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«A Noite dos Heróis» de Paulo Matias
Uma obra marcada por muito humanismo
. A história em movimento pela acção humana.

«A Noite dos Heróis» de Paulo Matias<br />
Uma obra marcada por muito humanismo<br />
. A história em movimento pela acção humana. Hoje, completam-se 17.523 dias, desde que foi vivido esse dia, inscrito no poema de Sophia Mello Breyner, como sendo, “o dia inicial inteiro e limpo. Onde emergimos da noite e do silêncio”.
Portugal viveu 17.499 dias de ditadura, e, no dia 24 de março, completou 17.500 dias em democracia.

Aqui fica o texto integral da apresentação do novo romance de Paulo Matias, «A Noite dos Heróis», que decorreu, hoje, dia 16 de março, no Auditório Sardinha Pereira, no Museu Industrial da Baía do Tejo.

A Noite dos Heróis de Paulo Matias
Museu Industrial da Baía do Tejo
Apresentação
Barreiro - 16 de Abril de 2022

Boa tarde,

Antes de mais quero agradecer o amável convite de Paulo Matias, para cumprir esta honrosa missão de apresentar o seu segundo romance «A Noite dos Heróis». Foi para mim uma agradável surpresa. Obrigado.

Hoje, completam-se 17.523 dias, desde que foi vivido esse dia, inscrito no poema de Sophia Mello Breyner, como sendo, “o dia inicial inteiro e limpo. Onde emergimos da noite e do silêncio”.
Portugal viveu 17.499 dias de ditadura, e, no dia 24 de março, completou 17.500 dias em democracia.
Esse dia, em que a Liberdade superou os dias de ditadura, foi a data escolhida, pelo Governo, para abrir as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, essa «madrugada» que será festejada em 2024. Curiosamente o dia 24 de Março, uma data inscrita na história da resistência, um dia que marcou as lutas dos estudantes de Coimbra e Lisboa, no ano de 1962.

E, por coincidência, aqui e agora, este, afinal, é o primeiro acontecimento que tenho a alegria de viver no Barreiro, neste tempo pós 17.500 dias de Liberdade, onde se evoca essa data libertadora, essa revolução feita com o coração.
Talvez por essa razão, aqui deixo um aplauso a Paulo Matias, por inscrever nas memórias futuras do Barreiro, este dia, de apresentação do seu livro, na história dos dias pós 17.500 dias de Liberdade, e, de forma simbólica, aqui, nesta terra de resistência, abrir, também, as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o dia em que os nervos pulsaram ao ritmo do coração.

Sim, de facto, um primeiro sentimento que sentimos ao ler o romance histórico «A Noite dos Heróis», é esse, página a página, de uma revolução feita com o constante pulsar do coração, com a ansiedade a mexer os nervos, com os cigarros a afagar as dúvidas, a acalmar o stress, as dúvidas, certezas e incertezas.
Uma noite em que cada homem, de armas nas mãos rasgava o silêncio, com um objectivo único – derrubar o regime ditatorial.

Ao longo da leitura do romance de Paulo Matias, senti que esta sua obra pode ser a motivação para reflexões em diversas dimensões, desde as literárias, passando pelas politicas, sociológicas, psicológicas e históricas.
Deparei comigo, por diversas vezes a pensar e a colocar a pergunta : Qual o papel do individuo na história?
Porque, na realidade, cada personagem – real ou ficcionada – em momentos concretos, pela sua acção, exerce influência no rumo dos acontecimentos. Esta é uma obra marcada por muito humanismo, um humanismo existencialista.
Nela sentimos emergir o emocional. O racional. O medo. A coragem. O ser humano em luta consigo mesmo, nos acasos e nas circunstâncias. O homem em luta contra o tempo. Fazer o tempo, não esperar acontecer.
Sentimos de forma, pura e dura, qual o papel que um indivíduo pode ter no processo histórico.

Os nomes emergem página a página: Salgueiro Maia, Melo Antunes, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Garcia dos Santos, Vítor Alves, Sousa e Castro, ou, os civis como Carlos Albino. Nomes marcados de emoções, frieza e coragem. Nomes que são realidade histórica, a história em movimento pela acção humana.

Nestas páginas, vincadas de silêncios, lágrimas, sonhos, emerge um país cercado, situações, onde o sangue frio e os nervos, gelam, petrificam, e vamos deambulando entre avanços e recuos no tempo, reconstruindo factos, vivências marcadas de emoção, contextos cheios de vida e paixão, das conversas marcadas de contradições, da publicação do livro de Spínola – Portugal e o Futuro – passando pelo 16 de Março, ou pelas reuniões em Évora, Óbidos ou Oeiras, momentos que vão construindo uma teia que conduz ao 25 de Abril.

