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ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro estreou «LA NONNA»
Entre a comédia e o drama – um dia pode ser uma vida!
Um espectáculo que faz sorrir e pensar.

ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro estreou «LA NONNA»<br />
Entre a comédia e o drama – um dia pode ser uma vida!<br />
Um espectáculo que faz sorrir e pensar.Uma peça que decorre com ritmo e intensidade, um espectáculo que se articula com o cenário e cenários, com marcações fluídas, onde os personagens trocam e cruzam diálogos sem «ruídos», com grande subtileza, de tal forma que o espectador quase parece estar a viver cenas e e contra-cenas em simultâneo, numa vivência real e cativante.

A ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro estreou na sexta-feira, a peça «LA NONNA», uma comédia de Roberto Cossa, com encenação de Luís Pacheco.
A sala está cheia. Lotação esgotada. Desliguem o som dos telemóveis. Mais uma estreia de «Arte Viva», um dia vivido, sempre, com muita intensidade.

O fado

Escutam-se os sons do fado. Os projectores iluminam a cena. Uma sala. Um quarto, onde Narciso, vive um tempo de criatividade. O Narciso que se auto-venera, uma representação simbólica de um estilo de «cidadania», uma marca da nossa cultura – o fado.
Uma figura central no desenvolvimento de toda a peça na intriga e contextualização dramática.
Um personagem muito bem interpretado por Bruno Vitorino.

A fé

E que dizer de Isilda, com seu cordão de oração, com o credo permanente na voz e o amor amordaçado no coração. Alienação.
Uma personagem hilariante, com uma brilhante interpretação da veterana Manuela Félix.
Uma personagem figurativa das crenças, da fé, do divino e seu lugar no centro da vida social e da família. Um elemento de coesão num contexto de crise.

A esperança

E Aristides, interpretado por Henrique Gomes, símbolo de esperança, de resistência, de luta, do fazer das «tripas coração», para aguentar a crise. Vendendo tudo, pouco a pouco, mas procurando manter a dignidade.
A fuga para o alcoolismo, dando sentido ao velho ditado do “dar de beber à dor”.
Uma personagem cuja decadência faz desenvolver na peça o confronto entre a comédia e a tragédia. Onde a vida é comédia? Onde a vida é tragédia?
Aristides é o centro da tragédia familiar perante a crise.

A resiliência

E Benilde, a mulher, símbolo de quem cala e aguenta, de quem grita e ninguém ouve, de quem gere o que não há, a força da resiliência. Aguentar. Esticar.
Uma personagem vivida por Ângela Farinha com paixão, marcando de forma brilhante o seu regresso ao palco.
O amor. A morte. O contraste de quem sente e vê – “não há nada, não há nada” – um grito de desespero, no meio de um silêncio opressivo.

A marginalidade

A Filomena, interpretada por Ana Samora, que simboliza a marginalidade, os efeitos secundários, talvez, por essa razão, é uma personagem que vai cruzando o palco, entra e sai de cena, como que inscrevendo a sua presença real, mas que ninguém quer ver, fecha-se os olhos, olha-se para o lado, porque, afinal, o lupen-social, sempre existiu e sempre existirá, faz parte do sistema ou dos sistemas.
Há sempre os que vendem o corpo e/ ou a alma no tempo dominado pela lei da sobrevivência.
Uma personagem sóbria, um figurino bem caracterizado, sem especulações maquiavélicas, mas que acaba por marcar a o sentido trágico da vida.

O oportunismo

Belarmino, interpretado por Alexandre Antunes, o simbolismo do oportunismo, enquadrando a lição moral – “quem tudo quer, tudo perde”. A ambição.
Uma interpretação genial.Uma expressão corporal magnifica. Uma personagem multifacetada, que, faz rir, perante as desgraças que podem marcar a vida. A

A vida e a crise

A Nonna, figura central da peça, o travesti interpretado por Rui Félix. Uma personagem sequiosa, absorvente, dominante, possessiva. Uma caricatura que marca a dimensão das circunstâncias, as dinâmicas em torno da qual a vida acontece, afagando-nos e sugando-nos. É talvez a própria crise, ou o simbolismo das entidades geradoras da crise.
É o vampiro que Zeca Afonso canta – “eles comem tudo, eles comem tudo”.
Um figura rica, hilariante, em torno da qual o espectáculo flui, com intensidade, com gargalhadas, com momentos de dor – a vida no seu esplendor.
Nonna pode ser, afinal, a própria vida,porque esta personagem coloca para reflexão a pergunta – Comemos para viver ou vivemos para comer?
Rui Félix escreveu mais uma página da sua brilhante história teatral.

