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O relógio parou!
(conto)
Por Jorge Fagundes
Barreiro

O relógio parou!<br />
(conto)<br />
Por Jorge Fagundes<br />
Barreiro Guilherme e Ana Cristina conheceram-se em Outubro de 1969 quando entraram para a Faculdade de Direito de Lisboa.
Ele, com vinte e cinco anos de idade, ela com vinte e um. E num intervalo das aulas ficaram, por mero acaso, na mesma mesa do bar dos estudantes, bebendo o seu café.

Apresentaram-se, trocaram impressões sobre as aulas, e a partir dessa data passaram, com certa assiduidade, a ficar juntos no bar, até porque descobriram que tinham muitos gostos em comum.
Pouco a pouco a Amizade entre ambos foi-se consolidando e, com naturalidade, o namoro começou.
Namoro que se manteve até ao ano lectivo de 1971/1972, quando Ana Cristina, vendo Guilherme chegar, tal como na véspera, ao lado de Luísa, aluna do segundo ano, teve um ataque de ciúmes e decidiu acabar a sua relação com o namorado.
E, apesar das explicações de Guilherme e dos seus insistentes pedidos para reiniciarem o namoro, manteve-se irredutível.
Ambos se licenciaram em 1974 e Ana Cristina resolveu ser Advogada e iniciou o estágio no escritório de um seu tio materno.
Guilherme seguiu a carreira diplomática, esteve colocado em várias embaixadas por esse mundo fora e aposentou-se, já como embaixador, em 2010, fixando residência em Lisboa, numa velha casa, restaurada, no Bairro Alto, herança de seus pais.
Dois anos antes enviuvara de Emily, inglesa com quem se casara quando estava na embaixada portuguesa em Londres.

Ora, em Maio de 2014, Guilherme veio até à Baixa Lisboeta e foi almoçar num restaurante na Rua dos Douradores.
Escolheu uma mesa pequena, sentou-se, viu a ementa, encomendou e enquanto esperava deu uma vista de olhos pelas outras mesas, numa das quais estava uma senhora que não lhe pareceu se pessoa estranha.
Olhou, olhou, e a senhora em causa também fez o mesmo.
Levantaram-se, dirigiram-se um para o outro: ”Guilherme!”; “Ana Cristina!”.
Ficaram na mesma mesa e findo o almoço desceram a rua e na Praça do Comércio instalaram-se numa das suas esplanadas.
Conversaram, conversaram, e a partir daí começaram a encontrar-se muitas vezes e o velho namoro dos anos sessenta praticamente recomeçou.
No entanto, Ana Cristina. que se divorciara no ano anterior. nunca aceitou o pedido de Guilherme para se casarem, ou, pelo menos, viverem em comum, adiantando que não se encontrava preparada para essa mudança. Mas, se mudasse, seria sempre com ele.
Aconteceu que na passada segunda-feira, quando almoçavam no mesmo restaurante da Rua dos Douradores, Guilherme voltou a pedir a Ana Cristina para com ele começar a viver. Ana Cristina uma vez mais recusou.
Guilherme regressou a casa, jantou, como era costume, uma refeição ligeira.
Depois sentou-se no maple preferido, continuou a leitura de um livro de Jorge Amado e,
perto da meia noite, sentiu uma sensação estranha, tipo pressentimento.
Lágrimas nos olhos, e antes de se deitar, mandou uma mensagem para Ana Cristina: “até sempre, meu Amor”.
Morreu, serenamente, durante o sono, às três horas e quinze minutos das madrugada.
Curiosamente, o bonito relógio de parede, americano (do ano de 1870), comprado pelos seus bisavós paternos, parou a essa mesma hora!

Jorge Fagundes

08.08.2022 - 17:51

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