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Crónica de um dia de verãoPor Isabel Mateus Braga
Barreiro

Para muitos portugueses, o verão começa na Páscoa. É nessa altura que começa a operação Algarve. As plataformas de aluguer de casas para férias são passadas a pente fino à procura daquela rara espécie de arrendamento: bom, bonito, perto da praia e barato. Claro que está espécie está em vias de extinção.

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Crónica de um dia de verão Por Isabel Mateus Braga Barreiro

Por Jornal Rostos

Há dois anos eram duas semanas de férias. Agora é só uma. Uma semana chega perfeitamente. Até porque, com o preço das sardinhas, das bolas de Berlim e do aluguer da casa, mais vale passar quinze dias a olhar para as fotografias das férias.
Chega finalmente o grande dia.
Carro carregado até ao tejadilho: Malas, sacos, cadeiras de praia, chapéu de sol, geleira, brinquedos, colchão insuflável, toalhas, cremes, sandálias e aquela tralha toda que ninguém sabe para que serve, mas que pode fazer falta.
Depois de horas de viagem, chegam ao Algarve.

Descarregam tudo, distribuem os quartos, quando há mais do que um, e começam psicologicamente para o primeiro grande acontecimento das férias - a ida à praia.
O miúdo leva o crocodilo debaixo do braço, e vai feliz da vida. Só tem uma única preocupação “ Oxalá que o crocodilo não se fure”, as aulas de natação já lhe permitem nadar de três metros, mas no mar é preciso respeitar a segurança. E nada transmite mais confiança a uma criança do que um crocodilo verde com os olhos esbugalhados.
Chegados à praia, começa a segunda aventura - encontrar lugar.
- Ali!
- Está ocupado.
- E ali?
- Também.
- Mais à frente?
- Está lá uma toalha.
Uma toalha abandonada, sozinha, sem ninguém à vista, mas que não se toca, porque aquela toalha foi colocada às sete horas da manhã e representa um dado adquirido.
Lá continuam a caminhada, carregados até encontrarem finalmente um espacito.
- É aqui! É o lugar ao sol.
Cinco minutos depois, passa a ser o lugar à sombra do chapéu de sol, porque ninguém quer passar férias com uma insolação.

Os miúdos, que durante toda a viagem, diziam estar cansados, recuperam milagrosamente.
Disparam para o mar.
- Está fria.
- Está gelada.
- Eu não entro!
- Vieste para a praia fazer o quê?
- Molhar os pés.
O pai, cheio de coragem, entra mar adentro.
- Está ótima!
Mentira, está gelada mas, homem que é homem não admite.
Entretanto chega a hora do almoço.
- Onde é que vamos comer?
- Vamos ao mesmo restaurante do ano passado.
- Mas temos que esperar ao sol, quase uma hora!
- Deixa lá, estamos de férias.
Esta frase é maravilhosa. “ Estamos de férias”, é usada para justificar tudo.
Uma hora numa fila, preços absurdos, comer ao sol, esperar pelo café, esperar pela conta, esperar no multibanco …….
Tudo se aceita. Estamos de férias.
Finalmente sentam-se.
Sardinhas, batatas cozidas e salada.
As moscas chegam primeiro, fazem a seleção dos lugares e começam a almoçar também.
Mas ninguém reclama. Estamos de férias.
Depois do almoço regressam à praia, porque é preciso aproveitar.
Afinal, cada hora de praia custa dinheiro e ficam até ao fim do dia.

Entre mergulhos, areia dentro da toalha, areia nas sandálias, areia no carro e areia em sítios que desafiam qualquer explicação científica.
Ao fim da tarde, ouve-se por todo areal:
- José, binde, binde à minha beira.
E lá vem o José
E assim se passam os dias:
Acordar, praia, sardinhas, bejecas,, creme solar, crocodilo, areia, fila, calor.
E ao fim do dia a frase:
- Estou estourado!
Claro que está. Passou o dia todo a “descansar”.
No último dia, começa a operação inversa.
Arrumar as tralhas, descobrir onde é que foram parar os brinquedos, encontrar as meias desaparecidas, tentar tirar a areia do carro, tarefa impossível. A areia regressa de férias com eles, e há-de ficar.
Chegam a casa, cansados, bronzeados e felizes, e quando alguém pergunta:
- Descansaram?
- Muito.
Porque férias são isto: Trabalhar o ano inteiro para conseguir uma semana em que se passa o dia a carregar tralhas, procurar lugar na praia, esperar em filas e comer sardinhas ao preço do caviar.
Mas não faz mal para o ano há mais, se houver dinheiro, se houver sardinhas e se encontrarmos uma pechincha no Algarve.

Isabel Mateus Braga

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