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Barreiro – «Momentos para inventar o amor»
Romance de Carlos Alberto Correia com «histórias de personagens que vivem nas franjas»

Barreiro – «Momentos para inventar o amor» <br />
Romance de Carlos Alberto Correia com «histórias de personagens que vivem nas franjas»<br />
. Redição de «Silêncio Mordido» assinala 52 anos de vida literária de Carlos Alberto Correia

O amor esteve à solta, em cânticos e poemas, na tarde de sábado, dia 28 de fevereiro, na Biblioteca Municipal do Barreiro, onde decorreu a apresentação do romance «Momentos para inventar o amor - histórias capciosas e marginais» do escritor Carlos Alberto Correia.

O romance "Momentos para inventar o amor" de Carlos Alberto Correia, foi o leitmotiv para viver momentos únicos, de partilha de sons e textos, que proporcionaram a vivência da diversidade de sentimentos que podem emergir da palavra amor. Foram momentos para escutar, sentir e pensar a palavra amor na poesia e no cântico.
Fernanda Afonso, em leituras suaves e melódicas, deu o mote aos sentimentos que nascem de vivências de amores trágicos, amores difíceis, amores impossíveis ou amores inesquecíveis. Amor só amor. A palavra amor nasceu em cânticos escutados nas margens do guadiana, deslizou na valsa lenta da boneca Copélia, transformou-se num hino à esperança, na ária de Madame Butterfly, e iluminou a beleza de uma rosa no trinado de um fado. Por fim, sentiu-se o silêncio de um começo eterno, aquele que é vivido sempre em ecos que inventam o amor. Assim, foi a dócil abertura, da sessão de apresentação do novo romance de Carlos Alberto Correia. Momentos que permitiram, aos presentes, sentir por dentro do tempo, a beleza da arte, a nascer luminosa, em três andamentos - música, palavra e amor.

A frieza dos poderosos, o egoísmo dos políticos

A escritora Ana Garrido, apresentou a obra de Carlos Alberto Correia, começou por sublinhar que «Momentos para inventar o amor» apresenta-se “como um romance”, mas “não é, contudo, um romance com a estrutura mais habitual. Contém uma quinzena de estórias com outros tantos narradores diferentes. Temos a história de Líria e Bruno, a história do tímido sonhador de esplanada aguardando a passagem da mulher amada, a história do barbeiro a quem as obras camarárias bloqueiam a vida, a história do engraxador de sapatos que tinha ido parar à prisão, a história do cantor homossexual que não tinha com quem falar dos seus desgostos amorosos, a história de Teresa que passou a vida a servir os outros e se envolve com um padre sem vocação, a história do estivador que todos acreditaram que tinha morrido… e outras mais. Há amores adiados, amores proibidos, amores platónicos, amores não correspondidos, paixões abusivas, suicídios por causa de relacionamentos amorosos, homicídios. E além disso muitas peripécias sobre as condições sociais e os comportamentos sociais. Temos a frieza dos poderosos, o egoísmo dos políticos, a condenação dos que se desviam da norma.”

Estas histórias têm também muito, muito de atual

“É verdade que estas histórias têm alguma coisa de datado, hoje já quase não há engraxadores, os bairros da lata não têm os ocupantes e a dimensão que tinham nos anos sessenta, os homossexuais não serão tão discriminados como eram nos anos setenta ou oitenta. No entanto, para nossa surpresa, estas histórias têm também muito, muito de atual. Infelizmente. Na forma como os políticos se distanciam dos eleitores, como a sua visão é parcial, afastada do todo que é a realidade. Hoje diríamos «ficam numa bolha». Atual, diria eu, na constatação de que, tal como nas histórias contadas, a pobreza, o desamparo e a violência continuam gerando outros males, e que as soluções encontradas nos tempos mais recentes não foram suficientemente eficazes. Atual, até na integração de uma personagem que passa de fabricante de componentes hospitalares a fabricante de componentes para armas e de revolucionário a ditador autocrático.”, acrescenta Ana Garrido.

