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JORGE TEIXEIRA - Um homem singular (*)
Escritor, Poeta, Jornalista, Dramaturgo, Músico amador e Sindicalista Revolucionário Ferroviário
Por António Moreira (1)
Barreiro

JORGE TEIXEIRA  - Um homem singular (*)<br />
Escritor, Poeta, Jornalista, Dramaturgo, Músico amador e Sindicalista Revolucionário Ferroviário<br />
Por António Moreira (1)<br />
Barreiro<br />
O barreirense Jorge Fernandes Teixeira foi uma personagem singular que se desdobrou numa multiplicidade de actividades. Profissionalmente foi ferroviário dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, mais tarde da CP; culturalmente foi um produtor prolífico, que deixou a sua marca nos periódicos como escritor, poeta, director, editor e proprietário.

Homem singular e multifacetado foi, para além de poeta, dramaturgo e actor, contista e novelista e, como recentemente descobrimos, também um exímio executante da guitarra portuguesa. O seu vasto espólio literário em grande parte inédito, merece seguramente estudo aprofundado, não apenas pelo seu interesse para a história local, mas também para a história da literatura portuguesa de matriz operária e libertária.

Natural do Barreiro, Jorge Fernandes Teixeira nasceu em 27 de Fevereiro de 1898. Eram seus pais José Teixeira de Sousa, maquinista dos caminhos de ferro, natural de Viseu, e Maria Sabina Fernandes, natural de Coimbra, a crer no registo de casamento, ambos residentes no Barreiro, onde casaram em 21 de Março de 1890.
Jorge Teixeira, o quarto dos seis filhos do casal, teve como padrinhos de baptismo o «trabalhador» Álvaro Augusto e sua mulher Maria Inácia, que não assinou o registo de baptismo «por não saber escrever».

Teve uma infância atribulada. Aos 13 meses, a madrinha, «mulher de um empreiteiro de chulipas para a via férrea», leva-o. Passa a residir com os padrinhos, «sempre no distrito de Setúbal». Em 1902, os padrinhos passam a residir no Barreiro.
Segundo as suas próprias palavras: «A maledicência turva a amizade dos compadres. Aos nove anos, a madrinha deixa-o com um saco das suas roupas, próximo do lar dos pais.» Não sabemos por quanto tempo residiu com os pais e irmãos. Em data indeterminada é levado pela avó paterna para a sua casa na Beira.

Regressa à casa paterna aos 13 anos. Na «Nota Bibliográfica» que integra a 2.ª edição da Vida Tenebrosa, diz Jorge Teixeira: «Solitário, autodidacta, traz sempre versos seus entre os livros. Sabe João de Deus de cor. Colabora, às escondidas, em jornais.»
A sua estreia literária terá ocorrido em 1912 ou 1913, nas páginas de um jornal. Segundo o próprio, em 1912, nas páginas de um jornal barreirense que teria por título O Carcanhol, dirigido por Jerónimo Paiva, do qual não se encontram quaisquer referências. Em contrapartida, temos notícia da sua participação num «concurso de fados» no periódico Ecos do Barreiro, em 1913, curiosamente com um poema com o mesmo título: «O Enjeitado».

Tem dezasseis anos quando ingressa, em 1914, nos Caminhos de Ferro do Estado. Trabalha durante anos em estações ferroviárias do Alentejo. Em 1917 funda, em Beja, com Santos Chícharo, uma sucursal da Liga Pró-Moral (anti-alcoólica e anti-tabagista). Tem colaboração assídua no periódico Notícias de Évora e é em Évora que publica, nesse mesmo ano, o seu primeiro livro Lira Humilde (versos). A obra tem a seguinte dedicatória: «À minha companheira dedicada, ofereço a minha primeira obra literária, acompanhando-a dos mais vivos protestos da minha estima e amor.»

