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Exposição de Jessica Burrinha a «terra» como matéria prima da Arte
Estamos cada vez mais a destruir a única terra que temos
. AMAC Barreiro

Exposição de Jessica Burrinha a «terra» como matéria prima da Arte<br />
Estamos cada vez mais a destruir a única terra que temos<br />
. AMAC Barreiro<br />
. Exposição «A Ontologia da Terra» a visitar no AMAC – Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, até ao dia 31 de Julho

Jessica Burrinha, faz questão de afirmar que com a sua arte pretende expressar as suas preocupações ecológicas, alertar para os efeitos dos comportamentos humanos, que estão a sufocar a terra, a degenerar o ambiente, destruindo a natureza, na terra e no mar.

Jessica Burrinha, fez a sua formação em Belas Artes, com Licenciatura e Mestrado em Escultura. O seu Mestrado foi baseado em «terra», escultura em «terra» e nas potencialidades e possibilidades da escultura com «terra».
Nasceu no Barreiro, há 27 anos, aqui frequentou a Escola Secundária de Santo André, frequentou - «aquela que a gente chamava a P2” e a Escola Básica ao lado – “foram todas seguidinhas, na Quinta da Lomba”, recorda.

Das Ciências para as Artes

“Desde pequenina sempre gostei de fazer coisas com as mãos, trabalhar manualmente, mas decidi ir para ciências, porque achava que tinha mais emprego em ciências.
Mas, foram os meus pais, os meus ricos pais, já eu frequentava o 11º ano de Ciências, que me disseram: tu devias experimentar ir para artes, porque não estás feliz no teu curso.
E não estava. Então resolvi andar para trás, voltei para o 10º ano de Artes. Fiz tudo de novo.”, comenta Jessica..

Das Exposições Colectivas à primeira individual

Jessica Burrinha, no ano 2015 participou numa exposição de artes, uma colectiva que decorreu na Faculdade de Direito, em Lisboa, foi a primeira apresentação pública dos seus trabalhos. E, a partir dessa presença, ao longo dos anos tem participado em diversas exposições colectivas.
Agora, está no AMAC – Auditório Municipal Augusto Cabrita, esta, a sua primeira exposição individual, intitulada - « A Ontologia da Terra».
A exposição patente ao público, no AMAC, resulta do seu trabalho de estudo e investigação para o seu Mestrado, que teve por base escultura em terra.

A terra é a matéria prima base de tudo

A artista refere que nesta exposição está plasmado o “seu estudo empírico da terra”, aqui faz uma abordagem sobre o que pode fazer com a terra, que tipo de terra pode utilizar, o que se pode construir com a terra.
“A terra é a matéria prima base de tudo, por isso pensei – porque não construir com ela - se já, há milhares de anos, a terra é utilizada para a construção de casas, na arquitectura – a taipa – esta é uma técnica milenar, muito antiga.
Existe uma cidade no deserto, com construções de 38 metros de altura, só com terra. Chamam-lhe a «Manhattan do deserto».
São construções com uma potencialidade incrível, estruturas muito bem concebidas e isso fascina-me.”, sublinha Jessica.

Não consigo deixar a terra por nada

Recorda que na Faculdade fizeram um «workshop de terra», que foi promovido pela Arquitecta Tânia Teixeira, convidada pelo professor, Fernando Quintas, para dar essa formação.
“Eu agradeço-lhe imenso. Se não fosse ele, eu não conhecia a terra”, refere.
Salienta que foi essa formação que despertou o seu interesse, e, afirma que desde então – “não consigo deixar a terra por nada.”
A sua formação de licenciatura foi em cerâmica, durante esses três anos de estudo, trabalhou em cerâmica. Mas, quando em 2017, conheceu a «terra» - “começou aí a minha paixão”.
Refere que tal como o ceramista Martin Rauch diz: quem começa a construir com terra, já não é capaz de parar – “ é mesmo isso que eu sinto”.
“É construir, é fazer, é experimentar, eu sinto que o meu trabalho tem sido, até agora, um processo de experimentação”, sublinha.
Jessica Burrinha, salienta que a exposição no Auditório Municipal Augusto Cabrita – “na minha terra, é a minha primeira exposição individual. Foi um convite. Fiquei contente. Esta sala é espectacular”, refere.

Dar a conhecer a terra que está por baixo dos nossos pés

E, começámos uma «visita guiada à exposição. Refere que na concepção da exposição começou por fazer pesquisas sobre os terrenos do concelho.
A exposição abre com um mapa do concelho do Barreiro, onde estão identificados os locais onde recolheu mostras de terra.
“Comecei por ir retirar várias terras, em vários locais, pedacinhos de terra, que são como mostruário das potencialidades que o concelho tem, das terras que existem, nas suas diferentes freguesias.
Fui buscar terra em pontos específicos, porque de certeza que há outros tons de terra, noutros locais,
O que aqui está exposto são trabalhos feitos de terra – só água e terra compactada.”, comenta,
Do Lavradio, na zona da antiga CUF, onde estão os detritos industrias, restos das pirites, terra contaminada, da zona do Alto do Seixalinho, do Barreiro. De todo, o concelho.
“O objectivo é dar a conhecer a terra que está por baixo dos nossos pés”, sublinha.
Cada um dos «cubos» patentes na exposição foi construído com terra natural, de cada uma das freguesias, percebendo-se pelas suas diferentes tonalidades a diferença entre elas, nota -se um padrão de cores em dégradé.

