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Quarenta e sete anos depois
(conto)
Por Jorge Fagundes
Barreiro

Quarenta e sete anos depois<br />
(conto)<br />
Por Jorge Fagundes <br />
Barreiro Joana e Beatriz eram amigas desde os tempos da Escola Primária e em Janeiro de 1974, na casa dos dezanove anos, foram admitidas como caixeiras nos Grandes Armazéns do Chiado.

Quarenta e sete anos depois
(conto)

Joana e Beatriz eram amigas desde os tempos da Escola Primária e em Janeiro de 1974, na casa dos dezanove anos, foram admitidas como caixeiras nos Grandes Armazéns do Chiado.
Eram duas raparigas esbeltas e muito bonitas, sendo Joana morena, olhos castanhos e cabelos pretos compridos e, uma vez por outra, enrolados numa longa trança, e Beatriz tinha as faces ligeiramente rosadas, cabelos loiros e olhos esverdeados. Moravam em Campo de Ourique e entravam e saíam do emprego sempre juntas.
No dia 25 de Abril de 1974 quando chegaram ao seu local de trabalho notaram que qualquer coisa se passava porque muitos colegas estavam junto a um aparelho de rádio que, no momento, só transmitia marchas militares.
Um dos presentes adiantou que no Rádio Clube Português tinham emitido várias proclamações de um denominado Movimento das Forças Armadas.
Entretanto chegaram duas empregadas vindas do Barreiro e que disseram que o Terreiro do Paço estava cheio de soldados, fortemente armados, e que haviam tanques e outros veículos militares.
O tempo foi passando, a clientela que foi chegando dizia que se tratava de uma revolução.
E em breve era sabido que o quartel da GNR do Carmo se encontrava cercado pela forças revolucionárias e que nele se tinha refugiado Marcelo Caetano. E que ali se juntavam, em número crescente, muitos civis a ver o que se passava.
Joana e Beatriz estavam cheias de curiosidade e com o desejo de saíram mais cedo, o que, um pouco antes das quatro da tarde, conseguiram da parte da respectiva encarregada sensível ao argumento que estavam com medo e pretendiam chegar a casa o mais breve possível.
Mas para casa não foram mas sim para junto da enorme multidão junto ao quartel do Carmo.
Assim ficaram a saber que o comandante das tropas era um capitão de nome Salgueiro Maia que tinha vindo da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e que no local também estavam militares de outras unidades.
A certa altura um fulano empoleirado uma guarita da GNR, através de um megafone, pediu várias vezes aos civis para se afastarem, o que nunca aconteceu.
Pouco depois um alferes do Regimento de Infantaria Um, da Amadora, chamou um furriel e disse-lhe para juntar alguns soldados e com eles ir tentar que as pessoas recuassem o mais que fosse possível.
O furriel assim o fez e, por acaso, chegou muito perto do local onde Joana e Beatriz se encontravam.
“Façam o favor de se afastarem! Não devem estar aqui tão perto!”
Mas, enquanto o dizia, o seu olhar cruzou-se, por segundos, com o olhar de Joana.
E, ao afastar-se, parou de repente, voltou-se e um vez mais aqueles olhares se cruzaram e Joana, sem o saber porquê, acenou-lhe.
Um dos soldados que se apercebeu do que se tinha passado disse: “nosso furriel aquelas miúdas eram bem giras! E reparei que usavam lenços dos Armazéns do Chiado!”
Bem noite dentro o furriel, de seu nome Pedro, já de volta ao quartel, não deixou de pensar naquela linda morena. E nos dias imediatos, sempre, sempre.
Ora, na parte da tarde do segundo sábado do mês de Maio seguinte, veio a Lisboa e por causa do que o soldado lhe dissera foi aos Armazéns do Chiado.
Ali andou às voltas no vasto espaço do rés-do-chão fingindo ver os artigos expostos, mas nenhuma das empregada era a procurada morena.
Desiludido ia a sair quando se cruzou com Beatriz, a quem reconheceu ser a loira que estava ao lado da jovem que ele procurava.





“Peço desculpa, mas aquela menina que estava ao seu lado junto do quartel do Carmo trabalha aqui?”
“A Joana? Sim, trabalha na secção de artigos para o lar, no primeiro andar”.
Pedro subiu rapidamente as escadas e quando chegou ao primeiro andar viu Joana a atender uma cliente, Joana também o viu e quase deixou cair a peça que a cliente escolhera.
Apresentaram-se e Pedro perguntou-lhe se a podia esperar à saída e ela anuiu.
Saíram, passaram pela Pastelaria Marques para comer um bolinho e beber um café.
E a partir daí o namoro foi evoluindo e no dia dez de Junho de 1978 casaram na Basílica dos Mártires, bem perto dos Armazéns do Chiado.
O casal teve uma filha e um filho que lhe deram cinco netos.
E hoje, pelas seis da tarde, quarenta e sete anos depois daquele primeiro olhar, vão estar junto ao quartel do Carmo com cravos vermelhos nas suas mãos!

Jorge Fagundes

25.04.2021 - 09:19

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