Após um casamento, que Jorge Teixeira designa como «precipitado», do qual pouco se sabe, nasce-lhe uma filha, a quem foi dado o nome de Lídia, artista lírica, que viria a morrer aos 24 anos. O casamento terminará em divórcio litigioso no tribunal da Comarca de Évora, em 1921. Ao Estado civil «Casado», constante da sua Caderneta Militar, foi acrescentada e rasurada a informação: «divorciado, por sentença de 19 Fev.º de 1921 (...) da Comarca (do tribunal) de Évora.»
Cumprido o serviço militar nos Sapadores de Caminho de Ferro, em Lisboa, Tancos e Alverca, como bibliotecário e auxiliar de topógrafo, o escritor dedica-se apaixonadamente ao teatro, mantendo a sua prolixa actividade nos periódicos locais.
Em 14 de Setembro de 1921, Jorge Teixeira surge-nos como dramaturgo. O Grupo Dramático do Clube 22 de Novembro leva à cena, no Teatro República (Barreiro) a sua primeira peça em três actos, com o título Lágrimas, mais tarde designada O Crime dos Pais, «em benefício de um seu conterrâneo invisual (Ricardo Veiga)». O autor é também actor, fazendo parte do elenco da peça.

A controvérsia gerada pela representação da sua peça teatral Lágrimas, leva-o a fundar o Grupo Dramático «Luz e Liberdade», composto por ferroviários dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste que, em 10 de Março 1922, estreia no Barreiro a sua peça em três actos, Gatunos de Luva Branca. Nos meses seguintes, a peça será representada em Aldegalega (actual Montijo), em Abril e, em Maio, no Teatro Garcia de Resende, em Évora. No ano seguinte, a peça será editada conjuntamente com uma outra peça, em um acto, Escumalha.

Jorge Teixeira assume, em Junho de 1922, as funções de redactor-principal do jornal O Sul e Sueste, de pendor sindicalista revolucionário, órgão da Associação de Classe dos ferroviários do Sul e Sueste. Substitui, nas suas novas funções o destacado dirigente operário Miguel Correia, com Joaquim Figueiredo como editor, em substituição de António José Piloto. Presume-se, por notas suas, que o seu afastamento da direcção do jornal, no ano seguinte, foi para ele muito confrangedor. Mas, volta de novo à liça, assumindo o cargo de director do jornal Eco do Barreiro.

Para além do Grupo Dramático «Luz e Liberdade», Jorge Teixeira cria também, com o patrocínio do Sindicato dos Ferroviários, o Grupo Ferroviário Educação Social destinado »à difusão de doutrinas sociais, procurando engrandecer a concepção ideológica dos seus associados, preparando futuros militantes e contribuindo utilmente para o levantamento do nível moral e sociológico da nossa classe» (2). É com o concurso desta associação que se desenvolvem no seio dos ferroviários a divulgação e cursos de Esperanto, de Teixeira é cultor e fervoroso paladino.
Depois da poesia da Lira Humilde, e da sua produção teatral, entrega-se também à escrita narrativa. Entre 1924 e 1925 publica em A Batalha – Suplemento Literário e Ilustrado, três contos, que são como que um ensaio para obra de maior fôlego.

O escritor demonstra um interesse muito particular pela escrita para crianças. Desde logo, pelo teatro infantil. A sua primeira manifestação conhecida data de 1926, com a publicação da peça Porque riem vocências?, mas esse interesse transparece ao longo da sua vida com a publicação de diversas peças de teatro para crianças nos anos 1950.
Em 5 de Junho de 1927, casa com Maria Carlota Cristina de 21 anos, professora, natural de Portimão, na Sexta Conservatória do Registo Civil de Lisboa, num período de intensa actividade literária.

