cidade morta», há baratas, há pássaros, há paisagens silenciosas. No centro o ser humano, com os seus rituais. A linguagem é feita de pensamentos que se interligam, uma cadeia discursiva, criadora, onde se cruzam valores e crenças, ditos populares, esse saber que passa de geração em geração. Mergulhamos na narrativa como quem faz uma viagem por dentro do tempo. Encontramos as figuras que fazemos, os figurões que se cruzam, numa sucessão de retratos do quotidiano. Um enorme poema à vida. Uma explosão de sentimentos. Paroles, paroles, paroles. Sorrisos. Ternura.
Seguimos o ritmo dos movimentos do ciclista, talvez o clandestino, o lutador da liberdade, o resistente, porque é sempre preciso alguém para resistir – não é Alipio - ele, de seu nome Nabucodonosor, faz recordar e manter na nossa mente o Coro dos Escravos. Esses que caminham rumo a um tempo novo, a terra prometida de todos os sonhos e Liberdade.
Um texto que nos faz pensar um país pequenino, de capelas e capelinhas, de sacristias, cafés e tabernas. Um texto grande demais, porque tem história e estórias de um país real. Um país de poetas. Um país de legisladores. Um país que vive, por vezes, exilado dentro de si mesmo. Todos conhecemos um Napoleão. Todos conhecemos um Nabucodonosor. Um jogo de espelhos. Servos e servidores. A gritaria.
A barbearia. O ourives. O ciclista. A feira. A banha da cobra. Um país de pequenos reis, que tudo dão, porque se acham donos do mundo. Um país de pequenos escravos, submissos ao pregões que os levam às orações e crendices. Sim, esse país da unidade que se escreve «humidade», porque é sempre escorregadia e fútil.

Um romance marcado de simbolismo. Um romance que é preciso ler o que lá está, o que lá não está, e o que está por trás do que lá está, no acreditar e resistir. É essencial fazer a hermenêutica do texto.
Um texto que motiva a olharmos para dentro de nós mesmos e pensarmos a nossa relação com os outros, e, especialmente, pensarmos epistemologicamente – nós, os outros, este tempo e este país, com séculos marcados por «gotas de fel» e «azeite virgem».

«Um segundo pode ser a eternidade. Morreu». Fiquei preso, por instantes, na beleza infinita desta frase.
«Pai, mãe...porquê?», lia e relia esta interrogação, e, acreditem, pensava a força imensa deste texto.
Cristo ao morrer clamou : Pai porque me abandonaste?
E ao ler, aqui e agora, este : «Pai, Mãe...porquê?». Fiquei a reflectir na energia desta interrogação, na sua sua dimensão interpelativa sobre a nossa cultura judaico-cristã. O lugar do Homem e da Mulher na nossa tradição cultural.
É isto o romance de Francisco Ceia, as palavras em catadupa que geram um turbilhão de palavras, que são um poema, onde nascem sentimentos e pensamentos. Palavras que fazem sentir o sangue da vida social, do nosso país e deste mundo. Palavras que são um grito e são um quase silêncio.
Palavras escritas devagar, onde o tempo é imenso e se resume a um instante. Esse instante, do devagar, devagarinho que se sente na planície alentejana. O silêncio enorme do por-do-sol, esse instante, que faz sentir a leveza das palavras. O instante.
Um romance com ritmo, com emoção, com a beleza de um cante que se eterniza na consciência. Resistir. Acreditar.
Afinal, todas as cidades têm uma barbearia, uma igreja, um fado, uma fé e pessoas que dão o triplo salto mortal para agradar aos chefes de todos os tempos.
Sim é isso, todas as cidades, em todos os tempos, se agitam num jogo de xadrez. Aguarelas. Leveza de vozes. O vento.

António Sousa Pereira

Filhos da Cidade Morta
Francisco Ceia
Edições Colibri
Junho 2020

30.07.2020 - 20:52

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