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reportagem

António Gonçalves Ventura, Historiador
Coina foi um centro de decisão nos primeiros anos de formação de Portugal

António Gonçalves Ventura, Historiador<br>
Coina foi um centro de decisão nos primeiros anos de formação de Portugal . As naus dos «Gamas» não foram construídas nas margens do Coina

. Alhos Vedros, em termos económicos, em termos estratégicos, em termos logisticos, não foi um centro de decisão nos primeiros anos da formação de Portugal.

António Gonçalves Ventura, historiador, no decorrer da apresentação do seu livro «Os Concelhos Ribeirinhos da Margem Esquerda do Estuário do Tejo e a Cidade de Lisboa nos Sécs. XIV-XIX» sublinhou que as naus dos «Gamas» não foram construídas nas margens do Coina, esta é uma certeza, que deve ser corrigida em informações oficiais da Câmara Municipal do Barreiro.

António Gonçalves Ventura, recordou que a sua obra é uma antologia de textos, alguns com alguma complexidade, porque são textos de comunicações, outros são textos inseridos na revista «Alliusvetus» e no jornal «O Rio», tendo como ponto de interesse comum o facto de abordarem matérias relativas ao antigo concelho de Alhos Vedros e concelho da Moita, territórios que se estendiam para lá da actual realidade geográfica.

História local não existe

O historiador salientou que pretendia falar de história, mas não pretendia falar de “história de..”, porque, no seu ponto de vista “história local não existe”.
Referiu que Alhos Vedros é uma comunidade onde há muitas pessoas interessadas na “história local” e “tentar perceber como se escreve a história”.
“A história procura a verdade, no entanto está cheia de meias verdades, e muito quando se trata desta banda”, disse.

Coina principal Porto de ligação

Deu como exemplo quando se fala da “centralidade de Alhos Vedros na região”, sublinhando que na sua investigação não encontrou documentação que justifique que – “Alhos Vedros, em termos económicos, em termos estratégicos, em termos logisticos, que fosse o centro de decisão, nos primeiros anos da formação de Portugal. Encontro sim Coina. As terras que mais se desenvolveram foram as terras que braços de rio penetravam pela terra dentro”, disse.
O historiador referiu que, Coina era o principal porto de ligação entre Azeitão e Setúbal, e até de Sesimbra, pela navegabilidade do seu porto, que entrou em decadência com a redução da navegabilidade.

Alhos Vedros era o centro Administrativo

Recordou que Alhos Vedros desenvolveu-se ao mesmo tempo que Coina, mas teve outra função, foi-se constituindo como centro Administrativo e um centro social.
“O extenso concelho de Alhos Vedros tinha muita gente da velha nobreza de linhagem”, disse.
Referiu que o porto de Alhos Vedos, antes da instalação da industria corticeira, não teve uma função regional, foi sempre mais utilizado como porto regional a Moita.

Importância económica de Alcochete e Moita

Na sua opinião tem existido uma valorização do papel de Alhos Vedros na região, ao nível económico, que não se prova com documentação.
Recordou que no que diz respeito a madeira, a lenha, ou o carvão, existiam guerras e assaltos entre comerciantes, por exemplo, porque esses produtos vinham para a capital, oriundos do Algarve, de Abrantes e de Coimbra.
Estes produtos da «outra banda», se inicialmente existiam com abundância foram-se esgotando, sublinhou a importância do porto da Moita, e, que no século XVII, Alcochete era o concelho que fornecia mais lenha para Lisboa.

O sal na economia da «outra banda»

António Gonçalves Ventura, no que respeita à produção do sal, existiam nos século XIII, XIVe XV no Ribatejo três grandes núcleos salineiros, um junto a Alcochete, Alhos Vedros e Lavradio, mas no século XVI o centro de produção é no Rio Sado.
Recordou que no século XVII escasseava o sal em Lisboa, porque existia muita venda do produto por mercado negro, e com criação da «Roda do Sal», por Setúbal. Tudo isso teve forte influência na produção e no negócio do sal “nesta banda”.

As naus dos «Gamas» não foram construídas nas margens do Coina

Outra temática abordada pelo historiador, foi a existência de estaleiros na região, sublinhando que sendo provada a existência de estaleiros, não pode ser provada que a sua dimensão os coloca ao nível da «Ribeira das Naus», de Lisboa, como tem sido defendido em escritos na imprensa local.
O historiador contestou que se defenda que a «verdadeira Ribeira das Naus» se situava na margem direita do Rio Coina, no actual concelho do Barreiro, e não em Lisboa.
Por essa razão, considerou que não é verdadeiro e que isso não devia ser divulgado, como ainda consta nos sites da Câmara Municipal do Barreiro, que as naus do «Gamas» foram construídos nas margens do Coina.
Isto é história, o resto são histórias que cada um conta à sua maneira, sublinhou.

Fornos de Biscoitos em Tavira

Quanto aos Fornos de Vale de Zebro, António Gonçalves Ventura, referiu que estes não foram os únicos a funcionar na produção de biscoitos, referiu documentação sobre a existência de «fornos de biscoitos», na vila de Tavira, em 1405, que foi dos pontos mais importantes no apoio aos descobrimentos dos portugueses, refutando que se defenda que os Fornos do Vale de Zebro foram os primeiros a funcionar na produção de biscoitos, existiam outros no país.
Referiu que os Fornos de Vale de Zebro foram construídos por razões estratégicas, pela existência de uma rede de moinhos que produziam farinha e pela existência de lenha na região.

O trabalho do historiador é organizar a memória

A história busca a verdade e a história é tão complexa, sublinhou António Gonçalves Ventura, referindo que ao longo de muitos anos de estudo continua a interrogar-se: O que é a história?
Referiu que a “história é passado”, mas, “nem todo o passado é história”, acrescentando que “o passado só é história quando se torna objecto da história, não posso ter como objecto da história o passado todo, ninguém tem, não pode ter, tem que se definir um objecto, e, este é um problema em relação aos historiadores e aos filósofos da história – o objecto e o método”.
Referiu que “história é memória”, mas, acrescentou que “memória é história desorganizada”, “a memória é história suja”.
“O trabalho do historiador é organizar a memória e limpá-la, só assim se torna ciência”, afirmou.

História é um paradoxo

Sublinhou que a “história não é um fim, a finalidade não é conhecer a história, a finalidade é compreender o presente”.
Recordou que a “história é um paradoxo, porque quer ser objectiva e não pode sê-lo, quer ser actual não pode ser, porque quer transportar o passado para o presente, porque a história também é presente, porque o passado é sempre analisado pela perspectiva do presente, e segundos os interesses do presente, mas não pode sê-lo, no fundo a história acaba por ser um paradoxo que exige muito trabalho e muita atenção”.

Os documentos são sacos vazios

António Gonçalves Ventura, referiu que a história faz-se com documentos, mas “os documentos são sacos vazios”. Um documento tem que ser interpretado, “mas não há documentos inocentes”.
“Não há história sem historiador, o historiador tem que funcionar como um tecelão. O tecelão não é aquele que planta o linho ou que semeia o linho. Não é o que cria os carneiros, ou que fia a lã. O tecelão é aquele que lhe colocam os fios e ele produz a peça.”. salientou.
“Há uma grande confusão entre a história e a memória”, referiu e alertou para a necessidade de se separar as águas entre o que é história e o que é memória – “nem tudo é história, porque se tudo fosse história a história não existia”, disse.

António Sousa Pereira

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04.06.2021 - 00:43

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