personalidades
IN MEMORIAM ENG.º ANTÓNIO MANUEL RODRIGUES MARQUES
Por Carlos Bicas
Sesimbra
Conheci o meu colega Eng. António Marques, pelos finais dos anos 80 do século passado, quando exerci funções de engenheiro rodoviário na antiga JAE, hoje designada IP Infraestruturas de Portugal, depois dos inúmeros nomes pelos quais a instituição foi
sendo crismada pelos sucessivos governos de diferentes cores.
Por essa época, a JAE era um prestigiadíssimo organismo do Estado de natureza exclusivamente rodoviária. Hoje, faz o milagre
de acumular funções mistas rodoviária e ferroviária.
Quando eu entrei para a JAE, ele trabalhava, então, na Direcção dos Serviços e Gerais e eu na Direcção dos Serviços de Pontes. Esta
diferença de objectivos funcionais de cada uma das nossas Direcções de Serviço, não permitiu, inicialmente, proximidade
entre nós, quer profissional quer de convívio. Por essa altura, na qualidade de adjunto do Arq.º Santa-Rita, o António Marques
colaborava activamente na coordenação do projecto de construção da nova sede da JAE, em Almada, um imponente edifício, hoje majestosamente implantado no topo da encosta esquerda da Praça da Portagem, em forma de anfiteatro declinado para o Tejo, do lado sul de quem vem no sentido do acesso à Ponte 25 de Abril. Eu como “ponteneiro”, vulgata pela qual eram apodados na gíria da profissão os engenheiros das Pontes, andava, na fase inicial da minha carreira na JAE, a vistoriar pontes de norte a sul, por todo o País. De modo que, como referi, inicialmente pouco contacto tínhamos.
A situação manteve-se, depois de eu ter sido deslocado, permanentemente, durante mais de quatro anos, como Engenheiro Residente na Construção da Ponte Internacional sobre o Rio Guadiana, entre Vila Real de Santo António e Ayamonte. Por conseguinte, só nos meados dos anos noventa do século passado o meu convívio com o meu colega António Marques cresceu e se consolidou. Antes, sendo ele uma pessoa reservada, sobre a suas actividades, para além da sua profissão, sabia, na sequência de troca de impressões rápidas e de circunstância, somente que tinha actividade política na Autarquia de Sesimbra, onde detinha a
função de Vereador local pelo Partido Socialista. Como, à época, a política já não era das minhas preocupações e interesses
imediatos e activos, a mesma nenhum incremento pôde proporcionar ao relacionamento mais próximo e permanente entre nós.
Assim, foi pela Cultura que se deu a nossa aproximação, quando descobri nele um muito discreto, mas poderoso espírito
empreendedor, aberto ao mundo, ávido de conhecimento, possuidor de um gosto invulgar pela escrita e pela arte e, sobretudo, alguém que dominava a escrita com incontestável mestria. Por essa altura, ele era a alma e substância dos projectos «Raio de Luz», tanto na vertente cívica e cultural como nas preocupações de assistência social. O António Marques, para além de ter tido um papel preponderante na construção do importante edifício sede da associação «Raio de Luz», construção que quando comecei a ter um relacionalmente mais próximo e permanente com ele, já se encontrava concluído e a funcionar normalmente, ele era então também, pude testemunhá-lo, já o grande impulsionador, director e coordenador, do muito bem conseguido e estruturado jornal «Raio de Luz», quer pela qualidade dos seus conteúdos quer pela sua bela composição gráfica, jornal elaborado apenas com cerca de uma dúzia de colaboradores, com participação, no geral intermitente, e secretariado e composto, com a dedicação permanente
inexcedível, a toda a prova, da Ana Olival e da Sílvia Antunes.
A partir dessa minha descoberta, tornámo-nos amigos inseparáveis. O apreço e admiração e solidariedade que passei a ter por ele, deu origem a projectos comuns. Alguns de muito boa memória.
Recordo, com saudade, as conferências de comemoração dos 200 Anos da Constituição Liberal de 1820, as quais tiveram lugar na
sede da «Raio de Luz», em 24 de Setembro de 2022. Nessas conferências, por ele organizadas, tive o privilégio e a oportunidade de proferir as seguintes palavras de “saudação” a ele dedicadas pessoalmente, passo a citar:
“[ao meu colega] de profissão, Eng.º António Marques, Ilustre Presidente do Centro de Estudos Culturais e de Acção Social Raio de Luz e Director do jornal Raio de Luz e Cineclube Raio de Luz pela notável e multifacetada obra cultural e social a qual, acompanhado pela sua muito motivada e activa equipa, tem vindo a desenvolver, a partir das instalações sede da instituição, em Sampaio, no concelho de Sesimbra”.
