reportagem
Barreiro - Conferência promovida pela URAP
Recorda os 90 anos da Guerra Civil de Espanha e reforça a importância da memória histórica
. Debate as marcas da violência, o papel da memória e os desafios perante o crescimento dos movimentos autoritários. A Cooperativa Cultural Popular Barreirense recebeu, no dia 20 de junho, a conferência «Nos 90 anos da Guerra Civil de Espanha», uma iniciativa promovida pela URAP, Núcleo Concelhio do Barreiro, que reuniu participantes para refletir sobre um dos conflitos mais
marcantes do século XX e sobre as suas consequências políticas, sociais e humanas.
A sessão contou com a participação da Dra. Dulce Simões, antropóloga, investigadora, escritora e conferencista, que abordou diferentes dimensões da Guerra Civil Espanhola, desde o contexto histórico até à importância da preservação da memória.
Um conflito que marcou Espanha e a Europa
Iniciada em 1936, a Guerra Civil de Espanha resultou do confronto entre as forças republicanas e os militares revoltosos liderados pelo general Francisco Franco. O conflito transformou-se rapidamente numa disputa ideológica internacional, envolvendo diferentes apoios externos e tornando-se um dos acontecimentos que antecederam as grandes tensões políticas que marcaram a Europa na década de 1930.
O impacto internacional e as consequências humanas da guerra
Durante a conferência, a investigadora destacou a dimensão internacional da guerra e o papel assumido por diferentes países, incluindo Portugal, onde o Estado Novo de António de Oliveira Salazar apoiou as forças franquistas. Foram também abordadas as consequências do conflito junto das populações civis, nomeadamente a perseguição política, a repressão e os movimentos de fuga e exílio provocados pela violência.
A importância da memória histórica e da identificação das vítimas
Um dos momentos centrais da reflexão esteve relacionado com a recuperação da memória histórica e com a identificação das vítimas que permanecem desaparecidas em valas comuns. Para a Dra. Dulce Simões, este trabalho é essencial não só para as famílias e descendentes das vítimas, mas também para a sociedade compreender a dimensão da violência praticada durante o conflito.
“É alguma coisa que é fundamental para as famílias, para os descendentes e, sobretudo, para uma questão de justiça e para termos um conhecimento mais amplo daquilo que foi a violência e a tragédia”, afirmou a investigadora, referindo-se à necessidade de preservar a memória dos acontecimentos e reconhecer o sofrimento das vítimas.
Preservar o passado para evitar o esquecimento
A conferencista sublinhou ainda a importância de compreender a repressão exercida durante a ditadura franquista, destacando que a recuperação destas memórias permite analisar de forma mais profunda as consequências humanas da guerra e evitar o apagamento histórico daqueles que foram perseguidos.
A relação entre a História e os desafios atuais
A relação entre o passado e os desafios políticos atuais foi outro dos temas abordados. Questionada sobre a possibilidade de retirar ensinamentos da Guerra Civil de Espanha perante o crescimento de movimentos extremistas e autoritários em vários países, Dulce Simões explicou que existem diferenças entre o contexto atual e a década de 1930, mas que a História continua a ser uma ferramenta fundamental de reflexão.
Segundo a investigadora, apesar das diferenças, existem atualmente “conjunturas adversas” marcadas pelo crescimento da extrema-direita em vários países, sendo necessário recorrer ao conhecimento histórico para compreender os riscos associados à intolerância e ao enfraquecimento dos valores democráticos.
“O que nós podemos recolher do passado é precisamente o conhecimento e a experiência para encontrarmos as formas de luta e de resistência que possam conter a ascensão e, no fundo, o regresso de ditaduras”, afirmou.
Democracia, conhecimento e combate aos discursos populistas
A antropóloga defendeu ainda a importância de uma participação democrática mais informada, alertando para os perigos de discursos simplistas e populistas que podem ganhar força quando existe desconhecimento sobre os acontecimentos históricos.
“O conhecimento que tivermos do passado e da história é absolutamente fundamental para entendermos melhor o presente e, sobretudo, para sabermos o que é que não queremos de futuro”, concluiu.
Uma memória que continua atual
A conferência terminou com uma reflexão sobre a necessidade de continuar a estudar e divulgar a memória da Guerra Civil de Espanha, não apenas como forma de homenagear as vítimas, mas também como instrumento de defesa da democracia e dos direitos humanos.
Ao assinalar os 90 anos do início do conflito, a iniciativa da URAP Barreiro reforçou que a História permanece atual e que recordar o passado é essencial para compreender os desafios do presente.
Sara Morgado
22.06.2026 - 15:20
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