As circunstancias

Uma peça que decorre com ritmo e intensidade, um espectáculo que se articula com o cenário e cenários, com marcações fluídas, onde os personagens trocam e cruzam diálogos sem «ruídos», com grande subtileza, de tal forma que o espectador quase parece estar a viver cenas e e contra-cenas em simultâneo, numa vivência real e cativante.
Sentimos cada personagem na sua individualidade e, igualmente, sentimos a equipa-familia, com a sua dimensão catalisadora da acção. Nada é por acaso.
Os personagens são eles e as circunstancias.
Há coerência. Há emoção. Há riso. O ritmo do espectáculo «abre o apetite» para descobrir a sua apoteose. A morte torna-se uma banalidade. A fome. O perder. É sempre assim em tempos de crise.
Um ritmo que não desfalece. Um texto envolvente, partilhado pelas personagens e sentido pelos espectadores.
É mesmo, esse ritmo textual e discursivo que faz mover a representação que passa da comédia ao drama, numa dimensão temporal, onde – um dia pode ser uma vida!
Um espectáculo brilhante. Um espectáculo a não perder.
Um espectáculo intenso, de denúncia, de sentimentos, prende o espectador, que, faz sorrir e pensar.

Há uma luz ao fundo do túnel

A luz marca os espaços. A luz junta as cenas.
A luz tem o ritmo dos movimentos, entre um hoje um amanhã, com acertos e desacertos – a crise.
No final, é deslumbrante, aquela luz silenciosa, que ilumina o palco, um ponto de encontro que contextualiza a beleza de toda a encenação – ela mesma interpretativa.
Podemos pensar, naquele instante final, as diferentes formas de olhar e viver os tempos de crise – “o último a sair que apague a luz”, ou, por outro lado, talvez – “há uma luz ao fundo do túnel”, ou ainda, o sentido da vida, uma luz que se esvai, esvai, esvai..que se traduz naquele texto –“desperta e canta” tu que vives no pó...e ao pó vais voltar:.

Eu prefiro, aquela forma de sentir, que, aprendi antes de Abril acontecer, «mesmo na noite escura», há sempre uma candeia acesa…uma luz na escuridão ilumina o caminho!
Excelente encenação. Excelente intérpretes. Deliciei-me.

António Sousa Pereira

Ficha Técnica

Nonna – Rui Félix
Isilda – Manuel Ramos Félix
Benilde – Ângela Farinha
Filomena – Ana Samora
Narciso – Bruno Vitoriano
Belarmino – Alexandre Antunes

Encenação – Luís Pacheco
Assistente de Encenação – Ana Samora
Design de Cenário – Eugénio Silva
Construção e Montagem – António Santinho
Figurinos e Adereços - Manuela Ramos Félix
Desenhos de luz – João Oliveira Jrº
Operação Técnica – Paulo Palma
Apoio Geral – João Henrique Oliveira
Design Gráfico – Alexandre Antunes
Produção Executiva – Catarina Santana
Fotografia para cartaz – Teresa Vitorino
Fotografia Cena – Nelson Tondela
Agradecimentos – Céu Madeiras

Sobre a Peça

"“La Nonna” é uma avó centenária que devora tudo o que lhe passa pelas mãos e que com o seu egoísmo conduz a família à autodestruição. Mas o que representa a Nonna afinal? Será uma metáfora sobre a sociedade…? O estado…? Um percurso onde a comédia se pode tornar na mais cruel tragédia…"

Luís Pacheco

Foto - Arte Viva

23.10.2016 - 23:38

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