inferências


Inferências
O logótipo do Barreiro e a “cultura da cidade”

A mudança de um logótipo tem custos, não só financeiros, mas, naturalmente, como instrumento de afirmação de uma imagem de marca e de referência do concelho.
Se, cada vez que mudar a gestão, em cada mandato, se entrar, num processo de mudança de imagem, o concelho não ganha e, tal, será, apenas, um elemento de confronto político-partidário.
Mas, na verdade, perante a discussão politico partidária em curso, de facto, parece inevitável a mudança do logótipo.

Nos últimos dias uma das matérias que tem marcado a agenda política, de forma velada, ou de confronto, mais, ou menos directo, tem sido a “troca de galhardetes” em torno do tema : o logótipo do Barreiro.
Em algumas das reuniões da “Opções Participadas”, um ou outro munícipe tem interrogado o Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, sobre as razões porque mantém o “logótipo” herdado da gestão socialista e, porque razão, não retomou a utilização do logótipo, da gestão comunista - os “Moinhos de Alburrica”
Por outro lado, numa das reuniões da Assembleia Municipal do Barreiro, Madalena Alves Pereira, lamentou que, na última edição do Boletim Municipal, a Câmara Municipal tivesse “escondido o logótipo”, não o inserindo na publicação.

A prioridade na mudança do logótipo

O Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, quer nas respostas que deu aos munícipes nas reuniões das “Opções Participadas”, quer na resposta que deu a Madalena Alves Pereira, referiu que a mudança de um logótipo tem custos elevados, pelo que não se justificava dar prioridade a essa matéria, salientou que, por razões emocionais, identifica-se com o logótipo dos “Moinhos”, e, naturalmente, não se identifica com o logótipo herdado da gestão do Partido Socialista.
Por outro lado, a este propósito, recordou que uma das primeiras preocupações do Partido Socialista ao ter assumido a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, foi proceder à alteração do logótipo, pelo que, não sendo, para si, promover qualquer mudança de imagem, uma prioridade de gestão, também, salientou, que tal é uma “prova que não somos todos iguais”.

O brasão símbolo do concelho do Barreiro

Todos os concelhos do país, como sabemos, possuem o seu símbolo, o seu brasão.
O Barreiro tinha o seu belo brasão de Vila o qual foi motivo de mudança, nos anos 80, após à elevação do Barreiro à categoria de cidade.
A mudança do símbolo heráldico do Barreiro foi objecto de um “Concurso de Ideias”, cujas regras foram previamente na reunião da Câmara Municipal do Barreiro, no qual definiam-se algumas “ideias” que os “criativos” deveriam ter em consideração, entre as quais a “realidade industrial” e as “vivências associativas”.
Após o júri aprovar a atribuição dos prémios aos trabalhos apresentados a concurso, posteriormente, em reunião de Câmara, o trabalho premiado foi aprovado pela Câmara Municipal do Barreiro.
O brasão da Cidade existe e, é, sem dúvida, por todos reconhecido, como o símbolo do concelho do Barreiro – estando a li presente a sua memória, desde a génese do concelho, passando pela sua cultura operária, até ao sentir da identidade solidária e associativa, que marca a forma de ser e estar no Barreiro.

Do brasão institucional a uma nova imagem visual

O desenvolvimento do Poder Local, após o 25 de Abril, por diversos concelhos do país, introduziu novas dinâmicas de gestão, novas formas de intervir dos municípios na vida das cidades, quer no plano cultural, desportivo, económico ou social, e, naturalmente, também, tal aconteceu no plano da comunicação.
Esta nova realidade, no âmbito da comunicação, fez emergir a criação de “linhas gráficas”, até, devido ao desenvolvimento de novas teorias de comunicação, ao nível do design ( fenómeno que atravessou as autarquias, as empresas e instituições – quem não recorda as mudanças de símbolos, por exemplo da CP e o surgimento do seu novo logótipo).
Na verdade os brasões dos municípios, geravam pouca visibilidade na diferenciação da comunicação.
Num mundo, na verdade, cada vez mais marcado por uma cultura visual, a comunicação exigia que fossem criados logótipos, que de forma mais directa contribuíssem para a identificação e diferenciação dos municípios.

