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Barreiro -Madalena Alves Pereira contra venda da Quinta Braamcamp
Esta ideia que o PS está a fazer isto é qualquer coisa que me custa porque não é verdade

Barreiro -Madalena Alves Pereira contra venda da Quinta Braamcamp<br>
Esta ideia que o PS está a fazer isto é qualquer coisa que me custa porque não é verdade. Na Faculdade de Arquitectura, há 15 ou 16 teses de Mestrado, a versarem sobre o território da Braamcamp-Alburrica nenhuma delas prevê construção para habitação.

. Continuem, continuem, que ainda vão ver o que vai acontecer, não vamos ter 2 milhões e 900 mil, mas muitos milhões para pagar.


Madalena Alves Pereira, ex-vereadora da CMB, eleita pelo Partido Socialista, sublinhou que, há 25 anos, manifestou-se contra o PDM – “o que hoje não consigo perceber é que se defenda, o que lá está, com a realidade social, económica, cultural, patrimonial, que nós temos e conhecemos. Isso é que eu acho que é verdadeiramente anacrónico, fazer-se uma afirmação como o PDM permite e está tudo legitimado. Não, não está”.

Na sede do União Futebol Clube, ontem à noite, realizou-se um debate tendo como tema de reflexão a Quinta de Braamcamp, sendo convidados Pedro Canário, ex-presidente da Câmara Municipal do Barreiro, eleito pela CDU, e, Madalena Alves Pereira, ex- vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, eleita pelo Partido Socialista.
“A Quinta Braamcamp e a sua alienação a coberto do Plano Director, numa perspectiva actual e histórica”, foi o tema que enquadrou o debate que decorreu na sede do União Futebol Clube, promovido pelo Movimento “A Quinta de Braamcamp é de todos!”.

Acção de compromisso com a cidade

Madalena Alves Pereira, na sua intervenção, sublinhou o papel de intervenção e cidadania dos movimentos que desenvolvem a sua acção de compromisso com a cidade, e com a defesa de um património precioso – a Quinta de Braamcamp.
Referiu a importância das zonas ribeirinhas e a necessidade de existir uma estratégia, de valorização da ligação ao rio.

25 anos depois ressuscita-se um debate em torno do PDM

Sublinhou que o actual PDM tem 25 anos, desde a data da sua aprovação, em 1994, estamos a discutir uma situação tendo como referência o PDM.
“A grande argumentação do presidente da Câmara é que o PDM, em termos de unidade operativa de gestão da Quinta de Braamcamp, prevê a capacidade edificativa, para fogos e residentes naquele território. Portanto, 25 anos depois ressuscita-se um debate em torno do PDM, que porventura na altura não o teve, também não vale a pena fazer esse debate 25 anos depois”, disse.
Recordou que a década de 90 não tem nada a ver com o século XXI, particularmente, com a década que estamos a viver no que diz respeito a especulação imobiliária.
Sublinhou que nos anos 90, na área da grande Lisboa a perspectiva era crescimento – “ a ideia era planificar querendo fixar muita população, prevendo rácios de ocupação do território de valores muito significativos”.
Na época, disse, a preocupação não era do ordenamento do território, como nós hoje a temos, não era de preservação ambiental, não era de requalificação de espaços, de edificado, de património cultural – “era uma perspectiva de primeiro acolher muitas pessoas, que estavam a vir para os centros das cidades, o Barreiro foi sempre uma terra de migrantes, e, era, também fazer vias estruturantes, há 25 anos, não havia preocupações como aquelas que nós hoje temos.”
Referiu que nesses anos a discussão de temas como o ambiente, as alterações climáticas, ou preservação do património, não era com a mesma realidade de análise dos tempos actuais.

PDM permite e está tudo legitimado. Não, não está.

