contos
Um lugar vazio
(conto de Natal)
Por Jorge Fagundes
Barreiro
Da conversa mais ou menos de conveniência ficaram a saber que ele era natural do Barreiro e ela natural de Sintra.A partir dessa tarde Inês passou a vir com certa frequência tomar o seu cafezinho à Faculdade de Direito, sempre junto a Pedro.
Numa tarde de Novembro de 1960 estava Pedro, estudante do 2º. ano, sentado junto a uma das mesas da cantina da Faculdade de Direito de Lisboa quando dele se aproximou uma jovem que lhe perguntou se podia ocupar a cadeira em frente.
Pedro disse que sim, ela sentou-se e se apresentou: “ chamo-me Inês e entrei este ano para a Faculdade de Letras e vim até aqui para tomar um café”.
Na altura era muito vulgar as alunas de Letras virem à cantina de Direito para lanchar ou apenas tomar um café.
Pedro era alto, louro, de olhos azuis. Inês era morena, olhos castanhos, cabelos negros e muito bela.
Da conversa mais ou menos de conveniência ficaram a saber que ele era natural do Barreiro e ela natural de Sintra.
A partir dessa tarde Inês passou a vir com certa frequência tomar o seu cafezinho à Faculdade de Direito, sempre junto a Pedro.
Pedro passou a acompanhar Inês até à Faculdade de Letras, a amizade entre ambos começou a fortalecer-se e um dia, quase que por mero acaso, foram ambos de mãos dadas.
E antes de terminar o ano letivo trocaram o primeiro beijo e ambos ficaram namorados.
No ano em que Pedro se licenciou, por causa de uma cena de ciúmes de Inês por ver Pedro acompanhado de uma Colega, a relação esfriou e o namoro...foi-se!
Pedro seguiu uma carreira diplomática, andou anos e anos a exercer as suas funções no estrangeiro, teve vários relacionamentos com mulheres de cada um dos países onde permaneceu, mas nunca casou,
E jamais soube de Inês, cuja foto, curiosamente, sempre manteve na sua carteira.
Em 2008 aposentou-se, regressou a Portugal e veio viver para o Barreiro Velho numa casa herdada de seus pais.
Na véspera do Natal desse ano, da parte da manhã, Pedro resolveu ir a Lisboa fazer umas compras.
Na velha estação, obra de Miguel Pais, comprou o seu bilhete e como ainda faltava um certo tempo para a partida do barco para Lisboa ficou na gare onde já se encontrava o comboio com destino ao Algarve.
Entretanto, chegou o barco vindo de Lisboa e dele desembarcaram muitos passageiros, designadamente os que se dirigiram para o comboio para o Algarve.
Entre eles uma senhora muito bonita e elegante que, ao encarar com Pedro, ficou parada, olhos nos olhos de ambos.
“Pedro!!”.........”Inês!!”.
Um forte e prolongado abraço selou aquele reencontro.
“Senhores passageiros, queiram tomar os seus lugares, o comboio para o Algarve vai partir”,
Na verdade partiu mas... o lugar de Inês ficou vazio!
Jorge Fagundes
11.12.2019 - 17:42
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