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Moita - Estaleiro de Mestre Jaime é único no país
A «Muleta» do Barreiro começa a navegar em Setembro

Moita - Estaleiro de Mestre Jaime é único no país<br />
A «Muleta» do Barreiro começa a navegar em Setembro. A Câmara da Moita quer estaleiro classificado como património cultural da humanidade

Mestre Jaime, uma vida ligada aos barcos tradicionais. Um dos poucos estaleiros que existem em Portugal dedicados à construção de barcos em madeira, O Estaleiro existe desde o ano 1955, em Sarilhos Pequenos, no concelho da Moita.

“Tem que haver um Regulamento próprio para estas embarcações, de forma a facilitar a legalização. Os municípios deviam intervir junto da Assembleia da República. Não podemos continuar sujeitos a estas coisas. Estes barcos não podem ser avaliados, como são os barcos avaliados com base nas leis da União Europeia”, salienta Mestre Jaime.

Mestre Jaime, uma vida ligada aos barcos tradicionais. Um dos poucos estaleiros que existem em Portugal dedicados à construção de barcos em madeira, O Estaleiro existe desde o ano 1955, em Sarilhos Pequenos, no concelho da Moita.

Mestre Jaime, em conversa com o jornal «Rostos», recorda que o estaleiro foi comprado pelo seu pai e ao longo dos anos tem crescido, fruto do trabalho e da entrega da família – “crescer a pulso, sem apoio de ninguém, a não ser os braços dele e dos meus, até ao dia de hoje não tivemos qualquer subsidio, nada de nada para sobreviver. Vamos sobrevivendo à custa do nosso trabalho, da nossa seriedade e do nosso profissionalismo”.

De Cacilhas até Alcochete existiam 42 estaleiros

De referir que, quando da fundação do Estaleiro do Mestre Jaime, em Sarilhos Pequenos, na região de Cacilhas até Alcochete, existiam 42 estaleiros, entre os anos 1940 até 1950.
“Eu era miúdo e recordo que existiam mais de mil embarcações na pesca e no tráfego local, eram fragatas, varinos, faluas, botes, canoas, no transporte de pessoas, na pesca, era um vaivém todos os dias, fazendo a ligação entre Lisboa e a margem sul. As vivências das aldeias ribeirinhas eram através destes barcos e daquilo que o Tejo lhes dava. A margem sul fornecia Lisboa”, sublinha Mestre Jaime.

Foi um holocausto autêntico

“Nos anos 1970, começa o declínio das embarcações do Rio Tejo. Foi um holocausto autêntico. Foram queimadas. Parece que estava tudo farto da nossa história, das embarcações lindas que navegavam no nosso Tejo. Tudo isso morreu”, sublinha o Mestre Jaime.
Os estaleiros foram fechando como consequência directa da motorização e da construção das pontes sobre o Rio Tejo.
“O saber dos estaleiros foi passando ao longo dos séculos dos mais velhos para os mais novos, através da aprendizagem. Com o declínio das embarcações, com os estaleiros a morrer, e, alguns começaram a adaptar-se a outras situações.
Hoje, desses 42 estaleiros só existe este, porque eu vim para aqui de miúdo com o meu pai e foi com ele que eu aprendi a gerência deste estaleiro”, refere.

Legalização das embarcações era quase impossivel

Recorda que houve um tempo que se registou um interesse de holandeses, de franceses e dos belgas, que se deslocaram a Portugal para adquirirem algumas embarcações do Tejo.
Umas levaram-nas para os seus países, outras, aqui não conseguiram desenvolverem a actividade de navegação do Tejo que gostavam, por dificuldades de legalizar as embarcações, refere o Mestre Jaime.
“Com o passar dos anos a legalização das embarcações era quase impossível. Eram tantas as barreiras. Andaram aqui barcos anos que eles não conseguiram legalizar.
Houve varino que vendemos a um inglês, só ao fim de trinta anos, ele conseguiu legalizar para o transporte de 42 pessoas. Um barco que carregava um tráfego local de 40 toneladas de cortiça. Um barco que era uma marca de um postal da Câmara de Lisboa. É inadmissível que estas coisas possam acontecer”, sublinha.

Só as Câmaras vão construindo

“Estou neste estaleiro desde os 11 anos. Estou aqui há 55 anos. Construímos novas embarcações e fazemos manutenção.”, salienta.
Recorda que há dificuldades de passar o saber a novas gerações. Há dificuldades de admitir aprendizes.
“Ou não aparecem, ou não querem. Os jovens não estão vocacionados para isto, e, tinham e têm alguma razão, porque os estaleiros não têm futuro.
A construção de barcos é muito pouco, só as Câmaras, do Seixal, da Moita, de Vila Franca, de Alcochete, do Barreiro é que vão investindo e construindo novas embarcações”. salienta.