Sublinhou que, há 25 anos, manifestou-se contra o PDM – “o que hoje não consigo perceber é que se defenda, o que lá está, com a realidade social, económica, cultural, patrimonial, que nós temos e conhecemos. Isso é que eu acho que é verdadeiramente anacrónico, fazer-se uma afirmação como o PDM permite e está tudo legitimado. Não, não está. Na minha perspectiva não está de todo legitimado. Não está nem como barreirense, nem como cidadã integrando-me num espaço muito mais amplo que é a área metropolitana, em Portugal, ou na Europa, onde, para toda a gente que está atenta, defende-se a preservação do património, reabilitação do edificado. Ter uma ruína não é feio, não é mau, é memória, é história, é identidade, é cultura, ter preocupação com os espaços que têm que ser protegidos por causa das alterações climáticas, porque há, efectivamente uma erosão. O conhecimento, a ciência trouxeram-nos isso tudo.”

Impedir construção ou «privatização» daquele espaço.

“Portanto, 25 anos depois, dizer que está tudo bem porque o PDM permite, não não está, e , não não permite.
Eu, pessoalmente, tendo acompanhado a discussão do PDM, na Assembleia Municipal, no anterior mandato, quando foi apresentado este projecto e votado, a minha preocupação de sempre, era de perceber se o facto do PDM legitimar a tal capacidade edificativa e construção, e a opção politica, à data, era construir ou não. Era que ficasse claro que isso não ia acontecer. Isso, infelizmente, não ficou claro na deliberação que foi tomada”, disse Madalena Alves Pereira.
Recordou que o que foi dito,foi que a Câmara negociou, como pôde, mas não ficou claro que iriam ser desenvolvidos instrumentos de planeamento, no imediato, que impedissem qualquer tipo de construção, ou de «privatização» daquele espaço.
Referiu que há vários estudos para o território da Braamcamp, um deles da ARX, e, neste momento na Faculdade de Arquitectura, há mais de dez estudos – 15 ou 16 teses de Mestrado, todas elas a versarem sobre o território da Braamcamp-Alburrica – “nenhuma delas prevê construção para habitação. Prevêem coisas fantásticas – um Centro de Parckinson; co-habitação de gerações, com espaços para seniores e para miúdos; Centros Interpretativos de Espaços Náuticos. São ene soluções. Nenhuma delas é habitação. Todas elas são equipamentos para a comunidade e fruição do espaço público.Isso tudo é compatível com o PDM, obviamente”.
“Mais, acho que é compatível com a tendência de Planeamento, neste momento, neste século e nesta década que nós estamos a viver. Acho que o PDM, aquilo que nos convoca, aquilo que a realidade nos convoca, é interpretar o PDM, no sentido de acolher estas soluções”, disse a ex- vereadora do Partido Socialista.
Madalena Alves pereira, defendeu a necessidade urgente de revisão do PDM.

Este combate vale mesmo a pena

“A leitura que temos que fazer daquilo que é o território, daquilo que é a nossa comunidade, daquilo que são as nossas preocupações, daqueles que são os nossos valores.
Acho que este combate, e este desafio, que por muitos de vós tem sido liderado, vale mesmo a pena, porque isto tem a ver com a identidade da nossa terra, e com a identidade daquilo que é um passado, daquilo que é uma história e daquilo que é também um presente, até, do ponto de vista da realidade actual isto pode sobreviver, do ponto de vista do clima, do avanço dos degelos, do aumento da quota do mar. Isto pode sobreviver? Os estudos dizem que não. Em 2100, ficará alagado, inundado. Vamos permitir destruir aquilo que é um eco-sistema, do ponto de vista do habitat, que tudo isto seja arrasado em beneficio do betão e do dinheiro para fazer outros investimentos? De resto, que não sabemos exactamente quais, claramente, eu digo que não, todos temos que dizer que não, mas, temos que passar a mensagem com mais argumentos, para tentar convencer, que ainda tenha alguma dúvida”, salientou.

Esta ideia que o PS está a fazer isto é qualquer coisa que me custa

Madalena Alves Pereira, recordou que o Partido Socialista, fez a campanha, em 1997, a falar de questões do ambiente e também da devolução da cidade ao rio, e fez o mesmo em 2001.
Recordou palavras de Leal da Silva, que afirmou – “o Barreiro é credor de todo o país, relativamente ao passivo ambiental, de um século de artilharia pesada a condicionar toda a actividade”.
“Esta ideia que o PS está a fazer isto, eu, sou militante do PS, assumo, isto é qualquer coisa que me custa, porque não é verdade. Há um executivo que é composto por pessoas, que temos que respeitar, mesmo quando elas não merecem ser respeitadas, mas, há uma instituição e um partido que tem um pensamento próprio, que era um pensamento de devolução do rio à cidade, da cidade ao rio, não é de todo, e, tenho a certeza absoluta, que outro presidente, como, por exemplo o foi Emidio Xavier, não seria esta a opção em cima da mesa.
Queria dizer isto de forma clara, porque não devemos confundir, a árvore com a floresta”, referiu.

