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Arlete Cruz, vereadora responsável pela área do Património na iniciativa de «Os Vultos»
Estamos abertos a estudos e a apoiar a criação de Centros de Investigação

Arlete Cruz, vereadora responsável pela área do Património na iniciativa de «Os Vultos» <br />
Estamos abertos a estudos e a apoiar a criação de Centros de Investigação . Neo- realistas e anarquistas, são duas correntes que foram perseguidas pelo fascismo, mas, agora, também pela democracia, o que é lamentável

. A obra de Jorge Teixeira, é pouco conhecida, até pelos barreirenses, e grande parte da sua obra continua inédita, sublinhou António Moreira, da associação «Os Vultos», no decorrer da sessão da sessão de apresentação dos Cadernos : «NOVA SÍNTESE», que faz uma abordagem do tema “ANARQUISMO, INSUBMISSÃO e INCONFORMISMO".
Arlete Cruz, vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, na sessão assumiu o compromisso de fazer esforços, para caminhar no sentido de se avançar com um Museu Municipal, em parceria com associações, como »os Vultos», e outras, assim como ao nível universitário.

Ontem à tarde, no Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, a associação Vultos, promoveu uma sessão de apresentação da edição temática dos Cadernos : «NOVA SÍNTESE», que neste número faz uma abordagem do tema “ANARQUISMO, INSUBMISSÃO e INCONFORMISMO".
A revista é uma publicação das Edições Colibri em colaboração com o Museu do Neo Realismo/ Associação Promotora.

Criar memória futura

Luis Victorio, da associação Vultos, na abertura da conferência, sublinhou que esta iniciativa se insere nas dinâmicas da associação que pretende deixar um legado para os vindouros, com a finalidade de “criar memória futura”.
Lançou o apelo aos barreirenses que nos sótãos das suas casas têm guardadas documentação importante para preservar a memória que procedam à entrega desse material ao «Espaço Memória», da Câmara Municipal do Barreiro, ou emprestem para digitalizar.

Colocar Jorge Teixeira na dimensão nacional

Carlos Bicas, da associação Vultos, que moderou o debate referiu a importância do conteúdo da revista «Nova Síntese» porque ao longo dos tempos sempre houve uma barreira entre o neo-realismo e o anarquismo na arte e literatura, e, através dos estudos publicados nesta revista é possível saltar barreiras e construir pontes.
E referiu, que no conjunto de textos que integram a revista constar um trabalho sobre o barreirense Jorge Teixeira, de autoria de António Moreira, membro da associação Vultos, que desta forma coloca Jorge Teixeira, num patamar de abordagem literária de âmbito nacional.

Neo-realistas e os libertários têm várias coisas em comum

António Mota Redol, filho de Alves Redol, Director – Adjunto da revista «Nova Sínteses», na sua intervenção referiu que pode existir quem pense que numa revista sobre neo-realimo não faz sentido publicar estudos sobre escritores chamados Libertários ou Anarquistas.
Acrescentou que “os neo-realistas e os libertários têm várias coisas em comum, a primeira coisa que têm em comum é que a Universidade não lhes liga nenhuma, por isso hoje, não existe uma tese sobre Ferreira de Castro, que não seja sobre a ecologia, não existe nenhuma tese de doutoramento sobre Alves Redol, não existe nenhuma tese de doutoramento sobre Manuel da Fonseca, sobre Fernando Namora, sobre Mário Dionisio, e de qualquer de outros neo- realistas, como não existe, dos anarquistas, são duas correntes perseguidas pelo fascismo, que o foram, mas agora pela democracia, o que é lamentável”.
Recordou que “os anarquistas e os marxistas, desde o principio do século, tenham tido grandes divergências e, até por vezes, andado à tareia uns com os outros, o facto é como escritores isso não aconteceu, os escritores foram sempre cordiais. Amigos, e, até, participaram em muitas coisas em comum”, daí a importância da edição desta revista.

Esta é a geração do romance em Portugal no século XX

Ricardo António Alves, Director do Museu Ferreira de Castro, em Sintra, Coordenador da edição do Caderno Nova Síntese “Anarquismo, Insubmissão e Inconformismo”, sublinhou que “os movimentos não nascem de geração espontânea, nascem de oposição e nascem de continuidade”, para acrescentar que entre os escritores neo-realistas e os anarquistas-libertários, para além da cordialidade “existia confluência na acção”, nomeadamente, na oposição ao estado Novo.
Recordou que Ferreira de Castro um «comunista-libertário», participava em colectâneas com neo-realistas. Era um escritor mais velho e de grande relevo, que foi um escritor “permanentemente libertário”.
Afirmou que no campo do romance, esta é principal geração do romance português do século XX, aquela que nos deu Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Virgílio Ferreira, Carlos Oliveira, só para falar na 1ª geração – “esta é a geração do romance em Portugal no século XX, e a geração neo-realista, o resto é para distrair”, disse.

Eça de Queirós foi acusado de forma leviana

Recordou que o anarquismo entrou em Portugal, através Ferrer Neto Paiva, professor de Antero quental e Eça de Queirós, um homem que lia atentamente Proudhon, e, “sabemos como foi importante o anarquismo proudhoiano, tanto para Antero Quental, como para Eça de Queirós.”
Na sua intervenção, sublinhou que Eça de Queirós, foi acusado de forma leviana que no fim da sua vida, se ter aburguesado e ter deixado para trás, as suas preocupações da juventude – “isso é completamente mais que erróneo, é errado, é uma calúnia”.
Eça de Queirós manteve sempre o mesmo nível de preocupação, quer social, quer ético, um escritor da liberdade e da regeneração social, disse.
Sobre a revista salientou que esta é um contributo para despertar à atenção para a expressão das várias correntes libertárias que existiram na cultura portuguesa, que foram percursoras, correntes de oposição ao salazarismo, com convergências e divergências com outras correntes de oposição, que se tornaram caminho comum que vai desembocar no neo-realismo e noutras manifestações e noutras correntes artísticas.

