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Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal
Aprendamos a cultivar a gentileza assim palavras de ódio poderão dar lugar a palavras de esperança
O Bispo de Setúbal, Cardeal D. Américo Aguiar, na sua Mensagem para a Quaresma, apela não apenas à oração e ao jejum, mas também à esmola, com o fim de, na Diocese de Setúbal, prover às necessidade de todos os que foram afetados pelo mau tempo.
Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal
Mensagem para a Quaresma 2026
Saudações fraternas a todos, todos, todos.
Iniciamos, com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, o santo tempo da Quaresma: quarenta dias de graça que o Senhor nos oferece como caminho de conversão, de renovação interior e de regresso ao essencial da nossa fé.
Ao recebermos sobre a nossa cabeça as cinzas, escutamos palavras que nos despertam: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho.” Este apelo não é uma ameaça, mas um convite cheio de esperança. Deus nunca Se cansa de nos procurar, nunca desiste de nós, nunca fecha o Seu coração à nossa fragilidade.
Neste caminho quaresmal, a Igreja volta a confiar-nos os três grandes meios espirituais que sustentam a nossa vida cristã: a oração, o jejum e a esmola.
A oração é o respirar da alma. Num mundo marcado pela pressa, pelo ruído e pela dispersão, somos chamados a redescobrir o silêncio que nos permite escutar Deus. Rezar é permanecer com o Senhor, é deixar que a Sua Palavra ilumine as nossas feridas e decisões, é aprender a olhar a vida com os olhos de Cristo.
O jejum recorda-nos que não vivemos apenas do que é material. Jejuar não é só abdicar de alimentos, mas também de atitudes que nos afastam de Deus e dos irmãos: o orgulho, a indiferença, a violência nas palavras, o egoísmo nas escolhas. O verdadeiro jejum liberta o coração para amar mais e melhor.
Nesta Quaresma, iluminados também pelo convite do Santo Padre Papa Leão XIV na sua Mensagem para a Quaresma 2026, somos chamados a redescobrir uma forma muito concreta de abstinência, tantas vezes esquecida: a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Somos desafiados a desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias que dividem e envenenam as relações.
Aprendamos, pelo contrário, a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates públicos, nos meios de comunicação, nas nossas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio poderão dar lugar a palavras de esperança, de reconciliação e de paz. Também este é um jejum que agrada a Deus e que transforma o mundo a partir do coração humano.
A esmola, por sua vez, é o gesto concreto de quem reconhece no outro um irmão. Não é dar do que sobra, mas partilhar do que somos e do que temos. É fazer da própria vida um dom.
Vivemos, porém, esta Quaresma num contexto particularmente exigente. A calamidade que tem atingido tantos dos nossos concidadãos — nas suas casas, nos seus trabalhos, na sua saúde, nas suas esperanças — não nos pode deixar indiferentes. São rostos concretos, famílias concretas, histórias concretas que pedem proximidade, solidariedade e compromisso.
Como Igreja diocesana, queremos estar onde a dor se faz mais sentir. Queremos ser presença que consola, mão que levanta, comunidade que não abandona.
É neste espírito que vos indico o destino da Renúncia Quaresmal deste ano: ela será integralmente orientada para o apoio às pessoas e famílias mais afetadas por esta situação de calamidade que atravessamos. Por meio das estruturas sócio caritativas da Diocese, procuraremos que a vossa partilha chegue de forma justa, próxima e transformadora àqueles que mais necessitam.
Escrevo-vos esta mensagem encontrando-me em plena Visita Pastoral às Paróquias da Costa da Caparica e da Trafaria, no concelho de Almada. No contacto direto com as comunidades, com os seus padres, agentes pastorais e fiéis, levo comigo as alegrias, as preocupações e as esperanças de todo o nosso povo. Esta proximidade reforça ainda mais a consciência de que caminhamos juntos, sustentando-nos uns aos outros na fé e na caridade, especialmente nos momentos de maior provação.
Inspirados ainda pela reflexão do Santo Padre, deixemo-nos interpelar pela força da palavra “Juntos”. A Quaresma não é um caminho solitário, mas profundamente comunitário. A Sagrada Escritura recorda-nos, por exemplo, como o povo se reuniu para escutar a leitura do Livro da Lei e, jejuando, se dispôs à confissão de fé e à renovação da Aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).
Também hoje, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus — bem como do clamor dos pobres e da terra — se torne forma concreta de vida comum, e o jejum sustente um verdadeiro arrependimento.
Neste horizonte, a conversão não diz respeito apenas à consciência individual, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de nos deixarmos interpelar pela realidade e de reconhecer o que orienta o nosso desejo, tanto nas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.
Renunciar, na Quaresma, não é perder — é multiplicar. Aquilo de que abdicamos torna-se esperança para alguém. O pouco que cada um oferece torna-se muito quando passa pelas mãos de Deus.
Convido todas as paróquias, comunidades religiosas, movimentos e serviços diocesanos a viverem intensamente este caminho: na liturgia, na caridade organizada, na atenção aos mais frágeis, na criatividade pastoral que o Espírito suscita.
Caminhemos juntos. Não façamos da Quaresma um tempo triste, mas um tempo verdadeiro. A conversão cristã não nasce do medo, mas do amor que se deixa transformar.
Que Maria, Mater Spei, Mãe da Esperança, acompanhe a nossa Diocese neste itinerário quaresmal e nos ensine a guardar Jesus no coração e a levá-Lo aos irmãos.
Com a minha bênção e amizade de pastor, santa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor!
† Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal
15.02.2026 - 14:14
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