Conta Loios

reportagem

Rosto do Ano 2019 Área Saúde -
Saúde Mental no Centro Hospitalar Barreiro Montijo
Houve um aumento muito grande da ansiedade

Rosto do Ano 2019 Área Saúde - <br />
Saúde Mental no Centro Hospitalar Barreiro Montijo <br />
Houve um aumento muito grande da ansiedade . Aumento de consultas por acompanhamento telefónico reduz lista de espera

. Confinamento gerou mais situações de conflito familiar

Os efeitos da pandemia COVID ao nível da Saúde Mental da população afecta diferentes níveis etários. Toca em todas as faixas etárias. Cada faixa etária com as suas particularidades. Os idosos situações de isolamento. A idade activa com situações de desemprego e conflitos familiares.

A área de Saúde Mental no Centro Hospitalar Barreiro Montijo, é uma actividade desenvolvida pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, e, pela Unidade de Psicologia, são duas equipas ao serviço da comunidade com um trabalho meritório que foi, justamente, merecedor da atribuição, de «Rosto do Ano 2019» na área da Saúde.
Este ano, devido às restrições da pandemia não vamos realizar a cerimónia de entrega dos Diplomas, por essa razão, estamos a proceder à entrega individualizada.
Gláucia Lima, Psiquiatra, que dirige o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, e, Fátima Lourenço, Psicóloga, que dirige a Unidade de Psicologia, receberam-nos no Hospital do Barreiro, onde procedemos à entrega da distinção e mantivemos uma breve conversa.

Houve um aumento muito grande da ansiedade

Começámos por procurar obter alguns dados sobre os efeitos da pandemia COVID ao nível da saúde mental.
Gláucia Lima, sublinhou que na fase inicial, em Março e Abril, as pessoas recolheram-se muito, uma situação que contribuiu para um despoletar de situações de ansiedade e de situações psicóticas, devido ao medo da própria situação da pandemia.
“Nesse contexto nós vimos a situação da Saúde Mental ser agravada”, refere Gláucia Lima.
Nesta fase foram dinamizadas linhas de apoio quer aos doentes, quer aos profissionais, as quais, ainda nos dias de hoje, continuam a funcionar, porque com esta situação “houve um aumento muito grande da ansiedade”.

Pessoas que perderam o trabalho

Sublinha Gláucia Lima, que, após o período de confinamento registou-se um agravar da situação porque as pessoas começaram a “ficar cansadas do confinamento, a ficar cansadas de estar em casa e privadas da sua liberdade, cansadas de não ter a sua capacidade estar livremente, nos seus sítios habituais”.
Outra situação, refere a Psiquiatra, que veio agravar a saúde mental foi as “pessoas que perderam o trabalho”. Salientou que, em Portugal, dois em cada três casais diminuiu em cerca de 50% os seus recursos financeiros – “tudo isso teve repercussão na Saúde Mental”.

Aumento de consultas por acompanhamento telefónico

Na segunda fase, numa situação que é comum aos dois serviços, referem que estão a registar-se “situações mais graves, mais complicadas e com mais durabilidade”, porque “os doentes estão mais descompensados”.
Gláucia Lima sublinha que os serviços mantiveram a prestação de cuidados e, até, devido à situação de pandemia – “há um maior número de consultas”.
“Os serviços não foram reforçados humanamente, mas reforçaram a sua capacidade de intervenção”, salienta Fátima Lourenço.
Referem que esta alteração é resultado da redução de realização de consultas presenciais, e, simultaneamente, verifica-se um significativo aumento de consultas por acompanhamento telefónico ou teleconsulta – “hoje telefonamos mais vezes para os utentes, e fazemos um acompanhamento mais regular, por exemplo, doentes que tinham consultas de três em três meses, agora, pela via telefónica, mantemos o contacto com maior regularidade.”

Uma valorização da proximidade com o utente

“Há uma valorização da proximidade com o utente, ao mantermos esta proximidade dos cuidados, isso veio ajudar-nos a manter o doente mais estável. Isso foi muito importante, quer para o doente que se sentiu mais apoiado nesta fase, porque tem acesso ao médico com mais facilidade, quer ao trabalho do psicólogo, quer do psiquiatra”, sublinha Gláucia Lima.
“Mas, mantivemos sempre as consultas presencias, quer as mais urgentes, quer as mais graves, garantimos estas consultas presencialmente. Nunca tivemos a suspensão total das consultas”, acrescenta a psiquiatra.

Uma lista de espera que foi possível reduzir

Apesar de ter existido um aumento de utentes aos serviços de saúde mental, por efeitos da pandemia, esta situação também deu um contributo para aumentar a capacidade de resposta- “tínhamos uma lista de espera e foi possível reduzir e, assim, chamar esses doentes a consultas presenciais com maior rapidez”.
Sublinham que o aumento da pressão e devido ao aumento de consultas por via telefónica que contribuiu para reduzir as consultas presenciais, tal, criou condições para reduzir a lista de espera – “aqui aconteceu ao contrário de outras especialidades, a situação permitiu que a nossa lista de espera baixasse”.

