reportagem

Historiador António Ventura no Barreiro
Uma conferência sobre as relações entre Maçons e Comunistas

Historiador António Ventura no Barreiro<br>
Uma conferência sobre as relações entre Maçons e Comunistas . A Maçonaria nunca foi proibida em Cuba

Em Portugal, a Maçonaria foi proibida em 1935, os seus bens foram confiscado e Palácio Maçónico foi entregue á Legião Portuguesa.
"Comunismo é um corolário da maçonaria, maçonaria e comunismo no presente momento histórico, integram-se na realização do mesmo ideal”, era o que se escrevia em Portugal, em 1937, referiu António Ventura.

António Ventura, autor do livro «A luz vinha do Oriente – Comunistas e Maçons em Portugal (1919 – 1936) marcou presença no Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, para apresentar seu livro e proferir uma conferência subordinada ao tema «Comunistas e Maçons. Como a água e azeite?».

Avós foram maçons e mais tarde comunistas

Esta iniciativa foi promovida pela Associação Vultos da Nossa Terra, representada no evento por Carlos Bicas, o qual na abertura salientou que o tema proposto para a conferência era uma provocação com o objectivo de estimular o debate de ideias e reflexão sobre um período da história de Portugal que, disse, foi um ciclo de mudança.
O representante de «Os Vultos», deu a conhecer o percurso biográfico de António Ventura, e, salientou a importância da obra do historiador na abordagem da relação existente entre comunistas e maçons.
Carlos Bicas referiu estarem presentes, ali, no auditório, pessoas cujos avós foram maçons e mais tarde comunistas, referindo que esta é temática que está abordada no livro, sendo tema da conferência.
António Batista Lopes, da Editora Âncora, que publicou a obra apresentada salientou que, esta, é o primeiro número de uma coleção que a editora vai lançar com a coordenação de António Ventura – “uma honra para a nossa editora”.

A investigação é a matéria-prima

António Ventura, ao abrir a conferência lembrou o primeiro dia que veio ao Barreiro, num 1º de Maio de 1971, - “na época tinha 17 anos, recordo de ver a GNR na rua, enfim, aquele ambiente, que muitos recordam”.
O historiador explicou as razões que o motivaram a escrever este livro, salientando que em primeiro lugar foi o facto de ser um tema que nunca tinha sido estudado, mas que não fica esgotado com o seu livro – “diziam-se umas coisas, escreviam-se outras, eu pensei que era, talvez conveniente aprofundar. Gosto de escrever as coisas a partir de uma investigação, há quem goste de escrever, dispensando a investigação. A investigação é a matéria-prima, a partir da qual tiramos as conclusões”, disse.

Parece água e o azeite - talvez não seja bem assim

Na sua intervenção, António Ventura, a propósito do tema “a água e o azeite”, deve-se ao facto de, aparentemente, não se poder conciliar uma coisa com a outra – “a maçonaria é uma coisa moderna, que surge no principio do século XVIII, em Inglaterra, com um cariz aristocrático, que depois muda com o andar do tempo, é fortemente influenciada pelo iluminismo, depois no século XIX, é claramente burguesa, liberal e depois republicana, mas sempre com um cariz burguês”, salientou.
Por essa razão, quando olhamos para a maçonaria e para o comunismo, pensamos – “o que é uma coisa tem a ver com a outra, parece a água e o azeite, mas, talvez não seja bem assim, ou não seja completamente assim”, acrescentou o historiador.
“O que é que essa organização tema ver com qualquer coisa que surge, durante a revolução russa?”, interrogou, sublinhando que quando fala de marxismo-leninismo, fala não só de uma teoria, mas a sua concretização prática, que vamos encontrar na Rússia, depois do Outubro de 1917.
“Quando falo de comunismo falo do marxismo-leninsimo”, disse.

Governo da revolução russa de fevereiro com maçons

António Ventura, referiu aspectos diversos que antecederam a revolução de 1917, recordou que o governo provisório saído da Revolução de Fevereiro, existia um número razoável de maçons.
Posteriormente, com a revolução Bolchevique e a tomada do poder pelos bolcheviques, a situação mudou, seguindo-se um clima terrível na Rússia com a guerra civil.
“O Poder soviético tem, não apenas que enfrentar a contra-revolução interna, mas também as potências que invadem a Rússia, nomeadamente Franceses, Ingleses e Japoneses”, sublinhou o historiador.

Nos regimes comunistas a maçonaria foi proibida

António Ventura, na sua intervenção referiu, em junho de 1922, na Rússia, foi publicado um Decreto, que não proíbe a maçonaria explicitamente, mas proíbe todas as associações, grupos ou uniões, que não tenha sido autorizadas – “não há uma proibição explicita da maçonaria”, afirmou.
No entanto, no 1919, numa experiência soviética que decorreu na Hungria - República Soviética da Hungria - foi publicado um Decreto proibindo a maçonaria. Essa república soviética foi esmagada pelas tropas húngaras, com apoio de outros países.
Nos regimes comunistas a maçonaria foi proibida, com maior ou menor veemência, sublinhou António Ventura, acrescentou que em alguns desses países, como Bulgária, Roménia ou Checoslováquia, na realidade a maçonaria foi proibida antes, porque estiveram com o nazismo e com o fascismo.

A Maçonaria nunca foi proibida em Cuba

O historiador salientou que nos países comunistas só há uma excepção que é Cuba. “A Maçonaria nunca foi proibida em Cuba”, disse.
Recordou que, no núcleo castrista da guerrilha, havia vários maçons, e, o principal herói da independência de Cuba José Marti, era maçon, tinha sido iniciado numa Loja em Espanha, que estava ligada ao Grande Oriente Lusitano de Portugal.

