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O Eterno Ciclo da Vida ao Ritmo das Estações do Ano (Contos Didáticos)
Um livro sobre o Alentejo e uma certa forma de vida
Por Manuel João Croca
Moita

O Eterno Ciclo da Vida ao Ritmo das Estações do Ano (Contos Didáticos)<br />
Um livro sobre o Alentejo e uma certa forma de vida <br />
Por Manuel João Croca<br />
Moita "O Eterno Ciclo da Vida ao Ritmo das Estações do Ano (Contos Didáticos), é um livro sobre o Alentejo e uma certa forma de vida, comum por aqueles sítios, ao tempo em que a acção decorre.
Confesso que, desde a primeira linha, me senti em casa – ou não fosse eu próprio oriundo daquelas paragens e não tivessem os meus ancestrais garantido a sua subsistência daquela mesma forma - e isso deu-me prazer e fez-me sentir bem.", sublinha Manuel João Croca.

O ETERNO CICLO DA VIDA
AO RITMO DAS ESTAÇÕES DO ANO
(Contos didácticos)
de António Gonçalves Ventura

Texto de apresentação na 51ª edição da Feira do Livro de Alhos vedros
Sábado, 29 de Junho de 2024

A notícia da publicação de um novo livro do amigo António Ventura espicaçou-me a curiosidade e o interesse pela sua descoberta.
Tal facto não será de estranhar se se atender aos enormes enriquecimentos que a consulta das suas obras publicadas me têm proporcionado.

Bem sei que as suas publicações anteriores versavam áreas que não têm a ver com a literatura e a ficção, antes com a sua especialidade que é a História, ou não fosse ele um credenciado investigador na área, suportado por licenciatura, mestrado e doutoramento com uma tese de doutoramento que tem por título: A “Banda D’Além” e a Cidade de Lisboa Durante o Antigo Regime – Uma Perspectiva de História Económica Regional Comparada, publicada pela Câmara Municipal do Montijo. É um livro precioso a que recorro amiudadamente.

Para além disso, trata-se de uma publicação de um Amigo e costumo ler com muita atenção os livros que os meus Amigos e Amigas vão publicando – e há por aqui vários –retirando sempre, de todos sem excepção, enriquecimentos vários.
Da consulta das obras de António Ventura habituei-me a reter a disciplina, o rigor e o método empregues na investigação dotando-as de uma solidez e fundamentação que reverencio.
Portanto, ficam assim desde já explicadas e fundamentadas as razões da minha curiosidade e interesse.

O Eterno Ciclo da Vida ao Ritmo das Estações do Ano (Contos Didáticos), é um livro sobre o Alentejo e uma certa forma de vida, comum por aqueles sítios, ao tempo em que a acção decorre.
Confesso que, desde a primeira linha, me senti em casa – ou não fosse eu próprio oriundo daquelas paragens e não tivessem os meus ancestrais garantido a sua subsistência daquela mesma forma - e isso deu-me prazer e fez-me sentir bem.

O livro é composto por doze contos e retracta a vivência de um casal, Fernando e Beatriz, de pequenos agricultores em meados do século XX no Baixo Alentejo.
Bem, se atentarmos melhor, será mais próprio considerar que se trata de um único conto, dividido por doze capítulos que, mantendo o contexto e a geografia vai, qual páginas de calendário, mudando de acordo com as circunstâncias que mais não são que a sazonalidade que os ciclos da terra e a actividade rural reivindicam e impõem.

Através dos seus vários andamentos são descritas as principais actividades realizadas ao longo do ano, repetidas sucessivamente, no reino da agricultura sua forma de subsistência e sobrevivência.
A afabilidade, simpatia e cultura de bem receber que são apanágio do povo português assumem, no Alentejo, contornos de excelência. Por isso, não será de estranhar que ao convidar-nos a entrar no universo do livro e da família que o suporta, o Autor comece por nos apresentar a casa e a franquear-nos o seu interior e desfrute.

Aí entrados permiti-me o desafogo de me sentar. A casa é igual à dos meus ancestrais e à de quase todas as famílias trabalhadoras do Alentejo, e que são a nossa gente.
Casa de construção antiga, duas águas, paredes de taipa, barrotes e ripas de madeira, telhas de canudo;
Terra, madeira, barro e a cal a tingir de branco o ninho, o espaço amado, sagrado;
Sem saneamento básico, temos o lavatório, a luz do petróleo e o pial das bilhas:
Mobiliário simples. O louceiro embutido na parede, a arca e a salgadeira;
O catre e a enxerga de palha de centeio ou folha de milho, colchão de lã de ovelha;
E, por fim, o altar-ego, o santuário de qualquer casa do Alentejo principalmente no Outono (que é quando a acção se inicia) e Inverno: a lareira por ali também chamada de chaminé.

Diz o Autor e eu corroboro:
«Na verdade, não era apenas o ligar onde nos meses de frio e chuva se sentavam e aqueciam depois dos longos e penosos dias de trabalho, tantas vezes com a roupa e os pés encharcados, a lareira era muito mais do que isso. Se bem que de forma diluída no tempo, a lareira transportava consigo, desde há milénios, uma certa atmosfera carregada de misticismo muito pr+oximo do sentido de Lar que os gregos e os romanos marcaram para a posteridade. Era um lugar com qualquer coisa de divino; transmitia uma estranha sensação de paz e tranquilidade, de reflexão e conforto, e não apenas do corpo mas também da alma.