Não desapoiamos nenhum dos doentes oncológicos

Fátima Lourenço, recordou que a Unidade de Psicologia, faz um apoio directo à Unidade de Oncologia, acompanhando um grande número de doentes – “na Oncologia nada parou, neste Hospital nada parou, esteve sempre tudo a funcionar”, sublinha.
Entre Março do ano passado e agora, neste período da pandemia, foram feitas 850 consultas, em Psicologia Oncológica.
“Não desapoiamos nenhum dos doentes oncológicos. Foi uma prioridade, e, o número de consultas foi muito superior ao período homologo do ano passado. Procurámos manter estas patologias sempre muito apoiadas. Nós tentámos que nada ficasse a descoberto”, salienta.
“Não tivemos reforços de recursos humanos, antes pelo contrário, tivemos pessoas que, por um motivo ou outro tiveram que ficar em casa, ou por teletrabalho, ou, até, casos de isolamentos profilácticos. Mas tudo o que fizemos foi com os recursos que temos. Temos aguentado, serenamente e calmamente”, salienta a Psicóloga.

Não tenham medo de vir ao Hospital

Qual a mensagem que consideram importante transmitir á comunidade? – perguntámos.
“É importante dizer que estamos cá, para apoiar a comunidade, que não tenham medo de vir ao Hospital. Se precisarem de pedir ajuda, contactem o Médico de Familia, ou contactem o Hospital. Nós estamos cá, nós somos um serviço que está preparado para atender as pessoas, que está aqui para atender as necessidades da comunidade. Estamos sempre disponíveis”, sublinha Gláucia Lima.
“O Hospital adaptou-se muito bem, o receio que as pessoas têm de vir cá não há razão para existir, não devem ter medo. A nível geral do Hospital, temos funcionado bem, seja em que especialidade for, nesta altura da pandemia, aqui, ninguém, ficou desprotegido.”, salienta Fátima Lourenço.

População mais envelhecida da margem sul

No final da nossa conversa perguntámos se os efeitos ao nível da Saúde Mental são registados ao nível de pessoas mais idosas, ou se afecta diferentes níveis etários.
“Toca em todas as faixas etárias. Cada faixa etária com as suas particularidades, mas, esta foi uma situação que tocou a todos. Os idosos foram muito afectados, devido ao isolamento social e familiar, no caso dos lares são os de maior risco, esses foram
muito afectados. Os idosos têm situações de isolamento, esta situação afectou-os, ficam mais confusos, mais debilitados, mais carentes, porque não são mantidos os habituais laços e contactos com a familia.
Não esquecendo que nós, aqui, no Barreiro, temos a população mais envelhecida da margem sul.”, salienta Gláucia Lima.

Confinamento gerou mais situações de conflito familiar

“Mas, na faixa etária mais jovem e mais produtiva, são afectados pelo problema do desemprego, são as familias desagregadas. A situação do confinamento afectou as relações de familia, as crianças, os adolescentes, os jovens, porque as pessoas ao estarem confinadas aumentaram os riscos de conflitos familiares. É por isso que esta situação afectou todas as faixas etárias, e, cada faixa etária tem os seus problemas próprios”, acrescenta Gláucia Lima.
Fátima Lourenço, refere que a situação do confinamento gerou mais situações de conflito familiar, existindo situações marcadas de alguma violência doméstica, há situações que acabam em divórcios –“o teletrabalho, a permanência em casa, alguns casos de desemprego, outros de situações precárias, isso, levou ao aumento de conflitos familiares”.

Este vírus mundo veio para mudar o mundo

Foi uma conversa que por vezes se cruzou com outras conversas. Por fim, Gláucia Lima comentava que o confinamento inicial gerou uma situação de medo e expectante, depois seguiu-se uma reacção de adaptação.
“As pessoas foram-se adaptando, ainda bem que somos adaptáveis, as pessoas vão se adaptando às circunstâncias. Aí vêm as novas atitudes, a quebra das regras, porque as pessoas vão se adaptando e vão flexibilizando, até flexibilizando o que não deviam flexibilizar.”, refere.
“Aquela atitude inicial muito humanitária das pessoas, tem a ver com aquela situação de vamos todos lutar contra uma coisa que, socialmente, nos ameaça a todos, porque é um mal que atinge a todos. Esta é sobretudo uma reacção de medo.
Depois vem a contraparte que é a adaptação e a flexibilização das coisas.”, sublinha a Psiquiatra.
“A memória é curta”, salienta Fátima Lourenço.
“Há um ano estávamos a falar de um vírus na China, que nem chegaria a Portugal, e hoje sabemos o muito que este vírus veio impor ao mundo”, refere Gláucia Lima.
“Este vírus mundo veio para mudar o mundo, disse Fátima Lourenço, citando o Director da Organização Mundial de Saúde.
Gláucia Lima, acrescentou – “não veio para mudar o mundo, ele veio e mudou o mundo”
Olhamos, olhos nos olhos, escondidos entre as máscaras. Sorrimos.
É isso o mundo mudou...

António Sousa Pereira

VER FOTOS

https://www.facebook.com/media/set?vanity=jornalrostos&set=a.10157620563052681

10.12.2020 - 19:58

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.