Estamos a sufocar a terra

Jessica Burrinha tem, igualmente, nesta exposição, trabalhos que integraram as bienais «Arte Espinho» e a «Arte Gaia», onde está a participar, para as quais foi selecionada. Estas são duas bienais de referência nacional e internacional.
Na Bienal de «Arte Gaia» foi distinguida com uma «Menção Honrosa», com a sua peça de escultura intitulada «Sufoco».
“Este trabalho referencia a parte da urbanização das cidades, onde usamos, cada vez mais, o cimento, numa construção desenfreada que predomina o cimento e está a sufocar a nossa terra. Os solos ficam impermeáveis. Não é possível crescer vida, porque estamos a sufocar a terra”, afirma.

Temos que ter sempre esperança

Recorda que nos tempos de pandemia, o ter ficado em casa, deu origem à criação de alguns trabalhos, um deles patente na exposição, a peça, intitulada «Degenerar». Este trabalho já esteve patente em exposições em Vila Nova de Cerveira, e em Salamanca, em Espanha.
“Este trabalho trás alguma esperança. Temos que perceber que mesmo estando a passar um mau momento. Temos que ter sempre esperança que existirão melhores tempos. A natureza prevalece e consegue superar tudo”, sublinha Jessica.
Recorda que tem um trabalho idêntico a esta sua escultura, presente numa galeria em Espanha, em Aljazira, onde foi participar como convidada pelo CCB – “nesse trabalho usava cimento, depois de conhecer a terra converti o meu pensamento para o lado mais ecológico. Estes são trabalhos para estar expostos no exterior. Por serem trabalhos de terra as pessoas acham estranho. Mas são”, comenta.
Sublinha que os seus trabalhos são de «terra pura» - terra e água, compactada - não são de argila, porque a argila já e tratada.

Alertar para os efeitos dos comportamentos humanos

Jessica Burrinha, faz questão de afirmar que com a sua arte pretende expressar as suas preocupações ecológicas, alertar para os efeitos dos comportamentos humanos, que estão a sufocar a terra, a degenerar o ambiente, destruindo a natureza, na terra e no mar.
Os efeitos do comportamento humano já está inscrito na terra, por todo o lado, até na Antártida.

Pinturas que permitem olhar e sentir a terra

Na exposição patente no AMAXC, estão patentes uma série de texturas, 190 pinturas em formato A6, todos estes trabalhos foram pintados com terra - «pintados com terra, a cor que ali está é a cor da terra”.
Nestas pinturas as pessoas podem observar ao pormenor, olhar a cor, sentir a textura.
Aqui estão expostas pinturas que permite olhar a terra – “como quem olha através de mini janelas, e vê os pormenores de sitios geológicos, os sitios para onde eu olhava e vi esta extratificação muito pequenina. Há arribas, onde, quando olhamos é visivel essa diversidade. Gostei de apresentar, assim, nesta pinturas esse olhar para o pormenor. Um olhar que proporciona um zoom para vermos o que existe dentro da terra”.

As Cartas perdidas no tempo

Outro trabalho, patente no AMAC, esteve exposto no Museu Militar, numa exposição onde cinco mulheres, apresentaram trabalhos sobre a guerra.
Recorda que nessa exposição construiu um muro, de um metro e 80, onde compactou terra com cartas nela integradas – “cartas da guerra que nunca foram entregues, escritas por ex-combatentes e familiares. Cartas que nunca forma entregues. As Cartas perdidas no tempo”, refere .
Acrescenta que – “o trabalho é intitulado «Missão Cumprida», o título de um livro de poemas publicado pelo seu avô, que esteve na Guerra Colonial, sendo esta escultura uma homenagem ao seu avô.
“Esta peça é o que restou dessa exposição”, afirma, Jessica Burrinha, recordando que produz trabalhos, a partir de trabalhos que são destruídos e reconstruídos noutros trabalhos.
“É uma reciclagem, é como em tudo na vida, nós crescemos, há sempre um ciclo, morremos”. salienta.

Mostrar que com a arte é possível provocar e chamar a atenção das pessoas

No final da nossa conversa que foi fluindo no decorrer da «visita guiada», Jessica Burrinha, dizia que a exposição estava a correr bem - «já consegui vender alguns trabalhos, isso é óptimo, porque viver de arte é muito dificil».
Sublinha que através dos seus trabalhos, nas mais diversas exposições, procura – “continuar a mostrar que com a arte é possível provocar e chamar a atenção das pessoas. É isso que eu sinto que arte é, ela tem que ter algum significado, ajudar as pessoas a perceber que temos que mudar a nossa mentalidade e temos que evoluir para um lado mais ecológico, um pensamento mais ecológico porque o planeta está saturado. Estamos cada vez mais a destruir a única terra que temos. É esta mensagem que quero passar às pessoas, é isto que quero continuar a fazer e a mostrar com o meu trabalho”, afirma.
Foi uma agradável visita à exposição. Um encontro com as texturas e com as tonalidades da terra. Uma exposição que nos permite sentir a terra, descobrir a terra, e, afinal, alertarmos para a importância de amarmos a terra.
Obrigado Jessica, pela lição sobre a terra.

António Sousa Pereira

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03.06.2021 - 00:03

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