Carregado de simbolismo, o Lar era também um local de refúgio, o último reduto de protecção face às agruras da vida. O lume que concentrava o olhar do clã que se sentava à sua volta, tinha qualquer coisa de inspirador e de magia: retemperava o corpo e a alma, cozinhava os alimentos, mas também era através do fogo que se fundiam e moldavam os metais para deles se construírem as alfaias agrícolas e outros utensílios que permitiam o seu sustento, pelo que deveria ser respeitado e permanecer aceso tanto tempo quanto possível.

O Lar era ainda o local de reunião e de reflexão onde a família, independentemente da dimensão do agregado, podia conversar tranquilamente durante horas, principalmente nas longas noites de Inverno.» (págs. 9 e 10)
Para além de tudo isto que é imenso, a lareira ou chaminé como é mais comum dizer-se por aqueles sítios, servia ainda para fazer o fumeiro dos enchidos da matança do porco familiar.

No mundo rural, salvo raras excepções, não existem empregos a tempo inteiro, as pessoas são contratadas para alguns trabalhos sazonais, findos os quais as pessoas ficam desabrigadas de qualquer contrato que lhe garanta uma jorna, Neste contexto, a economia familiar assenta quase exclusivamente na auto-sustentação. É por isso que a engorda de um porco familiar é fundamental.
Através dos diálogos expressivos de Fernando e Beatriz vão sendo desocultadas as preocupações e os afazeres do quotidiano mas onde também os silêncios vão expressando as angústias de quem tinha de se sujeitar à imprevisibilidade do tempo e dos elementos, numa altura em que as condições atmosféricas ainda eram determinantes no resultado das sementes deitadas à terra ou nas pastagens para os animais.

Por ali vão desfiando os acontecimentos marcantes das suas vidas simples e árduas. O trabalho da terra é permanente e diário.
Por ali passam a matança do porco e o convívio e solidariedade que sempre a acompanhavam;
A engorda do perú para o Natal;
A preparação denodada da terra para as várias culturas ao longo do ano;
As formas de pagamento e recebimento dos trabalhos e dos arrendamentos;
A presença das ovelhas, garante de borregos e queijos que asseguravam uma receita indispensável;
O cultivo e manutenção de uma horta familiar;
A apanha da azeitona, o lagar e o azeite indispensável na alimentação;
Enfim, o dia a dia de uma família jeirando o pão de cada dia com muito trabalho e inevitável devoção.
Viviam-se tempos difíceis aos níveis sociais e políticos e isso também passa por aqui.

O livro acaba por também prestar um serviço notável ao nível da preservação da língua, através da enumeração de práticas, de conceitos e de ferramentas e utensílios que vão desaparecendo da vida e do léxico. O glossário incluído no final do livro revela-se de grande importância e utilidade.

A inclusão de algumas fotos ilustrativas revela-se também um inquestionável enriquecimento da obra.
Consequência de decisões políticas assumidas - sobretudo no tempo do famigerado Cavaco Silva, foram alienadas cotas da produção nacional, quer na indústria quer na agricultura a troco de subsídios hipotecando-se, assim, o presente e a possibilidade de no futuro podermos livremente decidir o nosso destino -, a realidade aqui descrita está em vias de extinção.

Abandonaram-se as culturas variadas e tradicionais. Aramaram-se (com subsídios) as propriedades dos lavradores para criação de gado (com subsídios)e investiu-se na cultura intensiva. Frutos secos e olivais (subsidiados) infestando e envenenando a terra com cargas brutais de pesticidas e fertilizantes. Para garantir rentabilidade rápida e máxima a este tipo de culturas. Continua o flagelo da eucaliptização do país. Os ciclos da terra e a preservação dos eco-sistemas são negligenciados, despoleta-se a crise climática assumindo contornos cada vez mais graves e preocupantes mas isso não importa. O que importa é a ganância e o lucro a qualquer custo.

Em 1854 o chefe índio Seattle escreveu «(…) aquilo que fizermos à terra, estamos a fazer aos filhos da terra (…) termina a vida, começa a sobrevivência.»
Embora chamado arrogantemente de selvagem, pelo homem branco, o chefe Seattle era sábio, penso eu.
Emergi da leitura deste livro emocionado, mais enriquecido e com um sentido de pertença mais exacerbado.
Trouxe-me até à lembrança um pequeno texto que escrevi faz tempo e que dizia assim:
ABRIGO ABERTO AO MUNDO
O Alentejo é um lugar como não tenho outro igual.
Porque me é Pai, Mãe e Irmãos, ninho, pátria e sonho que sendo passado e presente me permite o futuro.
É para lá que vou quando preciso refugiar-me, buscar alento para não soçobrar, ânimo para continuar.
Procuro aquele aconchego e é quase certo, apuram-se-me sempre as emoções.
E é por esse rio que inunda, lava e fertiliza que me permito navegar e regressar sempre renovado e mais firme na determinação de prosseguir caminho.
E, por isso, grato sou por ter um lugar que sendo de tantos é meu também.
Os afectos são o mais valioso património imaterial da Humanidade.

Tanto quanto sei esta é a primeira incursão do Autor pelos territórios da ficção. Foi, este livro, enviado a concurso para o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca instituído pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém. Foi distinguido, por um júri idóneo e conceituado com a 1ª Menção Honrosa.
Que mais dizer então?
Agradecer; Muito obrigado e
Solta a pena porque queremos mais.

Manuel João Croca
Alhos Vedros, 29 de Junho de 2024

08.07.2024 - 17:10

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