Em 1929, Jorge Teixeira publica a 1.ª edição da sua peça O Perdão dos Filhos. Publica também o livro de contos Vida Tenebrosa que, como ele próprio refere, foi bem acolhido pela crítica. O autor deve ter dirigido cartas a várias personalidades do mundo literário pedindo parecer crítico sobre esta sua obra. É disso exemplo a carta dirigida por si ao escritor Ferreira de Castro (1898-1974), em 20 de Dezembro de 1929. Correspondência similar terá sido igualmente dirigida, pela mesma altura, ao jornalista, crítico literário e escritor Jaime Brasil (1896-1966).

Na carta acima referida, dirigida a Ferreira de Castro, Jorge Teixeira assinala: «Recordei-me da vossa “Epopeia do Trabalho” por onde desfilaram figuras de operários, impelidos por mão amiga e justiceira, numa obra que ninguém ainda tinha feito no país e deixou funda impressão nos meios obreiros... ». O autor deixa claro que não procura favores: «Não peço favores, – seriam indignos de V. Ex.ª e da minha orgulhosa independência – desejo inteira justiça e por isso nem me recomendo por qualquer amigo comum e tenho-os às dezenas.» E termina com uma interrogação na qual se manifesta a sua humildade: «Valerá a pena prosseguir?» (Carta a Ferreira de Castro, de 20.12.1929, Câmara Municipal de Sintra / Museu Ferreira de Castro, cota: MFC/B1/2777/Cx.214/Doc.1). Não sabemos se, na sequência desta carta terá havido, posteriormente, troca de correspondência ou contactos pessoais entre Ferreira de Castro e Jorge Teixeira.

Muito provavelmente, na sequência das diligências desenvolvidas por Jorge Teixeira com vista à recolha de olhares críticos de homens de letras sobre o seu livro Vida Tenebrosa, Jaime Brasil, publica n´O Globo, n.º 3, em 19 de Janeiro de 1930, uma nota crítica muito elogiosa relativamente a Vida Tenebrosa, considerando-a a primeira manifestação do «populismo» literário em Portugal. O “populismo”, a que Jaime Brasil se refere, foi uma corrente literária que emergiu em França, nos finais dos anos 20 do século passado, cujos arautos foram os escritores André Thérive (1891-1967) e Léon Lemonnier (1890-1953), e que foi exposta nos seus fundamentos doutrinários no Manifeste du Roman Populiste, em 1929, da autoria de Léon Lemonnier.

Em Fevereiro de 1930, também sobre este livro de contos, é, por seu turno, publicada, nas páginas da revista Civilização, a seguinte e breve recensão crítica, saída seguramente da pena de Ferreira de Castro: «Este livro, de Jorge Teixeira – novelas e impressões da vida ferroviária – marca e revela um verdadeiro temperamento literário. Tem cor, realidade e emoção. E, a exalar-se da prosa, uma densa ternura pelos humildes».

Neste período Jorge Teixeira junta à sua criação literária poética, dramatúrgica e narrativa, uma componente didáctica profissional com a edição do Auxiliar do Ferroviário, em 1929. No ano seguinte publica o Manual Prático Profissional de Caminhos de Ferro, que será objecto de várias reedições.
Desconhecemos as razões que levaram o nosso autor a procurar em África uma mudança da sua vida profissional. Sabemos que, em 1933: «No caminho do Ultramar, sabe ter-lhe sido atribuído o prémio do Concurso Literário da Imprensa (1933), com o livro de contos Cidade Nua, pelo júri composto pelos escritores Cristóvão Aires, Norberto de Araújo, Raul Portela, Câmara Reis e Julião Quintinha.». Um excerto dessa obra viria
a ser publicado, sob o título «Uma família», antecedido por um texto laudatório, na revista Seara Nova (3).

Entre 1933 e 1934, Jorge Teixeira parte para Angola, para trabalhar nos Caminhos de Ferro de Benguela, fixando residência na cidade do Lobito. A sua passagem por África não lhe foi favorável. Regressa de África «desiludido e doente» e «conhece as agruras do desemprego». Dessa experiência africana resulta a inédita novela Amor Negro, escrita em 1936, como ele próprio escreve: «Com temática multirracialista e aclimatação branca.»

