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reportagem

Paulo Borges no Rotary Club do Barreiro
Estamos à beira de um colapso civilizacional

Paulo Borges no Rotary Club do Barreiro<br />
Estamos à beira de um colapso civilizacional . Vida é o fluxo divino que há em tudo

Paulo Borges, na sua palestra, via on line, numa iniciativa promovida pelo Rotary Club do Barreiro, sublinhou que no pensamento de Agostinho da Silva, a missão de cada ser humano “único, é criar, “trazer a mundo alguma coisa de novo”, por isso para ele viver é como ser “um poeta à solta” que é “livre e criativo”.

Paulo Borges, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, um filósofo que é uma referência no estudo da vida, obra e pensamento de Agostinho da Silva, proferiu uma palestra, via on line, numa iniciativa promovida pelo Rotary Club do Barreiro.

Grande apreço pela cultura portuguesa e pela cultura Ibérica

Paulo Borges, começou por recordar a simplicidade e a pureza de relacionamento humano de Agostinho da Silva, “uma pessoa de grande generosidade”, cuja residência em Lisboa, disse, “era uma tertúlia aberta , uma casa aberta ao mundo”.
Recordou que Agostinho da Silva, nasceu em 13 de Fevereiro de 1906, no Porto, mas sempre considerou que as suas raízes estavam em Barca de Alva, para onde foi viver a partir dos 6 meses. Foi aí que cresceu e ganhou o gosto pela cultura Ibérica – “teve sempre grande apreço pela cultura portuguesa e pela cultura Ibérica”, assim como pela cultura Grega e cultura Romana.

Expulso do Ensino Público

Paulo Borges sublinhou que Agostinho da Silva falava 15 línguas.
Referiu que na Faculdade de Letras do Porto, foi aluno de Leonardo Coimbra e de Hernani Cidade.
Quando lecionava, foi convidado a assinar um documento onde assumia o compromisso que não pertencia a nenhuma sociedade secreta.
Agostinho da Silva, segundo Paulo Borges, nunca pertenceu a nenhuma sociedade secreta, nem teve filiação partidária, mas, recusou assinar o documento, porque não queria perder o direito, caso entendesse, de decidir pertencer a qualquer instituição. Foi, por esta razão, expulso do Ensino Público.

Uma vida de serviço visando contribuir para o bem comum

Paulo Borges recordou que, após ser expulso, Agostinho da Silva, iniciou a publicação dos Cadernos Culturais, opúsculos, que ele escrevia e distribuía. Fazia conferências. Em sequência desta sua actividade de intervenção civica e cultural foi preso. Esteve no Aljube e teve residência fixa. Tomou a decisão de partir para o Brasil, onde viria a fundar cinco universidades e Centros de Estudos.
As suas vivências no Brasil proporcionaram-lhe “uma nova visão do mundo, um novo modo de estar na vida, explorando formas alternativas de viver a vida”, criou comunidades de vida alternativa, cultivou “uma vida de serviço, visando contribuir para o bem comum”, disse Paulo Borges.

Está no mundo para despertar consciências

Recordou que Agostinho da Silva, fazia questão de andar a pé e oferecer o seu ordenado – “é alguém que vive de acordo com o seu pensamento, vive um ideal franciscano”.
Refere que Agostinho da Silva vive com um ideal, procurando por em prática o pensamento. “É um Sócrates português”, um homem que está “no mundo para despertar consciências”.

Pop star nos anos 80

Paulo Borges, salientou que com a emergência da ditadura militar no Brasil, Agostinho da Silva regressou a Portugal, nos finais dos anos 60, inicio dos anos 70.
Nos anos 80, os meios de comunicação social fizeram de Agostinho da Silva, uma figura pública,- “um pop star” - na RTP foram transmitidas as «Conversas Vadias», e, nos autocarros da Carris, liam-se os seus pensamentos e via-se a sua fotografia.
Nos anos 92 a 94, Agostinho da Silva optou por retirar-se – “queria preparar-se para a grande viagem”, preparar-se para “partir deste mundo”.

Civilização um ciclo vicioso que gera insatisfação

Acerca do pensamento de Agostinho da Silva, o filósofo Paulo Borges, recordou o seu interesse pela cultura Geco-Latina, que tinha um ideal helénico, de harmonia entre o humano, o divino e a natureza, dando grande importância ao dominio religioso e espiritual, assim como à vida comunitária – “um estado de sintonia com a natureza e com o divino”.
Recordou que, para Agostinho da Silva a «civilização» é a superação desse modo de vida, passamos a viver em casas, a tribo dá lugar às cidades, a politica é um meio de coação, há a exploração económica, o dominio da mulher pelo homem, subordinação da criação, coloca Deus fora de nós e há a supressão do divino no mundo, esta é, para Agostinho da Silva, a nossa civilização – “um ciclo vicioso que gera insatisfação, uma civilização antropocêntrica”, a qual tem, como “última consequência o modo de produção capitalista”, onde “ficamos reféns do trabalho” e “não vivemos a vida que nos foi dada, gratuita, uma graça”.
Referiu que para Agostinho da Silva “o trabalho não liberta”, apenas “tornou-se uma necessidade”.