Partidarizar demais este tema afasta as pessoas

“E, não podemos, parece-me, tirar conclusões, que há uma força politica que ganhou as eleições e que toda gente dessa força, porque essa força está na Câmara, nem toda a gente está com eles, porque não estão. Há muitas razões que levam pessoas a votar, numa determinada forma, num contexto eleitoral.
Partidarizar demais este tema afasta as pessoas, porque nos tornamos reactivos, porque nos tornamos emocionais, essa, aliás, é a linha de argumentação que tem sido defendida pelo executivo, exactamente, em torno deste diálogo emocional, com base que estão contra eles, que estão a fazer o melhor, coitadinhos, e está toda a gente contra nós, e, lá vêem os comunistas outra vez, coisa que não é verdade”, disse.

Discurso da vitimização não deve ser alimentado

“Esse discurso da vitimização, tem estado a servir, mas não deve ser alimentado.
De facto, são os barreirenses, é a comunidade, que se preocupa com este território, com este espaço e se questionam, se essas são as melhores opções e, parece que não são”, acrescentou Madalena Alves Pereira.

CCDR e APL têm que ter uma palavra a dizer

Referiu que a CCDR, em todos os seus estudos, em torno da revisão do PROT da AML, os documentos estratégicos, a primeira linha é a sustentabilidade ambiental, as preocupações com a preservação dos estuários do Tejo e do Sado, com programas especificos, certamente, estão sensiveis para perceber o impacto deste assunto, a própria APL, também tem que ter uma palavra em termos de licenciamento, porque isto é uma área que a condiciona.

Admitindo que há investidores loucos

Outra questão, é o abandono dos prédios, referindo-se ao «Caderno de Encargos» que o presidente da Câmara pretende fazer, onde se refere que vai haver um direito de reversão da autarquia – “haverá um prazo para construir, não constroem e reverte para a autarquia. Feito. Juridicamente isto é perfeito. Economicamente reverte com uma hipoteca atrás, porque qualquer investidor, vai pegar nuns milhões. Admitindo que há investidores loucos, do ponto de vista da intervenção técnica da operação, parece-me que é extremamente dificil. Não sou da área da construção, mas antevejo ene dificuldades, para além de não ser muito atractivo no dia-a-da com nortadas e tudo.
Qualquer investidor vai ter que recorrer a financiamentos bancários, e, a primeira garantia que os bancos vão pedir é o imóvel, o terreno onde vai ser construído”.

A hipoteca reverte com o bem

“Então aquilo que nos pode acontecer, a nós barreirenses, é vendermos este património, pagamos o empréstimo, e, se calhar, ficamos com muito pior onorário que eles pagam. Isto é dramático. Mas, isto é a realidade. Para além de tudo o resto, isto é o que pode acontecer, porque a hipoteca reverte com o bem, isto é um absurdo. Nada nos vai garantir que isto não possa acontecer, caso avance o processo. Esta é uma situação que devíamos sublinhar nas mensagens.
Este é um risco que corremos, que é ficar sem o património, e, ele ao ser devolvido, é devolvido onerado.
Já temos uma série de prédios no Barreiro nesta situação, e depois não avançam. Prédios que estavam em construção, aqui, bem perto do rio, que foram objecto de insolvências. Estão parados. Não se consegue fazer e aquilo também não qualifica nossa cidade, não atrai investidores, nem turismo. Já temos muitos exemplos.
Isto, ilustra melhor aquilo que é o risco, que ficar assim, natural, como está, que não tem mal nenhum.
Continuem, continuem, que ainda vão ver o que vai acontecer, não vamos ter 2 milhões e 900 mil, mas muitos milhões para pagar”, salientou Madalena Alves Pereira.

26.10.2019 - 22:31

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