Barreiro - Rosto do Ano 2025«O Barreiro é um sítio fantástico. Os barreirenses precisam de o descobrir»
afirma Nuno Banza, rosto na Área Ambiente
«As pessoas não estavam à espera que, num sítio como o Barreiro, pudesse ser possível criar um espaço, com uma dimensão relevante, uma área com mais de 800 hectares. Não estavam à espera que fosse possível criar uma reserva natural, e foi possível», afirma Nuno Banza.

Por Jornal Rostos
Nuno Miguel Soares Banza, 50 anos, natural do Barreiro, é licenciado em Engenharia do Ambiente e Mestre em Ordenamento do Território e Impactes, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. É Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Foi fundador e presidente da Geração Verde - Associação Jovem de Defesa do Ambiente, uma associação local de defesa do ambiente do Barreiro, entre 1996 e 2001.
Foi fundador da Reserva Natural Local da Mata Nacional da Machada e Sapal do Rio Coina e o primeiro Presidente da Comissão Diretiva, enquanto eleito local. Foi o responsável pela candidatura ao Programa Comunitário IEE/EACI que financiou a criação da Agência Regional de Energia para os concelhos do Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete (S. Energia), da qual foi Diretor Técnico. No setor privado, foi gestor de projetos ambientais e consultor de várias entidades na área da Avaliação de Impactes Ambientais.
Desempenha o cargo de Presidente do Conselho Diretivo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P. desde maio de 2019.
Vida dedicada a fazer coisas na área do ambiente
Que significado atribui por receber o rosto do ano?
«Costumo dizer que ninguém vive de louvores, mas o reconhecimento é uma coisa importante, porque a motivação não está nas pessoas que fazem, está também no resultado das coisas. O resultado não é para quem faz, é para os outros. Uma forma de avaliar se o que estamos a fazer tem resultado é observar o que os outros dizem, o que os outros pensam e como os outros reagem ao que fazemos.
Portanto, receber uma distinção é uma coisa importante, e, receber uma distinção do jornal Rostos, é ainda mais importante, por tudo aquilo que reconheço de mérito e de excelência no trabalho do jornal Rostos.
E receber, na área do ambiente, para mim, é muito importante, porque toda a minha vida foi sempre dedicada a fazer coisas na área do ambiente. A distinção é um resultado que valorizo bastante.
Mata da Machada e Sapal do Rio Coina - sentir orgulho naquele espaço
A criação da Reserva da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina, é indissociável do seu nome. Qual o significado deste projecto para o concelho do Barreiro?
«A Reserva da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina é, um bom exemplo daquele princípio – o homem que mordeu um cão. A proposta num tempo que exerço, na Câmara, as funções de vereador com o pelouro do Ambiente, num contexto em que o Barreiro, ainda carregava às costas uma marca muito negativa, que radicava na ideia que as pessoas tinham do Barreiro, como um sítio poluído, com muitas fábricas, com ruído, com poucas condições ambientais e muita poluição. Toda a gente tinha, infelizmente, esta opinião sobre o Barreiro.
As pessoas não estavam à espera que, num sítio como o Barreiro, pudesse ser possível criar um espaço, com uma dimensão relevante, uma área com mais de 800 hectares. Não estavam à espera que fosse possível criar uma reserva natural, e foi possível.
Esta reserva tem dois sistemas ecológicos extremamente importantes. Os sapais, são áreas de retenção de carbono e das mais produtivas da bioesfera, onde existe da maior diversidade de espécies e de habitats, onde existe a capacidade de berçário de peixes, de moluscos de bivalves, e de uma série de outras espécies, também de aves aquáticas. E existe uma área florestal, não uma floresta de produção, mas uma floresta de enquadramento, uma floresta que tem vindo a ser gerida com o objectivo de manter o espaço como um pulmão verde.
Aqueles espaços, paredes meias um com o outro, são, na verdade. uma área muito relevante num concelho com 3400 ou 3500 hectares, no qual há 800 hectares que são uma reserva natural.
Existia a importância do ponto de vista ecológico, existiam as características territoriais, o que faltava era a coragem política de declarar que aquele espaço, terá sempre uma vocação de conservação da natureza.
Se há uma coisa da qual verdadeiramente me orgulho, é a Reserva Natural embora seja preciso dizer, que ninguém faz nada sozinho e há trabalho de muita gente. Criámos um grupo que se orientou para o mesmo objectivo e fez algo que fica para gerações futuras.