DGRM é uma barreira

Mestre Jaime refere que este ano recuperou duas embarcações – “quando cheguei à legalização tive que abandonar, porque era insustentável. A DGRM é uma barreira.”
“Como é que este estaleiro consegue sobreviver. Como é que eu consigo pagara as minhas despesas.Num ano fizemos o barco e depois mais ano e meio para a legalização. Como é isto possível? Como é possível manter este, que é o único estaleiro, que faz barcos de madeira em Portugal? Isto é inadmíssivel.”, disse.

Contam-se pelos dedos barcos que navegam no Tejo

Nos dias de hoje, sublinha contam-se pelos dedos das mãos os barcos que navegam no Rio Tejo. A Moita tem uma embarcação. O Seixal está a dar vida às embarcações trazendo-as para o Tejo, e, está a criar condições para acostagem- “é a única câmara que tem neste momento 24 horas de acostagem de embarcação”.
Vila Franca tem uma e também tem acostagem. Alcochete também tem uma embarcação. Lisboa tem uma canoa pequenina – “quando devia ter o maior símbolo das embarcações”.
“E o resto está, aqui, no estaleiro a apodrecer.”, acrescenta.

Regulamento próprio para estas embarcações

Refere o contributo do professor Carvalho Rodrigues, na formação da ‘Marinha do Tejo’ cujo papel tem sido de relevância para preservação dos barcos tradicionais, com um grande apoio da Marinha Portuguesa.
“Tem que haver um Regulamento próprio para estas embarcações, de forma a facilitar a legalização. Os municípios deviam intervir junto da Assembleia da República. Não podemos continuar sujeitos a estas coisas. Estes barcos não podem ser avaliados como são os barcos que são legalizados e avaliados com base nas leis da União Europeia”, salienta Mestre Jaime.

Património cultural da humanidade

“Temos um boa relação com a Câmara Municipal da Moita que tudo tem feito para divulgar o estaleiro. Temos um protocolo de divulgação, que permite recebermos visitas assíduas. Recebemos pessoas de todo o lado, da Polónia e de vários pontos de Portugal. São grupos com guias para ter conhecimento do que é o estaleiro. Mas eu pergunto: quanto tempo isto vai durar?
A Câmara da Moita está a fazer um bom trabalho para que este estaleiro seja classificado como património cultural da humanidade. Para isso temos que ter aqui escola de formação. Tem que ser cursos de quatro ou cinco anos, sobre tudo o que há para aprender desde o fazer ao navegar”, afirma.

Um ano à espera de vistorias

“O estaleiro, não pode estar sujeito, que passe um ano, ou um ano e meio, há espera que lhe assinem os projectos. Nós construímos os barcos em seis meses, depois leva um ano à espera de vistorias.
É um processo, que parece que é um favor que nos fazem, pessoas que não percebem nada desta matéria, de barcos tradicionais, que foram feitos ao longo de séculos, por pessoas muito humildes, sem a quarta classe e sem nada, mas faziam tudo, a olhos cortavam as madeiras e faziam pela sua imaginação.
Hoje, querem-nos tirar esse saber, temos que ter um desenho, temos que fazer pelo desenho, isso, acho que é uma contradição com aquilo que nós fomos aprendendo ao longo de séculos, de pais para filhos.
Estes barcos saem da nossa imaginação. Nós desenhamos no chão, donde tiramos os primeiros cascos. E depois, temos que fazer um desenho para ficar lá esquecido.
Não vejo o que aqueles desenhos vão ser úteis no futuro, porque ninguém os vai fazer. Ficará a memória encaixotada. Porque, quando chegamos lá e procuramos as provas destes barcos, ninguém as encontra.
Isto acontece comigo e com os meus colegas ao longo de todo o país. Temos conversados uns com os outros, e, da DGRM eles têm medo, todos nós temos medo.”

Estaleiro tem vida todos os dias.

“O que acontece é que as pessoas que faziam os seus barcos, com auto-construção, já não o fazem. Havia nos clubes navais uma certa euforia, as pessoas vinha aqui, eu ia lá, era uma vontade de construir os seus barcos. Isso acabou. É uma desmotivação.
Eles não estão para pagar 3 mil euros por uns desenhos, e depois estar sujeitos a três anos de vistorias. A continuar assim, o estaleiro tem vida todos os dias”, refere Mestre Jaime.

