Conta Loios

livros

«A Cidade das Gaivotas» de Ana Garrido
Um romance que permite pensar e sentir a força do tempo

«A Cidade das Gaivotas» de Ana Garrido<br />
Um romance que permite pensar e sentir a força do tempo<br />
O tempo tem neste romance uma densidade psicológica, porque é sempre um desafio. O tempo coloca perguntas. O tempo dá maturidade.

O tempo tem, também, uma intensidade cronológica, é uma marca temporal, é o ponto de encontro entre o passado e o presente, o fomos e o somos. O tempo é sentido no pensar e no ser, é memória e esperança.

«A Cidade das Gaivotas» é o romance de Ana Garrido, vencedor do Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes, promovido pela Câmara Municipal de Portimão.
O romance de Ana Garrido é uma leitura agradável, com uma escrita límpida, deslizamos na suavidade das palavras, sentimos, sim porque este é um livro para sentir, para tocar os nervos. É um poema. Uma prosa delicada de uma filigrana feita de raios de sol e de voos de gaivotas.

Um romance que podia ser considerado a «aula prática», fruto da reflexão sobre o conteúdo da aula teórica, com o tema : «O amor no caleidoscópio». Está lá, subtilmente.
Um romance que permite pensar e sentir a força do tempo, pensa que cada dia é um começo, que cada dia pode ser um ponto de partida, pode ser um tempo de ruptura, de escolhas, ou de renascer.

O tempo tem neste romance uma densidade psicológica, porque é sempre um desafio. O tempo coloca perguntas. O tempo dá maturidade.
O tempo tem, também, uma intensidade cronológica, é uma marca temporal, é o ponto de encontro entre o passado e o presente, o fomos e o somos. O tempo é sentido no pensar e no ser, é memória e esperança.

Sentimos a narrativa desenvolver-se através da cadência dos dias, na sua sucessão temporal, que permite em cada dia, desocultar e descobrir a vida, as paisagens, o ambiente. Os dias marcam o compasso, são eles mesmo uma melodia – o sol ardente da tarde, uma manhã de céu puro, chegar a tempo do anunciado por do sol, ou, os grilos que vieram animar a noite.
Neste romance há o tempo dos dias que passam, há o tempo que faz o próprio dia, há o tempo da memória, há o tempo do reencontro, há o tempo da esperança. Os acasos e as necessidades. O destino.

No romance o primeiro dia é como um palco, onde, o leitor é convidado a conhecer os personagens da história e os enredos. Ironia do destino. Acasos de circunstancias. O reencontro. A vida perante as escolhas.
O primeiro dia é a chegada, é o «estou aqui». O lugar. A praia. O mar. As gaivotas.
Um lugar que é palco da vida, que tem memórias inscritas, um lugar que é tempo, um tempo que faz parte do estar aqui, um lugar que habita nas interioridades dos personagens.
E, de repente, por ironia, é o ponto de reencontro com todo o tempo vivido, no silêncio, na solidão, no esquecimento. Amor. Saudade.
E de repente, aquele lugar, é também o lugar para meditar, pensar, decidir entre o tédio do tempo e a escolha pela liberdade de ser, de optar por viver, para além do cansaço da repetição de movimentos. Fazer o que se gosta, fazendo. Afinal, é tudo isso que o tempo ensina. O tempo de lazer, esse que permite escutar a sonoridade das gaivotas. O silêncio. O fugir nos pensamentos.

No segundo dia, serenamente, somos levados a pensar a vida, a pensar toda a temporalidade. Pensar o tempo é fazer perguntas. O tempo é texto e contexto. A vida e as interrogações. A pergunta que trás dentro de si a busca pelo desafio do futuro. Sentimos o espirito do lugar mergulhar por dentro dos pensamentos. A gaivota e sua sonoridade. Os desencontros. O tempo de lazer. Parar no tempo em busca do tempo – o vivido e por viver.

E, na caminhada dos dias, o terceiro dia motiva-nos a observar o mundo. Sentir o corpo. Sentir o sorriso. Tocar o pulsar do mundo. A relação do ser humano com a natureza. Um tempo ferido, que emerge no sentimento de uma gaivota ferida, vitima da poluição. Um grito. Um protesto. A humanidade.

O quarto dia, faz-nos sentir que ‘há sempre gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar’, aqueles pequenos nadas que podem mudar a história de cada ser humano, ou a história da humanidade em transformação. A delicia de voar no voo das gaivotas, faz sentir o Fernão Capelo Gaivota, esse, que nos ensinou a a importância do partir, do resistir, do aprender com os erros. Os percalços. As circunstâncias. Afinal, essa noção do pensar o tempo, que faz pensar e sentir essa realidade, afinal, cada presente está grávido de futuro.
É esta caminhada que vamos fazendo com os personagens, no seus dramas pessoais, nas suas escolhas, o seu sentir o tempo.

O quinto dia, é o tempo das decisões, o tempo das escolhas. Decidir. Escolher.
Decidimos por paixão, por amor, por opção. Os tais instantes que se inscrevem no tempo e fazem nascer memória. Eternidade. Eros. Um beijo. Um olhar.
Ou, então, decidimos porque a vida marcou o rumo. Um acidente. Um acaso. E, nestes casos, a vida impõe a escolha, essa, que, por vezes, a indecisão nega escolher. O destino.

O sexto dia, é uma paragem no tempo, que nos motiva a viver o tempo dentro do tempo. Hedonismo. O fogo que arde sem se ver. O prazer de viver. A gastronomia. O sentir o espaço na sua totalidade. O tempo e o espaço. A cor. A luz. A espera. A expectativa. A ansiedade. O sonho. O eterno destino. Retorno.
Um preâmbulo que anuncia o sétimo dia, o tempo de paixão. Amor sublime. O por do sol. Erotismo. Ao sétimo dia fez-se o verbo amar.

O oitavo dia, curiosamente, começa ao anoitecer. A noite. O luar. As férias. Os amores de Verão. A felicidade. O sermos felizes. A perfeição e a imperfeição da existência. O tal ser ou não ser. A felicidade e a infelicidade que andam de mãos dadas, sorrindo.
Nós, de facto, somos a importância do tempo que somos e a importância que damos ao tempo que vivemos, nos lugares que fazem o nosso tempo.
É esse o sentimento que reencontramos – um mês depois – no regresso à praia, no regresso ao lugar. O lugar inscrito de memórias. Esse mundo que está dentro da nossa mente. A musicalidade. O cheiro. A maresia. Uma gaivota. Uma gargalhada. As ondas. O mar. O sabor a sal.
O romance de Ana Garrido, diz-nos que a vida é, isso, uma corrida em busca da felicidade, que pode ser química, ou talvez psicológica. O sentirmos que somos livres. Sonho.
Uma vez, um dia, outro dia, ou, talvez um mês depois, olhar o mar milenar...e viajar numa onda que é um sorriso!

António Sousa Pereira



04.01.2021 - 21:53

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.