Contemplar – Adorar - Amar

Paulo Borges, na sua intervenção recordou que Agostinho da Silva, tem uma visão que o “ser humano deve ter mais tempo livre”, para : Contemplar ( pura experiência da vocação humana, a felicidade do ser); Adorar (a presença do divino em nós e no mundo, o corpo humano o mais belo templo); Amar (estar ao serviços dos outros, energia de centelha divina).

Cada ser humano tem uma missão única

Referiu que para Agostinho da Silva, “cada ser humano tem uma missão única e singular”, e deve descobrir essa missão que tem para realizar, na vida, “andamos em busca” dessa missão escrita na voz da consciência, e para tal tem que silenciar as vozes exteriores.
A voz da consciência segreda no nosso interior “único e irrepetível” que é “nosso”.

Missão de cada ser único é criar

Paulo Borges, sublinhou que no pensamento de Agostinho da Silva, a missão de cada ser único, é criar, “trazer a mundo alguma coisa de novo”, por isso para ele viver é como ser “um poeta à solta” que é “livre e criativo”, com um fundamento espiritual, que tem como referência a mensagem de Jesus Cristo, ele sentiu-se como membro da Igreja Católica, por isso optou por “viver de forma monástica no mundo”.

Vida é o fluxo divino que há em tudo

Essa opção, viveu-a com base no pensamento Medieval : a pobreza ( nunca se considerar dono de coisa alguma, o despojamento); a castidade ( não ser dono de alguém); a obediência ( nunca ser escravo de ninguém, não se possuir a si próprio).
Uma entrega ao divino, viver sem planos para a vida e estar disponível é o pleno da vida – “a vida que me leve para onde entender”, porque a “vida é o fluxo divino que há em tudo”.
Para Agostinho da Silva, a espiritualidade é a vocação de sermos perfeitos, é viver com o fundo mais autêntico de si mesmo”.

Festa do Espirito Santo marca de uma “nova era”

Paulo Borges, abordou a importância da Festa do Espirito Santo, no pensamento de Agostinho da Silva.
Recordou que esta festa é uma marca da cultura portuguesa, desde o século XII, um culto iniciado em Alenquer, que terá vindo de Aragão para Portugal, através da Rainha Santa Isabel, como marca de uma “nova era”, de paz e espiritualidade em todo o planeta. Um culto que tem expressão no Brasil, nos Açores, na Madeira, com muito simbolismo e referências icónicas.
A culto Espirito Santo, tem uma visão ecuménica, aponta o mundo futuro, a importância do diálogo interpretativo – “o espirito é consciência, manifesta-se na consciência”.

Libertar- Banquete Comunitário – Coroação da Criança

Recordou três momentos que integram o culto do Espirito Santo : Libertar dos presos - a reabilitação social, reconciliação social, porque prisioneiros somos todos nós, por isso libertemo-nos do que nos prende; Banquete Comunitário – Serviço, modelo de propriedade, ideal de «não» propriedade, economia de troca; Cerimónia de coroação da Criança – poder à criança, resacralização da infância, rumo alternativo à educação que aposta em transformar a criança em adulto e, assim perde-se a qualidade de criança.

Estamos à beira de um colapso civilizacional

No culto do Espirito Santo, a espiritualidade é criatividade, um encontro com a nossa criança interior.
Paulo Borges, sublinhou que, nos tempos de hoje, falta tempo para contemplar, para criar, tudo isso falta à nossa civilização dominante, permitir podermos contemplar à nossa escala interior, talvez por essa razão, salientou que – “estamos à beira de um colapso civilizacional”.
Esse foi o mote para uma abordagem da temática do V Império, um tema mito e poético, que integra o pensamento de Agostinho da Silva.
Recordou que Luis Camões, António Vieira e Fernando Pessoa, nos seus textos e poemas abordaram o culto do V Império.

A vida é Deus a manifestar-se

Agostinho da Silva é um pensador da Liberdade que sempre defendeu que a função do ser humano é ser livre, sublinha Paulo Borges.
Agostinho da Silva viveu uma vida plenamente vivida – uma vida de conversas, de experiências meditativas, para ele – “a vida é Deus a manifestar-se, o fluir da vida leva-nos”, por isso viver é “agradecer à vida”.

Na próxima segunda feira, dia 8 de Dezembro, Paulo Borges, será de novo convidado do Rotary Club do Barreiro, para uma segunda palestra, via on line, sobre a vida e obra de Agostinho da Silva.

S.P.

04.12.2020 - 20:39

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