Maçonaria afasta trabalhadoras do combate revolucionário

António Ventura, sublinhou que a razão principal, entre outras, que motiva Internacional Comunista a aprovar a incompatibilidade entre ser comunista e ser da maçonaria, está expressa na Enciclopédia Soviética, quando define que – “a maçonaria ao proclamar a fraternidade universal, perante as condições de antagonismo de classe, ela contribui para o reforço da exploração dos homens, afastando as massas trabalhadoras do combate revolucionário”.
“Uma organização que diz que todos os homens são irmão, e que patrões ou assalariados são todos irmãos, isto desvitaliza a luta de classes, nega a luta de classes. Esta é a razão fundamental”, sublinhou.
O historiador recordou, se há hostilidade dos regimes comunistas para com a maçonaria, também há hostilidade de alguns sectores da maçonaria em relação ao comunismo, os quais consideram –“entre comunismo e maçonaria não há conciliação possível”, disse.

Teoria da Conspiração - derruba o melhor dos mundos

António Ventura, na sua intervenção, recordou a Teoria da Conspiração que nasceu por ocasião da revolução Francesa, uma teoria que considerava o regime deposto como sendo o melhor do mundo e, apesar disso, ruiu como um castelo cartas.
Então como se explicava que aquele que era o melhor regime do mundo tenha ruído? Não era por demérito, era o resultado de uma conspiração. Um trabalho de sapa durante décadas para eliminar os alicerces do trono e do altar, esta foi uma tese desenvolvida por uma Abade Jesuíta, que defendeu ter existido uma conspiração para derrubar a monarquia, desenvolvida por uma hidra de três cabeças – os filósofos, os protestantes e a maçonaria.
Esta teoria da conspiração, salientou António Ventura foi adaptada ao longo do tempo. Em primeiro caíram os protestantes.

Todos os judeus são maçons

A teoria da conspiração vai, depois, concentrar-se na maçonaria e nos judeus, referiu o historiador.
Luis Coelho Monteiro, em Portugal no ano de 1823, escreveu que – “o maçonismo desmascarado é judaísmo. Todos os judeus são maçons.”

Judaísmo, Comunismo, Maçonaria tudo a mesma coisa

Entretanto com a revolução russa de 1917 - a nova hidra – passou a ser Judaico – maçónico – comunista/soviético.
“Os principais dirigentes bolchevique eram judeus, e cerca de 90% de origem judaica”, refere António Ventura.
A teoria da conspiração passa a centrar-se no Judaísmo – Comunismo – Maçonaria – “é tudo a mesma coisa, isto foi usado em Espanha durante a Guerra Civil, onde em 1940, foi criado o Tribunal Especial para Repressão da Maçonaria e do Comunismo, que prendeu 80 mil pessoas e condenou 8.911. Comunistas eram fuzilados, Maçons eram condenados e alguns foram fuzilados.
Há um clima antijudaico, anticomunista, antimaçónico constante na europa dos anos 30, marcada pelo nazismo e fascismo, sublinho o historiador.

Em Portugal a Maçonaria foi proibida em 1935

Em Portugal, a Maçonaria foi proibida em 1935, os seus bens foram confiscado e Palácio Maçónico foi entregue á Legião Portuguesa.
“Comunismo é um corolário da maçonaria, maçonaria e comunismo no presente momento histórico, integram-se na realização do mesmo ideal”, era o que se escrevia em Portugal, em 1937.

Incompatibilidade entre a maçonaria e o comunismo.

Outra matéria, abordada por António Ventura foi a aprovação pela IV Internacional Comunista de uma proposta sobre a incompatibilidade entre a maçonaria e o comunismo.
O historiador recordou que Lenine nunca se preocupou com a maçonaria, até era amigo de maçons. Trotsky conhecia bastante a maçonaria, foi o autor da proposta, por uma questão pragmática.
Na época o Partido Comunista Francês era a maior secção da Internacional Comunista. No PCG existiam muitos maçons, dirigentes e Trotsky achava necessário “bolchevizar” o PCF.
Com a aprovação da incompatibilidade saíram dezenas de militantes do PCF para ficar na Maçonaria e outros saíram da Maçonaria para ficar o PCF, sublinhou António Ventura.
Em Portugal Carlos Rates, Secretário Geral do PCP, abandonou a maçonaria, enquanto Sobral de Campos fundador do PCP, entrou para a maçonaria.

Entre os fundadores do PCP há cinco maçons.

O historiador, na sua intervenção recordou que há, em Portugal, vários casos de comunistas que tiveram os pais, os avós, ou irmãos como membros da Maçonaria.
Deu alguns exemplos, que consta no seu livro: Carlos Aboim Inglês, seus pais e avôs foram maçons; Sérgio Vilarigues, teve dois irmãos; Alexandre Babo, foi maçon; Carlos Brito, o seu pai foi maçon, assim com o pai de Angelo Veloso.
Velez Grilo, Emidio Guerreiro, Manuel João Palma Carlos e Ângelo Cortesão, foram maçons. Entre os fundadores do PCP há cinco maçons.

Lenin e Staline nomes simbólicos dos maçons

No final da sua intervenção recordou que no começo do seculo XX, entre os nomes simbólicos dos maçons- nome adoptado por alguém que era iniciado na maçonaria - existam dezenas de Lenine, por todo o país, Karl Marx, Staline, Kroptokine ou Trotsky – este que foi quem proibiu a maçonaria no seio do comunismo.

António Sousa Pereira

21.11.2023 - 19:22

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