Histórias poderão ser representadas num teatro de fantoches

“Este livro não é simplesmente uma coletânea de contos porque na sua estrutura há algo mais. E esse algo mais é uma narrativa que vai alternando com as histórias referidas, em jeito de fio que suporta as bagas de um colar.”, sublinha a escritora.
Na sua opinião – “estas histórias poderão ser representadas num teatro de fantoches e quem as representa e as vai comentando são os titereiros Oblata e Kismet, ao manobrarem os seus fantoches.”
“A narrativa de Momentos para inventar o amor partilha algumas características com o género dramático, constrói-se com personagens que se chegam à frente para falar, para contar a sua história, como se estivessem à boca de cena e quisessem prender a nossa atenção. Vivem num mundo difícil, num universo que nos aparece irremediável e precisam de ser ouvidas. Algumas são narradores na primeira pessoa. Além disso, há um diálogo que percorre todo o texto, é o diálogo de Oblata e Kismet, deuses rezingando um com o outro. E, depois, a própria alegoria do teatro de fantoches.”, comentou Ana Garrido.

Todos os sistemas, se deixados livres, evoluem para um estado de desordem.

Carlos Alberto Correia, agradeceu à Câmara Municipal do Barreiro e à Biblioteca Municipal do Barreiro, à Ana Garrido pelo notável trabalho de análise, ao seu filho Pedro, autor da capa, e à sua esposa Fernanda Rafael Afonso que –“como sempre me, acompanhou, passo a passo, como em todos os romances que já publiquei, com críticas, ideias e soluções.”
Começou lendo a epígrafe que abre o romance: “Todos os sistemas, se deixados livres, evoluem para um estado de desordem. Também as emoções se organizam em sistemas de sentimentos e opções. Também estes tendem, irreversivelmente, para a entropia?”
Carlos Alberto Correia, sublinhou que “não foi escolhida por acaso. A epígrafe funciona como uma chave de leitura, uma pequena provocação intelectual, mas também como uma espécie de bússola afetiva para se entrar no espírito do livro.
A física ensina-nos que todos os sistemas tendem, se não houver energia externa que os organize, para um estado de entropia, isto é, de desordem.
O café que arrefece na chávena, a tinta que se espalha na água, o universo que se expande e se dissipa — tudo isto são imagens desse princípio. Mas o que me intrigou foi: e se olharmos para as emoções humanas e as entendermos como os sistemas que igualmente são? Também elas se organizam em estruturas frágeis, em equilíbrios precários, em alianças improváveis. E, como todos os sistemas, também as nossas emoções parecem estar sempre à beira de se desmoronarem, de se dissolverem, de perderem a forma.
No fundo esta pergunta, e a resposta que dei, transportam-nos para o coração do romance.”

As personagens vivem em condições de fronteira: entre a estabilidade e o colapso

«Momentos para inventar o amor», disse o autor, «é um livro feito de histórias capciosas e marginais — histórias de personagens que vivem nas franjas, não apenas geográficas ou sociais, mas sobretudo emocionais. São pessoas que tentam, contra a corrente, inventar uma ordem possível para aquilo que, por natureza, é caótico: o amor, o desejo, a memória, a perda.
Se quisermos brincar um pouco com a linguagem da teoria do caos, diríamos que as personagens vivem em condições de fronteira: entre a estabilidade e o colapso, entre a previsibilidade e o imprevisto. É a chamada “borda do caos”, esse ponto em que os sistemas, longe de se destruírem, podem surpreendentemente gerar novas formas de organização. E talvez o amor seja exatamente isso: uma tentativa, sempre renovada, de criar padrões numa realidade que insiste em ser imprevisível.”

