reportagem

Arte Viva estreou a peça “O Feio”
O mercado e a procura as marcas que motivam a cidade do consumo

Arte Viva estreou a peça “O Feio”<br>
O mercado e a procura as marcas que motivam a cidade do consumo<br>
A Arte Viva Companhia de Teatro do Barreiro, ontem à noite estreou a peça “O Feio”, de Marius Von Mayenburg, com encenação de Carina Silva.
Sem qualquer outro comentário quero começar por deixar uma nota, uma simples sugestão, não perca a oportunidade de até Janeiro agendar uma ida ao Teatro Municipal do Barreiro, onde poderá viver momentos agradáveis e divertir-se com este espectáculo.

Uma peça marcada por uma encenação criativa, simbólica, que dá espaço para que as cenas decorram com fluidez no espaço cénico, e deixa ao espectador a liberdade de imaginar os contextos, quer citadinos, quer habitacionais, onde num jogo de espelhos entre a imaginação e a memória tudo é possível criar e construir.

Uma encenação que pode fazer-nos pensar a cidade de betão, prédios de quarteirões que se repetem, em cores e formatos, caixotes, por onde os seres humanos vagueiam em busca de si mesmos – eus que são os outros eus - a cidade dos consumos que se consome, até à ansiedade de rotinas, igualitárias, de modas e modelos. Uma encenação que coloca no espaço cénico 7 espelhos, talvez um número do acaso, ou talvez não, pois, esse, pode ser o número dos dias de uma semana, da rotina que se faz cansaço, esse tempo que é percurso de vida individual e colectivo. Semana a semana, na roda do tempo.

É por tudo isto que considero que o texto desta peça tem duas dimensões essenciais – uma psicológica e outra sociológica.
Ou seja, a peça permite-nos pensar o macrocosmos da cidade e o microcosmos de cada individuo que faz cidade. O mundo exterior e o mundo interior. Como diria Freud, o ego e o superego.

Ali, podemos pensar a perda de identidade de cada um, na forma de estar e sentir a cidade, que, de certa forma, é o ponto de partida para a perda de identidade da cidade. Ou a perda de identidade de uma cidade, quando ela se transforma num mero jogo de espelhos. Um lugar onde cada um olha para o lado na procura não se si, mas do outro igual.

Uma cidade onde cada um tem o seu espelho para se encontrar consigo e com um modelo que é “vendido”, de um “produto”, uma “marca”, um “foco”, essas generalidades emocionais através das quais somos motivados a consumir, a encarnar valores, estereótipos, coisas que encarnamos na busca do sucesso, do negócio e da conquista do mercado.

Afinal, o mercado é a marca desta cidade. O mercado acaba por envolver e engolir todas as personagens, até ao abismo, de todas as incertezas, que entre galhofas e risos, um dia, deitam-se no chão das lágrimas.

A cidade é uma cadeia de consumo, uma fábrica que fabrica rostos e emoções. A cidade é um tempo que tudo decompõe, com bisturis de marketing e palavreado, o objectivo é vender, na realidade ficcional, o importante é ter “uma cara que venda”, pode vender sabonetes, um produto computacional, palavreado que ninguém entende mas, o interesse final é esse – vender.

Fica claro que a vida é uma questão de procura, por essa razão, tudo o que é rotulado de feio, deve mudar e transformar-se. O dado adquirido, sem dúvida, é que o que era feio, agora, fica melhor que aquilo que estava. O belo é o negócio.
Este é o texto e o contexto que senti, por dentro nos diálogos, nos personagens, na interpretação, na musicalidade e na encenação.

O espaço cénico marca pela simplicidade, de forma subtil, desconstrói o espaço urbano e o interior de cada habitação, a encenação enquadra um pensamento critico, irónico, que não é meramente um contexto teatral, é sociológico.
As cidades que são o mercado imobiliário, que esquarteja até ao limite o território. Em quarteirões e caixotes.

Por outro lado, os diálogos permitem viajar por dentro de uma realidade consumista, personagens feitas de estereótipos, de artifícios, de falas inúteis, que fazem rir e sorrir, interiorizar e pensar a vida.
Sentimos o cansaço das rotinas e do palavreado inútil. As virtudes humanas são partilhadas pela beleza exterior. Os diálogos denunciam a crueldade das relações humanas. As relações do poder. As relações humanas. O culto da imagem. A ansiedade, no limite a depressão.

São interpretações excelentes. Rui Félix, o grande veterano, enche o palco da sua energia e eloquência. Como sempre brilhante. Ricardo Guerreiro assume as personagens com dignidade, quer na sua dimensão dramática, quer na sua dimensão de comédia.
Vítor Nuno uma interpretação marcada pela versatilidade que enriquece a personagem.
Rita Reis, tem uma interpretação de alto nível, sente-se que se entrega ao seu papel de corpo e alma, contracenando com vivacidade e deixando sua marca inscrita na peça, com grande beleza quer ao nível da dicção, quer na estética corporal.
Estão todos brilhantes. Adorei, porque pelas suas dinâmicas prendem-nos ao texto, prendem-nos à dimensão psicológica das vivências das personagens.

Esta é uma peça que vive da dimensão filosófica do texto, que lhe dá os contornos sociais, e, naturalmente da energia das interpretações, que lhe dão a dimensão psicológica.
A encenação dá o enquadramento estético, ao texto, aos intérpretes e, com simplicidade, permite fluir a comunicação e duplicidade dos personagens.

A música, que me pareceu original, consubstancia de forma plena as circunstâncias, envolve o espectador numa sonoridade que, de forma brilhante, vai ao encontro das palavras e das situações. Parabens a Fast Eddiei Nelson.

A iluminação, é dinâmica, no jogo de contraluz, de pontos de intensidade e trevas, num ritmo que acompanha as marcações e contribui para criar uma dimensão plástica que, por um lado, conduz o olhar do espectador, por outro, contribui para sincronizar os movimentos dos personagens no espaço cénico. Não são acasos, de apagar e acender, um foco aqui, uma sombra ali, são interpretações do espaço no contexto da encenação, que começam ainda os espectadores estão a entrar na sala, com actores na penumbra a vigia, em silêncio, a cidade lá fora..

Parabéns à Carina Silva, a maestrina desta sinfonia teatral, um teatro moderno que, com muita sobriedade e beleza intelectual, deixa, através do riso e do siso, a mensagem que o teatro é, foi e sempre será uma forma de pensar e sentir o tempo que vivemos. Obrigado!

António Sousa Pereira

FICHA TÉCNICA

Autor Marius von Mayenburg
Tradução Rodrigo Francisco

Encenação Carina Silva
Interpretação Ricardo Guerreiro, Rita Reis, Rui Félix e Vítor Nuno
Música Fast Eddie Nelson
Cenografia Carlos Guerreiro
Figurinos Ana Pimpista
Assistência Encenação Catarina Santana
Luminotecnia João Júnior Oliveira
Operação Técnica Maria Inês Santos
Design Gráfico Carlos Guerreiro
Vídeo e Fotografia de Promoção do Espetáculo Cláudio Ferreira
Produção Executiva Catarina Santana
Apoio Cenográfico António Santinho
Apoio Geral João Henrique Oliveira

92ª produção da ArteViva - Companhia de Teatro do Barreiro

No Teatro Municipal do Barreiro
Sessões às sextas e sábados, às 21h30
Reservas: 910 093 886 e/ou geral@arteviva.pt
Bilhetes à venda em arteviva.bol.pt

11.11.2023 - 02:20

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2024 Todos os direitos reservados.