Nessa mesma intervenção, referindo-me embora indirectamente ao evento das conferências da Comemoração dos 200 Anos da
Constituição Liberal de 1820, que estava a ocorrer, julguei importante sublinhar, algo que era seguramente comum às ideias
e aos fundamentos e propósitos existenciais e filosóficos do próprio António Marques, ao organizar aquelas conferências, não
obstante a minha referência fosse feita directamente em homenagem à personalidade incontornável do notável liberal, natural de Sesimbra, Padre Marcos Pinto Soares Vaz Preto. Passo a citar:
“[que] em tempos de tempestade, plenos de incertezas e negações, se assume como indefectível defensor e seguidor dos quatro grandes pilares do Iluminismo: a Ciência, a Razão, a Democracia e o Progresso, este último como cúpula perene da arquitectura de um Novo Humanismo.”
Afirmação que assentava, pois, também como uma luva no mundo espiritual e desígnios do próprio António Marques.
Recordo também com muita saudade, os momentos partilhados, desta feita no Barreiro, em 2022, na Comemoração do Centenário
da Travessia Aérea do Atlântico Sul, por Gago Courinho e Sacadura Cabral, organizado pela associação «Vultos da Nossa Terra», da
qual eu era um dos dirigentes e coordenador do evento. O António Marques, solidário connosco, esteve presente no desfile
que então, a propósito, se realizou no Barreiro. E foi com muita emoção que o vi perfilado, com humildade e grandeza, a marchar
no cortejo, empunhado orgulhosamente pelas ruas do Barreiro o Estandarte do «Raio de Luz», ombreando lado a lado com os
outros estandartes das inúmeras colectividades locais que se associaram ao desfile…
Passados tantos anos de convívio activo, amigo e fraternos, justo será interrogarmo-nos sobre qual o cimento que garantiu a solidez
dessa amizade?
O António Marques pautou sempre a sua vida por nobres princípios e elevados valores humanistas e democráticos, designadamente:
a convicção de que a Fraternidade e a Tolerância são os pelares basilares da aliança entre os homens livres e de bons costumes.
A convicção de que o aperfeiçoamento da Humanidade é possível através da elevação moral e espiritual do indivíduo.
a não aceitação de dogmas e da necessidade do combate a todas as formas de opressão, de terror, de miséria, de desigualdades, de sectarismos, de ignorância, de corrupção, enaltecendo simultaneamente o mérito.
a crença na importância material da conciliação de conflitos, da promoção da união dos indivíduos através da prática de
uma Moral Universal e no respeito da personalidade dos indivíduos.
na condenação das regalias injustas.
na crença inabalável na divisa da Tradição Republicana Liberdade, Igualdade, Fraternidade e no lema Justiça, Verdade, Honra e Progresso.
No reconhecimento que o Trabalho é um direito e dever essencial do Homem, honrando igualmente todas as formas de trabalho.
O reconhecimento de que os homens se devem reconhecer como irmãos e, por isso, com o dever de permanente ajuda e assistência mútua, exigindo-se-lhes, nessa circunstância, o máximo de altruísmo e o sacrifício de quaisquer interesses particulares ao bem-estar dos seus semelhantes.
E, por último, a convicção inabalável de que a difusão de valores nobres deverá ser sempre feita pelo exemplo.
Foram estes princípios e valores acabados de enunciar que, afinal, terão constituído o cimento aglutinador da relação que o António
Marques cultivou relativamente ao Outro, ou seja, aos seus semelhantes, assim como da sua irrequietude tranquila e empreendedora de ordenador do caos, em face da indiferença e passividade inerentes à condição e natureza humanas, e também do gosto e prazer que ele tinha pela vida.
Descansa em Paz meu Bom e Querido Amigo!
Azeitão, 14 de abril de 2026
Carlos Bicas
14.04.2026 - 20:35
imprimir
PUB.
Pesquisar outras notícias no Google
A cópia, reprodução e redistribuição deste website para qualquer servidor que não seja o escolhido pelo seu propietário é expressamente proibida.
Fotografia e Textos: Jornal Rostos.
Copyright © 2002-2026 Todos os direitos reservados.
RSS
TWITTER
FACEBOOK