Os Moinhos de Alburrica ex-libris do concelho

Na verdade, as novas dinâmicas na comunicação, o desenvolvimento de politicas de imagem, originou, naturalmente, o surgimento de logótipos por diversos concelhos do país.
No Barreiro, o chamado “ex-libris” _ Moinhos de Alburrica – foi a inspiração para a criação do novo logótipo, utilizado como elemento de identificação e imagem do concelho do Barreiro.
Os “Moinhos de Alburrica” como logótipo não mereceu contestação.
Não sei se o mesmo foi, ou não, objecto de aprovação ou apreciação, em reunião da Câmara Municipal do Barreiro.
O único comentário que recordo, a altura, de ter escutado, foi que a gestão PCP/CDU, ao começar a utilizar este logótipo estava a recuar, em relação, à concepção de cultura operária, e, lembro-me de ter refutado esta ideia, referindo que, nesse ponto de vista, de “leitura” ideológica do logótipo, então, seria o contrário, porque, neste caso estava a remeter a avaliação de uma cultura de trabalho a épocas mais remotas da pré-cultura industrial do Barreiro.
Nunca tive nada contra os “Moinhos de Alburrica”, sempre gostei, quer pela ligação da cidade com o rio, quer por ser uma imagem que evoca uma das mais belas paisagens do nosso concelho e, sem, dúvida um dos seus ex-libris.
Refira-se que a criação deste logótipo não foi objecto de qualquer concurso de ideias e foi uma criação dos serviços municipais, creio que foi o saudoso Lacerda, técnico da autarquia, o seu criador.

Um logótipo moderno com a ideia de mudança

A gestão socialista que, na verdade, na oposição nunca teceu criticas ao logótipo dos “Moinhos de Alburrica”, considerou importante criar um novo logótipo, dado que considerava tal, essencial, para estimular a ideia de mudança.
A firma MIOPIA, uma empresa do Barreiro, com pergaminhos ao nível internacional no mundo da comunicação e imagem, foi convidada para criar a nova imagem para o concelho do Barreiro.
Recordo, no dia em que os órgãos de comunicação social foram convidados para apresentação do logótipo, ter comentado que, a imagem apresentada, era dinâmica, tinha duas visões muito interessantes – visto, com um olhar na horizontal – era uma estilização da muleta e dava a ligação da cidade com o rio; e, por outro lado, observando na vertical, numa visão de helicóptero, tal permitia visionar, os Moinhos de Alburrica e as suas caldeiras.
Reconheço que foi uma criação bem conseguida, que introduzia uma linha de modernidade, sem destruir ou eliminar a presença do ex-libris que marcou a gestão PCP/CDU.
Não sei se, o novo logótipo, foi discutido ou aprovado em reunião da Câmara Municipal do Barreiro.
O Partido Socialista apresentou o novo logótipo, com uma campanha de marketing, estruturada, mas, de imediato, sofreu a contestação dos sectores da população ideologicamente identificados com a gestão PCP/CDU.
Portanto, o novo logótipo, acabou por ficar identificado, apenas, com a nova força liderante, ser uma imagem de marca da nova gestão municipal.
Naturalmente que, após a vitória do PCP/CDU, nas últimas eleições autárquicas, muitos dos eleitores da força vencedora, obviamente, que teriam que exprimir o sentimento de retomar algo que, obviamente, consideravam que tinha sido retirado pela festão socialista.