Um romance que é um bom trabalho de investigação, jornalística, histórica, que dá gozo ler e sentir, que nos cativa pela simplicidade da linguagem, pela pureza dos relatos. Uma lição de história, que disseca de forma limpa e subtil um fragmento da história.
Paulo Matias, nesta sua obra, pega num bisturi, e, cirurgicamente, vai abrindo brechas nos dias e na história, rasga os tecidos dos acontecimentos e coloca, a olho nu, em fragmentos, os mais diversos episódios da revolução de Abril, dos preparativos do golpe militar, ao nascer de um programa politico, do medo à coragem, uma dinâmica de factos que culminam na concretização no terreno, nessa «Noite dos Heróis», que escreveu uma das mais belas páginas da história de um país quase milenar. A história que se diz Liberdade!

As palavras de Paulo Matias humanizam «a noite dos heróis», fazendo-nos mergulhar no medo, na raiz dos pensamentos, no sentir as perseguições da PIDE, no desejo apaixonado de colocar ponto final a uma ditadura que estava caduca e que resistia prendendo e silenciando.

A obra de Paulo Matias, abre pistas para pensarmos quer nas causas próximas, quer nas causas remotas, nas circunstâncias que uniram os militares com a finalidade de dar dignidade às suas carreiras, passando pelo sentimento da inevitabilidade de pensar uma solução para a Guerra Colonial, que só podia findar com uma solução política.
Esta «Noite dos Heróis», permite reflectir sobre as contradições dos militares, entre o dever hierárquico, e, a consciência que só pela ruptura abriam caminho para encontrar soluções e honrar Portugal no mundo.

Esta «Noite dos Heróis», faz sentir por dentro a ansiedade de quem viveu estes dias feitos de nervos de aço, porque com o tempo em movimento sentia-se o avolumar da consciência, em crescendo, que para mudar o rumo da história era preciso derrubar o regime, e, derrubar o regime significava erguer a democracia, libertar.
Por isso, um dia partiram para as ruas das cidades – do Porto a Lisboa, de Vendas Novas a Santarém - levando junto ao peito armas com 5 munições e com elas escreveram, em cada passo, nessa noite, as palavras essenciais que conduziram à vitória – confiança e coragem.

Paulo Matias proporciona-nos essa maravilhosa, pura e autêntica viagem por dentro dos acontecimentos.
O seu livro por um lado é uma visão de helicóptero sobre os acontecimentos, numa dimensão macro, mas, em simultâneo, dá-nos uma dimensão micro, nos diálogos, nos acasos, nas circunstâncias que vai dissecando, abrindo a consciência e os nervos por dentro do pulsar do coração.

É uma leitura apaixonante. Capítulo a capítulo, cativa, através de movimento temporal, de retornos, que fazem sentir necessidade de querer saber o que vai acontecer no episódio seguinte, descobrir os heróis, viver os acontecimentos, conhecer factos, reviver a história, feita de muitas histórias.

Devo dizer que há, no livro, histórias que conheci, contadas pelos protagonistas, uma delas foi a do Mini que abria a coluna militar vinda de Santarém. O Mota, de quem sou amigo, das lides do cooperativismo, contou-me em pormenores, um dia, no pós 25 de Abril, em sua casa, no decorrer de um almoço, ali em Santa Iria de Azóia. O que nós rimos.
E, aqui estamos 17.523 dias depois de Abril, no Barreiro, aqui no centro do mundo onde pulsa a memória de uma terra de trabalho e luta, a apresentar um romance, sobre o dia da Liberdade.

O livro que finda, recordando que estava “muita tropa na rua”, e, pelas 6 da manhã, Salgueiro Maia informa o Posto de Comando : “Ocupamos Toledo, controlamos Bruxelas e Viena”.
E, ao chegar aqui, fico com uma sensação que, de repente, a história ficou congelada, e, digo-vos que fico com a sensação que outro romance irá nascer, ou que fica por escrever, num silêncio que interroga e motiva a pensar – e depois?

Seja como for o 25 de Abril, sejam quais forem as interpretações, para o antes, e para o depois, este dia, será sempre : “o dia inicial inteiro e limpo. Onde emergimos da noite e do silêncio”.

Gostei.
BRAVO. ÓSCAR. MÓNACO.

António Sousa Pereira

16.04.2022 - 18:05

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