As personagens procuram construir sentido, num mundo em permanente entropia

“Não foi por acaso que chamei ao livro “histórias capciosas e marginais”. Capciosas, porque enganam, porque parecem querer levar-nos para um lado e, de repente, revelam outro. O amor, tantas vezes, faz o mesmo: mostra-se como promessa de ordem e acaba por nos lançar no redemoinho da desordem.
Marginais, porque acontecem fora do centro, fora das narrativas tradicionais, no território onde o improvável e o instável se tornam regra.
A teoria dos sistemas ajuda-nos a olhar para isto de uma forma quase lúdica. Nos sistemas complexos, pequenas variações iniciais podem gerar consequências gigantescas: o famoso “efeito borboleta”, salientou Carlos Alberto Correia-
“Qual de nós não experimentou isso na vida afetiva?”. Interrogou.
“Um gesto ligeiro, uma palavra mal escolhida, um silêncio, e de repente tudo muda — amizades que se desfazem, paixões que nascem, futuros que se reorganizam. No terreno das emoções, o caos não é um acidente: é a própria condição de possibilidade.
Ora, escrever este romance foi explorar esse território instável, dar forma literária ao modo como as vidas se cruzam e se desfazem, como os encontros e desencontros se repetem, como as personagens procuram construir sentido, num mundo em permanente entropia.”, disse.

A amizade, sem tempo partilhado, esvazia-se.

“A pergunta que a epígrafe levanta — “Também estes [sentimentos] tendem, irreversivelmente, para a entropia?” — não tem uma resposta fechada. Se seguirmos a física, talvez sim: tudo tende para a dissolução.
Mas a literatura, felizmente, pode propor outra leitura. Porque, mesmo quando tudo parece caminhar para o desgaste, para a fragmentação, a própria narrativa tem o poder de resgatar significados, de dar ordem ao caos.
Escrever — e ler — é, de algum modo, contrariar a entropia.
No entanto, não se trata de um triunfo definitivo. Tal como os sistemas físicos precisam constantemente de mais energia para manterem a sua organização, também os sistemas afetivos precisam de alimento contínuo: de gestos, de palavras, de cuidado.
O amor, sem esse investimento, degrada-se. A amizade, sem tempo partilhado, esvazia-se. A memória, sem a prática de a contar, esbate-se.
O romance é, assim, um retrato de personagens que tentam “alimentar” os seus sistemas afetivos em condições adversas.
Umas vezes conseguem, outras vezes falham — e é desse movimento que nascem as histórias.”, afirmou Carlos Alberto Correia.

Talvez a vida não seja senão uma sucessão de sistemas instáveis

“Gostaria que o leitor sentisse, ao percorrer estas páginas, não apenas a dureza da entropia, mas também a criatividade que nasce do caos.
Porque, afinal, se todos os sistemas tendem à desordem, também é na desordem que encontramos espaço para a invenção.
Inventar o amor — como sugere o título — é precisamente isso: aceitar que não há modelo fixo, que não há equilíbrio garantido, que cada relação é uma reinvenção contínua, sempre provisória, sempre vulnerável.
A entropia pode ser inevitável, mas não é estéril. É dela que nasce a necessidade de contar histórias, de fixar num instante o que de outro modo se perderia.
É isso que moveu a escrita de “Momentos para inventar o amor”: não a ilusão de vencer o caos, mas a vontade de habitá-lo, de o transformar em literatura.
Deixo-vos, portanto, esta reflexão: talvez a vida não seja senão uma sucessão de sistemas instáveis a tentar organizar-se contra a previsível entropia.
E talvez a literatura, e a arte em geral, seja a energia externa que nos permite, mesmo que por instantes, manter alguma forma, algum sentido, algum sopro de beleza nas nossas vidas.”, referiu a finalizar.

52 anos de vida literária de Carlos Alberto Correia

Após a apresentação do romance Momentos para inventar o amor”, reviveu-se a história, com a apresentação de uma edição fac-simile do livro de poemas «Silêncio Mordido», com capa de Kira, que devia ter sido apresentado no dia 25 de Abril de 1974, mas, devido aos acontecimentos que colocaram o país em alvoroço, de cravos erguidos, naquele dia puro e limpo, a cantar a liberdade, esse belo legado da revolução dos cravos.
Os poemas proibidos de Carlos Alberto Correia, nesse dia, respiraram a beleza da Primavera e, hoje, neste ano de 2026, passados 52 anos, renascem para celebrar os 52 anos de vida literária de Carlos Alberto Correia – uma vida irreverente de amor à Liberdade.
Esta obra foi reeditada pela editora E-BooK link

S.P.

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03.03.2026 - 19:45

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