Já ninguém, terá a coragem de olhar para aquele espaço, com uma vertente diferente. Aqueles espaços da reserva vão ter sempre como objectivo a preservação da natureza e do capital natural, de preservação de espécies, de depuração de água.
Um espaço com uma vantagem incrível está aqui à nossa porta, para vivermos a experiência de passear na natureza, e, associado ao Centro de Educação Ambiental, é uma realidade que existe em muitos poucos concelhos. O território deve sentir orgulho naquele espaço.”
Enche-me de orgulho a criação da S.Energia
O ambiente faz parte da sua vida, que significado tem para a sua pessoa?
«Eu fui um privilegiado. É um contrassenso. Nasci no Lavradio às portas da fábrica, com as descargas do amoníaco, com o fosfogesso, com os esgotos a descarregar para as praias, com a frente ribeirinha bloqueada pelas fábricas. O meu contexto era o contexto fabril, de uma fábrica que não tinha em atenção a qualidade de vida das pessoas. O ruído. A poluição do ar e da água. Era uma realidade.
A experiência de uma criança criada neste ambiente foi um caminho para pensar uma forma de contribuir para que estas situações deixassem de existir. Aos 12 anos, eu mais a Mariana, já procurávamos informação, na Biblioteca, para emitir num programa da rádio local, sobre questões do ambiente. Quando decidi estudar, as minhas opções foram sempre para áreas do ambiente. Todo o meu percurso profissional foi sempre ligado ao ambiente.
Olho para trás, e registo que consegui para além das matérias do ambiente, manter a minha ligação à sociedade como voluntário, ligar-me ao associativismo, na SFAL, ir abrir a Biblioteca. O ambiente do associativismo foi muito importante, essa vivência, apesar da minha ligação à área do ambiente, mantive sempre ligação às pessoas e à comunidade.
Criámos a ‘Geração Verde´ que foi a precursora do Centro de Educação Ambiental. A candidatura que apresentei, em 2004, para a abertura do centro, foi importante as experiências que a Geração Verde, tinha dinamizado, com crianças, na Mata da Machada.
Estive sempre ligado profissionalmente a questões do Ambiente, enche-me de orgulho a criação da S.Energia, e saber continua e está em expansão, que vai ligar-se a Almada.
Agora, estou há mais de sete anos no ICNF. Toda a minha vida é na área do ambiente. Considero-me, por isso, um privilegiado. Fiz um percurso profissional que me orgulho. E consegui, ao longo dos anos trabalhar, sempre, na minha área de eleição. Faço o que gosto.»
Barreiro tem tudo aquilo que precisa
Que mensagem deixa aos barreirenses?
«O Barreiro é um sítio fantástico. Os barreirenses precisam de o descobrir. Muitas pessoas, no Barreiro, não conhecem o Barreiro. O Barreiro tem uma experiência feita de muitas pessoas. Há um conjunto de pessoas do Barreiro, de partidos políticos diferentes, de origens diferentes e de formações diferentes que têm actualmente um papel relevante na sociedade portuguesa. São pessoas com papel de referência no país, têm sorte em poder desempenhar essas funções, sorte essa, que também partilho. Acho que isso não é por acaso. Há um caldo comunitário, uma mistura de valores, de experiências, até, de algumas diferenças de opinião, de discussão saudável, de diferenças de percepção das coisas, que fazem que haja um conjunto de pessoas que tiveram sorte de ter experiências que as enriqueceram bastante.
O Barreiro continua a ter esse mérito, continua a ter o mérito de poder proporcionar aos barreirenses e a outros, que se tornam barreirenses, uma experiência de vida muito útil.
Eu continuarei sempre a dizer, que o Barreiro tem tudo aquilo que precisa, para proporcionar aos seus habitantes, uma vida muito boa. Precisamos que as pessoas se envolvam.”
Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano
Nuno Banza, por toda a sua dedicação na valorização do Ambiente no concelho do Barreiro, no passado e no presente, merecidamente recebe a distinção Rosto do Ano 2025 na área do Ambiente.
A Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano, vai decorrer numa sala dos Cinemas Castello Lopes, no Barra Shopping, no próximo dia 27 de Setembro, pelas 10h30, sendo integrada no programa de comemorações dos 25 anos do jornal Rostos.
António Sousa Pereira
T- 180
Fotografia - Marta Sousa Pereira