«Oh Jaime, vamos à ‘muleta’»

“Inicialmente quando o presidente da Câmara «Oh Jaime, vamos à ‘muleta’Municipal do Barreiro, Carlos Humberto, apareceu aqui com a ideia de fazer da construção de uma embarcação nova a ’Muleta’, ele, disse-me, que queria também aguentar o varino ‘Pestarola’. Queria manter as duas embarcações.
O ‘Pestarola’ é um barco velho, já muito antigo, tinha que fazer um novo, estávamos a tentar outro bote parecido.
Depois da nossa conversa, arranjei o livro e entreguei à Câmara para ver a construção da ‘Muleta’. Houve entusiasmo da parte do presidente. Houve uma visita, com conversas quase semanais, sobre orçamentos e tudo que era preciso conversar. Ele ficou determinado.
«Oh Jaime, vamos à ‘muleta’». Eu disse-lhe vamos, eu vou-me empenhar no projecto e não vai ficar mal comigo.
Fizemos o orçamento e tratamos de todos os papeis. Foram quase seis meses. Isto tem que ser por concursos. Enfim, assinou-se o contrato.”, refere.

Onze meses para iniciar a construção

“Lá foram os desenhos, que vieram do Museu Nacional de Marinha, de um livro de levantamentos, feito pelo Professor Manuel Leitão e do Comandante Ferdinando.
Fizemos o desenho, fizemos o barco pelo que está descrito no desenho. Nós não precisamos de desenhos para fazer o barco. Mas o engenheiro fez os desenhos, a partir do livro, meteu o processo na DRGM e andamos nisto, onze meses, até vir a ordem para iniciarmos a construção.”, recorda.

Não se fazia desde 1890

“Logo aí, o estaleiro esteve parado onze meses. Porque isto é uma obra para a qual o estaleiro tem que se preparar. Estava tudo preparado, os materiais e não podíamos seguir. Por fim a Capitania deu-nos autorização para avançar. Começámos a trabalhar.
Em seis meses, fizemos uma obra que já não se fazia desde 1890, nesse tempo, nós, completámos a construção da ‘muleta’”, sublinha.

O barco tem estado aqui parado

“Como já tenho problemas com a DGRM para resolver as situações de legalização. Dei à Câmara para ver se a Câmara resolvia os problemas da legalização. Eu fiquei de fora para não ter atritos com essa entidade.
Esta é uma entidade inútil para com estes barcos. Tem feito um trabalho horroroso. Tem-nos dado um desprezo total, isto não pode continuar a acontecer se querem que este estaleiro vá para a frente.
Há um ano, quisemos por o barco dentro de água, mais vistoria menos vistoria, há um ano que estamos à espera da vistoria.
O barco tem estado aqui parado. O barco tem que ter a vistoria”, refere.

Muleta começa a navegar em Setembro

Saliente-se que o processo de vistoria já está a decorrer com normalidade, esperando-se que no próximo mês de Setembro a «Muleta», comece a navegar no Tejo .
“A Autarquia nada tem a ver com este atraso, o problema é da DGRM.”, sublinha o Mestre Jaime.

Um patrimóno arranjado a pulso

“Como é que uma pessoa tem talento, ou tem vontade, em seguir com estes trabalhos para a frente.
De Norte a sul do país contam-se pelos dedos os carpinteiros navais que existem, e, ainda há pessoas que sabem trabalhar neste país, nesta área, mas que já não tem forças para manter, porque estas dificuldades têm desviado as pessoas.
Isto é meu. É um património arranjado a pulso, com as pessoas que aqui trabalham e temos entre todos nós uma ligação muito boa.
Mas, com estas situações, uma pessoa sente-se incapaz de conseguir levar este estaleiro para a frente. Tenho 55 anos de trabalho, chego a uma conclusão que isto não é nada meu, se eu não pagar o estado vem cá buscar, e, afinal de contas que andamos aqui a fazer, querem que nós trabalhemos” , sublinha.

Mas, não vou desistir. Só a morte.

“Aprendi muita coisa com o meu pai, uma delas foi em nunca contar com nada que viesse para melhorar a vida. Sou eu e as pessoas que aqui trabalham que conseguimos. Somos uma equipa com mais de cinquenta anos de trabalho. Olhamos para trás e temos dificuldade me ver o que já vivemos. Andam aqui pessoas, com 40 anos, que estão a trabalhar e interessados. Querem ficar cá.
Eu sei que este estaleiro deve-se à minha capacidade organizativa e ao querer das pessoas que aqui trabalham, com humildade.
É esta humildade, este saber que vai mantendo este estaleiro. Não esperamos nada de fora. Mas, não vou desistir. Só a morte.”, sublinha Mestre Jaime, com lágrimas nos olhos e a sorrir.

S.P.


07.08.2019 - 00:57

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