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Teatro Extremo – um projeto para a infância ao serviço da cultura
Teatro é das artes mais ecléticas que existe

Teatro Extremo – um projeto para a infância ao serviço da cultura<br />
Teatro é das artes mais ecléticas que existe Fundado em 1994, ao longo de quase três décadas o Teatro Extremo tem vindo a assumir-se como uma referência no panorama cultural do município de Almada, e até mesmo a nível internacional (tendo já apresentado algumas das suas criações em países como França, Alemanha, Inglaterra, Brasil e India).

A cooperação internacional é desde logo um elemento-chave no funcionamento da companhia. Desde 1996 que organiza o Sementes – Mostra Internacional de Artes Para o Pequeno Público. Rui Cerveira, ator da companhia e diretor do festival, destaca esta cooperação como decisiva para expor as crianças a «outras culturas e outras formas de fazer arte, para poderem expandir os seus horizontes e desenvolver o seu espírito crítico».

Através deste foco no público mais jovem, o Teatro Extremo pretende chegar a uma faixa etária que, regra geral, não é tão exposta ao meio e não desenvolve o gosto pela arte. «Queremos mostrar que o teatro não é só uma coisa maçuda e séria, é das artes mais ecléticas que existe», diz Fernando Jorge Lopes, membro fundador da companhia e o seu diretor artístico.
César Melo, um dos atores de «Supertudo», a 54ª criação da companhia, partilha uma história particularmente elucidativa deste fenómeno: «Numa aula, quando expliquei às crianças o que era o teatro, disse-lhes que envolvia pessoas reais, etc. um dos miúdos disse logo que soava a coisa de ricos». Um pensamento sem filtros, dito por uma criança inocente e que expõe bem alguns dos preconceitos associados desde tenra idade ao teatro.

César é o membro mais novo do elenco de «Supertudo», integrando um grupo mais velho (algo anacronicamente numa história de super-heróis), com décadas de experiência no meio artístico. A idade dos atores aliada à natureza física da peça torna ainda mais evidente o papel que a condição física desempenha no bom funcionamento de um espetáculo, e que em muito se assemelha à preparação de um atleta. Afonso Guerreiro, que já trabalhou com Filipe Lá Féria, é perentório: «o nosso corpo é o nosso instrumento de trabalho, e tem de estar bem cuidado».

Foi essa preparação que tivemos oportunidade de acompanhar, quando visitámos durante alguns momentos os bastidores. À chegada, foi-nos pedido que mantivéssemos o silêncio, por forma a não perturbarmos os rituais dos atores. Os métodos são diferentes para cada um – alguns, como Jaime Soares (que interpreta o super-herói principal), aproveitaram para fazer alongamentos no palco. Nos camarins, procuravam concentrar-se e descontrair a ouvir música, beber um café ou fumar um último cigarro antes do espetáculo, não esquecendo os obrigatórios exercícios vocais. Tudo para garantir que às 11h00, hora do «pontapé de saída», os «jogadores» estivessem a postos e prontos para dar o seu melhor.

O horário matinal não foi, naturalmente, a única consequência provocada pela pandemia. Ao longo do último ano, o Teatro Extremo procurou adaptar-se às restrições, realizando sessões ao ar livre e apostando nos conteúdos multimédia. Ainda assim, Fernando Jorge Lopes não esconde que a COVID-19 dificultou a tarefa, e teve impacto nas vidas de artistas e técnicos (entre estas duas vertentes, a companhia emprega cerca de 100 profissionais todos os anos), num cenário transversal a todo o setor da cultura.

E quanto ao financiamento? Lopes é categórico na sua afirmação de que, para um artista, nunca são suficientes: «Não há maior reivindicação para os artistas do que os apoios para a cultura. É uma questão que vem antes da pandemia, e que tem a ver com os interesse dos políticos: se querem um povo culto dão dinheiro, se não querem não dão. Mas ninguém tem dúvidas de que uma sociedade culta é uma sociedade melhor».

Não obstante os desafios que se avizinham no futuro, uma coisa é certa: o Teatro Extremo continuará a trabalhar para levar às crianças a arte teatral, e ser uma peça importante na sua introdução à cultura. Para já a adesão tem sido positiva, com todas as sessões de «Supertudo» a esgotarem, o que demonstra um claro interesse do público neste projeto.
Já do lado dos atores, nem sempre é fácil, mas eles continuarão a desempenhar o seu papel. Antes da sessão a que o Rostos assistiu, a atriz Bibi Gomes dizia-nos justamente que «os sábados são complicados, porque vimos de um espetáculo na sexta à noite e quase não descansamos. Ao fazer este, mentalmente já temos a cabeça no de domingo». Preparados para o próximo espetáculo, sempre.

André Antunes
IPS

23.05.2021 - 00:07

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