Os logótipos estão feridos de morte

E, de facto, chegamos aos dias de hoje. Uns a reivindicar o regresso dos “Moinhos de Alburrica” como logótipo do concelho; outros a considerar que o logótipo da gestão socialista está ser escondido ou ignorado.
E, na verdade, aquilo que deveria ser uma imagem de marca de um concelho, uma referência de comunicação, está, infelizmente, marcada por uma conflitualidade politico-partidária.
Há concelhos no país, que criaram os seus logótipos, ao longo dos anos têm-se verificado mudanças nas gestões, em sucessivas eleições, mas o logótipo foi sendo mantido.
Um logótipo de um concelho, não tem, ou não deveria ter que ser, um elemento de identificação do modelo de gestão, seja ele socialista, ou comunista, porque afinal, se assim for esse logótipo está a excluir outros cidadãos, os sem partido, ou de outros partidos, que não sejam forças políticas que, em tal ou tal momento, sejam forças dominantes.
Neste contexto, os logótipos quer o utilizado pela gestão PCP/CDU, quer o utilizado pela gestão PS, estão, actualmente, feridos de morte, pela carga politico partidária que ambos suportam, pela forma como, afinal, foram impostos à cidade.

É inevitável a criação de um novo logótipo

No novo mundo de comunicação, sem dúvida, que é importante a existência de um logótipo que contribua para a projecção de uma imagem do concelho do Barreiro.
Não sei qual a solução que os nossos políticos vão adoptar, mas, pelo que se vai ouvindo, a actual gestão, ao longo do mandato, certamente, irá apresentar um novo logótipo.
A mudança de um logótipo tem custos, não só financeiros, mas, naturalmente, como instrumento de afirmação de uma imagem de marca e de referência do concelho.
Se, cada vez que mudar a gestão, em cada mandato, se entrar, num processo de mudança de imagem o concelho não ganha, e, tal será, apenas, um elemento de confronto político-partidário.
Mas, na verdade, perante a discussão politico partidária em curso, de facto, parece inevitável a mudança do logótipo.

A criação de um novo logótipo e a cultura de cidade

Seria pois, importante que, no processo de criação de um novo logótipo, se apostasse, talvez num concurso de ideias, no envolvimento da população, sendo este, também, um caminho positivo de estimular a participação e a vivência da cidadania.
Até mesmo, a Assembleia Municipal do Barreiro, deveria, enquanto órgão político de excelência do concelho do Barreiro, efectuar uma abordagem séria e descomplexada desta matéria, pondo de lado ressentimentos que, poderão, naturalmente, existir dada a forma como os processos de criação dos logótipos foram conduzidos ao longo dos anos.
Um logótipo do concelho tem que estar para além, muito para além, da força política que gere, em tal ou tal momento, o concelho do Barreiro.
Pessoalmente, volto a repetir sempre gostei do logótipo dos “Moinhos de Alburrica”, mas, de facto, o novo logótipo criado, ao manter, também, a referência àquele espaço mitico, e introduzir um design, moderno, também me cativou, e sempre o observei com essa visão de ver o que lá está e, naturalmente, o que lá é possível colocar.
Reconheço, no entanto, não “pelo fundo”, mas “pela forma” que o actual logótipo, herdado da gestão socialista, não tem sustentabilidade na comunidade, dado, que será sempre visto como uma “agressão”, um pontapé que se pretendeu dar na gestão comunista.
Por outro lado, se o PCP/CDU retomar o antigo logótipo, igualmente, tal será sempre, um factor de divisão ( porque haverá sempre quem não o aceite) dada a carga político-partidária que já está subjacente.
Sou, portanto, por todas estas razões, infelizmente, defensor da criação de um novo logótipo, mas, penso que, o mesmo, deve nascer, de um amplo consenso, de um “Concurso de Ideias” e de uma motivação dos cidadãos para a sua implementação e aceitação, de forma a que o mesmo se possa afirmar como uma referência do Barreiro do século XXI, da sua cultura e da sua cidadania solidária.

António Sousa Pereira


9.10.2006 - 1:08


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