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Vou ter saudades do prazer de ler os textos de Vasco Pulido Valente
Uma escrita de filigrana corrosiva, livre e apaixonante

Vou ter saudades do prazer de ler os textos de Vasco Pulido Valente<br>
Uma escrita de filigrana corrosiva, livre e apaixonante<br>
Sempre gostei de ler Vasco Pulido Valente, não por subscrever as suas ideias, mas por admirar a sua verticalidade intelectual. Para mim verticalidade intelectual não tem o mesmo significado que coerência intelectual. É o homem e as circunstâncias. As situações. Os contextos. A história. Os degredos.

Era um prazer ler as suas palavras. Textos curtos, incisivos. Foi um homem que admirei pela sua verticalidade intelectual. Um homem que exigia verticalidade no pensar e ser, que se distanciava de si mesmo ao encontro dos movimentos da história.
Um homem que amava Portugal e o lugar de Portugal na história da humanidade.
Um cronista que comentava e criticava, não pelo mero criticar mas, isso sim, por ter um sentimento que através da critica critica, dava o seu contributo para construir e não destruir.
Um homem que aliava uma profunda cultura académica às experiências de vida e movimentos epocais.

Sempre gostei de ler Vasco Pulido Valente, não por subscrever as suas ideias, mas por admirar a sua verticalidade intelectual. Para mim verticalidade intelectual não tem o mesmo significado que coerência intelectual. É o homem e as circunstâncias. As situações. Os contextos. A história. Os degredos.
O mundo muda, transforma-se, e, de facto, a coerência por vezes é não perceber as mudanças e ficar preso a dogmas. A verticalidade é manter a identidade da consciência, a força do carácter, a ética como farol, e, a Liberdade como motor da vida.
Sempre achei Vasco Pulido Valente um homem livre, desapegado de projectos, sem objectivos de poder, tendo como único caminho, viver a cultura, ser cultura, fazer cultura, dando à cultura uma dimensão, em primeiro numa reflexão histórico-filosófica, em segundo lugar numa dimensão antropológica na sua vertente cultural e filosófica. A sociologia espreitava nos seus textos, como fundo de análise estratégica – num olhar sobre a evolução e desenvolvimento da humanidade. As contradições que se inscreviam ao longo do tempo, passando de geração em geração.
Os seus textos eram, sempre, mesmo os de breves linhas, uma abordagem do espírito da época, talvez um pouco hegeliano – semente, flor e fruto. Gostava de o ler, muitas vezes, fazendo, com ele, um exercício e mergulhava por dentro do tempo histórico sempre presente no próprio texto. Seus escritos eram hermenêutica da história, e, simultaneamente, eram Filosofia da Linguagem análise de conteúdo com os pés na vida. Teoria e Prática.
Vasco Pulido Valente, ao longo dos anos, foi uma das minha referências de leitura no jornal «Público». Em tempos idos, recordo, tinha a companhia apaixonante de Eduardo Prado Coelho. Ambos, com textos que ajudavam a pensar. Quando pensamos, descobrimo-nos. Ler era um prazer, mais, muito mais, que cumprir um dever, como dizia o meu poeta Fernando Pessoa.

Hoje, partiu da nossa convivência quotidiana, Vasco Pulido Valente, um cronista cuja falta vou sentir, porque, na verdade, vou sentir a ausência da sua ironia, do seu olhar sobre este mundo. Vou sentir a falta do prazer de partilhar, olhando o Tejo, a sua escrita, feita de uma filigrana que era uma narrativa corrosiva, livre e apaixonante. Textos com substância. Vou ter saudades desse prazer de ao ler os seus textos, sentir fluir nos neurónios o direito humano - à diferença e à Liberdade.
Os seus textos abriam caminhos para pensar - discordando ou concordando – e esse era o caminho da Liberdade e da Democracia.
Todos um dia partimos. Acredito que no final do percurso de cada um de nós o que fica, afinal, é esse sentimento que hoje, sublinho, fica presente na partida de Vasco Pulido Valente. O legado.
Gostei de ler e pensar a vida com os seus pensamentos. Nós partimos, fica o nosso legado para memória futura.
O jornal «Público» fica mais pobre. Portugal perde um homem que tinha Portugal no coração. Obrigado.

António Sousa Pereira

Foto - Jornal «Público»

21.02.2020 - 19:50

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