Esmagar a memória e a reconstrução de uma nova cultura

Paulo Guimarães, Professor de História na Universidade de Évora, referiu que uma das coisas que aconteceu, após o 25 de abril, foi a descoberta por uma geração, onde o marxismo era hegemónico, de uma geração sindicalista.
O sindicalismo, o movimento operário em Portugal não nasceu em 1919, no princípio do século já se escreviam histórias do sindicalismo em Portugal, com a presença de várias correntes socialistas.
Recordou que a dimensão social do movimento social critico e alternativo, que deu lugar ao projecto «mosca», começou com antigos militantes que se juntaram e deram origem à criação Centro de Estudos Libertários - Arquivo Histórico Social, que foi integrado na Biblioteca Nacional.
Na sua opinião o conteúdo da revista «Nova Síntese», sobre este tema, “deve ser lido como um desafio para as pessoas explorarem este território que foi completamente esquecido”, neste contexto, salientou o seu interesse foi demonstrar que este movimento libertário, era um movimento moderno, nada tinha a ver com pioneirismo de camponeses, tinha a ver com o facto de haver uma sociedade civil muito dinâmica, com associações por todo o lado, de todo o tipo, filarmónicas – “o país estava cheio de uma sociedade civil cheia de vitalidade”.
Após o 28 de Maio, registou-se por parte da ditadura, o querer – “esmagar esta memória e a reconstrução de uma nova cultura, a criação de homem novo, não do comunismo, mas um homem novo do salazarismo”, uma situação de repressão terrível, de perda de memória e de regressão, que se viveu no período da ditadura.
Na sua intervenção sublinhou o contributo dos jornalistas, que na cobertura das lutas operárias, deram uma dimensão cultural dos acontecimentos e na sua relação com o mundo sindical – “operários tipógrafos e operários jornalistas, de forte dimensão autodidacta”.

A obra de Jorge Teixeira é pouco conhecida até pelos barreirenses

António Moreira, Historiador da associação Vultos da Nossa Terra, do Barreiro, autor do texto sobre a vida e obra do barreirense, que nasceu em 1898, escritor, poeta, dramaturgo e sindicalista Jorge Teixeira. Era filho de José Teixeira de Sousa, maquinista dos Caminhos de Ferro, republicano, que integrou a Loja maçónica »Esperança do Porvir», fundador do primeiro jornal no Barreiro, com característica de classe «O Raio».
Jorge Teixeira foi ferroviário, foi circulando pela via, esteve em Évora, onde publicou um livro de poemas.
No Barreiro dirige o jornal «Sul e Sueste», um jornal de classe, um jornal do Sindicato, mantendo ligação com destacadas figuras operárias. Esteve ligado ao grupo de teatro liderado por Herculano Marinho, que levou a cena a sua primeira peça. A sua peça de teatro “Lágrimas”, foi levada a cena por diversas localidades ao longo da linha sul e sueste.
Recordou a importância da sua colectânea de contos – “Vida Tenebrosa”. O trabalho de Jorge Teixeira mereceu a publicação de uma critica, de Jaime Brasil, no jornal «O Globo».
Salientou que a obra de Jorge Teixeira, é pouco conhecida, até pelos barreirenses, e grande parte da sua obra continua inédita – “ele escreve compulsivamente”, disse.
Foi publicado pela Câmara Municipal do Barreiro – “O Barreiro que eu vi”, memórias da sua infância e juventude. Obra que a associação Vultos pretende reeditar.

Há muito a fazer em termos de história local

Arlete Cruz, vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, responsável pela área do Património, presidiu à conferência, no final sublinhou recordou que ao longo dos anos foram feitos vários estudos sobre a história do Barreiro.
Recordou a existência de vários espaços dedicados a preservar a memória – “há muito trabalho feito”.
Comentando as opiniões que defenderam a importância de existir um Museu Municipal, a autarca recordou que, passados 48 anos - “vamos lá ver, vamos pensar em conjunto, num Museu Municipal, porque Roma e Pavia, não se fizeram num dia, e, sem em 48 anos não se fez um Museu Municipal, agora temos que começar a pensar, ver um espaço, trabalharmos, esta é uma matéria que me preocupa. Temos muita coisa. Falta-nos muita coisa. O Caminho faz-se caminhando”, disse.
Arlete Cruz, expressou a sua preocupação por os jovens de hoje não escolherem os Cursos de História ou Filosofia.
“Há muito a fazer em termos de história local. Nós estamos abertos a estudos e a apoiar a criação de Centros de Investigação”, afirmou.
A vereadora sublinhou, na sua nota final, referiu não ser dada a compromissos, como tal não assumia o compromisso de avançar com um Museu Municipal, mas, assumia o compromisso de fazer esforços, para caminhar nesse sentido, em diálogo e parceria com associações, como «Os Vultos», e, também em parcerias ao nível universitário.

“Manuel Cabanas entre os seus” de Jorge Morais.

Na sessão foi anunciado, por Carlos Bicas, que dia 27 de novembro, a associação Vultos, vai lançar um livro com o título: “Manuel Cabanas entre os seus”, de Jorge Morais.
A edição desta obra insere-se na comemoração dos 120 anos do nascimento do mestre Manuel Cabanas.

António Sousa Pereira

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06.11.2022 - 21:37

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