Entre 1934 e 1936, «Ingressa no jornalismo profissional». Neste período, foi autor e locutor de diálogos radiofónicos para crianças na Emissora Nacional e na Rádio Renascença. Terminada esta experiência, em que parece também não ter sido muito feliz, pede o seu reingresso nos caminhos de ferro, em data indeterminada, de onde se reforma, em Março de1941, como fiel de estação de Lisboa-Terreiro do Paço. Com amargura, diz Jorge Teixeira: «Aposentei-me dificilmente, doente e tido por sadio como um pêro, e levei o acepipe de trezentos escudos de pensão, extraído a ferros, sem anestesia, num regateio desmoralizante.

Os parcos proventos da reforma obrigam-no a procurar nova actividade. Emprega-se, entre 1946 e 1950, na empresa António Pessoa, Ld.ª, Fabricante de Máquinas. Neste período trabalha num novo ciclo literário a que chama de «temática profissional comercial». Deixa inéditas as novelas O Drama do Merceeiro Alípio, Caixeira Nova e Flor do Bairro; os livros de contos As Mãos da Cidade e Cidade Nua; e os romances, Flor do Mar e Mãe-Noiva.
Em 1956, o escritor participa em mais uma aventura jornalística com a publicação da revista Floronatura, de duração efémera, do qual é director, na qual expressa as suas preocupações naturistas e ambientalistas, e onde propõe um projecto de vida saudável.

Em 1959, publica teatro para crianças, na Livraria Ferreira & Franco: Último Circo, Colégio dos Traquinas e Auto da Princezinha.
Jorge Teixeira, após a almejada reforma, continua a escrever, a rever e a organizar os seus trabalhos. Deixou, preparados para envio à Sociedade Portuguesa de Autores, e à Câmara Municipal do Barreiro, um conjunto de obras inéditas, de que destacamos, o Drama do Merceeiro Alípio, o livro de contos Ferroviário (o último da trilogia ferroviária), e O Barreiro que Eu Vi. Da vasta obra que deixou inédita, a cuja organização dedicou os últimos anos da sua vida, apenas foi editada, postumamente, a obra O Barreiro que Eu Vi, pela Câmara Municipal do Barreiro, em 1991.
Morre na freguesia da Madalena, em Lisboa, em 20 de Novembro de 1975.

António Moreira
Barreiro, 23 de Outubro de 2021

Notas:

(*) Breves notas biográficas da vida de Jorge Teixeira, apresentadas pelo Dr. António Moreira durante a 2.ª Conferência In Memoriam JORGE TEIXEIRA, levada a efeito no AMAC, no Barreiro, em 23 de Outubro de 2021, organizada pela VULTOS DA NOSSA TERRA em colaboração com a CMB.

(1) António Moreira nasceu em S. Marcos da Serra, Silves, em 1953. Há mais de trinta anos, embora com hiatos temporais, que vem desenvolvendo investigação na área da História Social, em particular no Barreiro. Foi o primeiro historiador a publicar, em 1990, a biografia de Jorge Teixeira. Está actualmente a preparar, em co-autoria com Fernando da Motta, a reedição crítica, com introdução e notas, de “O Barreiro que eu vi”, da autoria de Jorge Teixeira.

(2) O Sul e Sueste, Ano III, n.º 60, 20 de Abril de 1922.

(3) Seara Nova, n.º 384, de 12 de Abril de 1934.

Foto - António Moreira no uso da palavra durante a 2.ª Conferência In Memoriam JORGE TEIXEIRA, levada a efeito no AMAC, no Barreiro, em 23 de Outubro de 2021, organizada pela VULTOS DA NOSSA TERRA em colaboração com a CMB [© foto Filipe Cardeira].

27.10.2021 - 12:18

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